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11 de Março de 2008 - 20h00 - Última modificação em 11 de Março de 2008 - 20h00


“Ninguém tem escrito na testa que é guerrilheiro”, afirma general

Sabrina Craide
Repórter da Agência Brasil

 
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Brasília - Nesta segunda parte da entrevista concedida à Agência Brasil, o general Augusto Heleno Ribeiro, comandante do Comando Militar da Amazônia, diz que é possível que membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) entrem no Brasil para comprar alimentos, remédios e até mesmo para serem atendidos em hospitais militares de municípios próximos à fronteira. Segundo ele, a entrada de guerrilheiros como civis não pode ser impedida. O general lembra o episódio do Rio Traíra, em 1991, quando um grupo das Farc atacou uma base militar no Brasil, e disse que “seria leviano” afirmar que isso não pode acontecer novamente.

Agência Brasil: Existe algum tipo de infiltração das Farc no Brasil?

Augusto Heleno Ribeiro: Nós tivemos um incidente com as Farc em 1991, conhecido como incidente do Traíra, onde uma patrulha das Farc atacou uma posição nossa, completamente de surpresa, como acontece com ações de um grupo guerrilheiro com tendência terrorista. Houve uma reação imediata, bastante robusta, em que nós mostramos a eles que não éramos um alvo compensador. A partir daí, não tivemos mais nenhum problema com as Farc. Hoje, temos consciência de que alguns elementos das Farc vêm ao Brasil para adquirir suprimentos, porque é mais perto das posições que eles ocupam no interior do território colombiano do que qualquer outro lugar. Só que eles não vêm ao Brasil nem armados, nem uniformizados, nem com carteirinha de guerrilheiros. Eles entram no Brasil legalmente, com passaporte colombiano, legalizado, têm todo o direito de transitar no território brasileiro. Nós somos um país que sempre acolhemos todos os estrangeiros com muita fidalguia, muita cordialidade. Eles vêm ao Brasil, compram e levam para o seu país, pagando os impostos, pagando o preço que é cobrado, e não podemos impedir esse tipo de comércio. Apesar de nós imaginarmos que esses mantimentos façam parte do suporte logístico das Farc.

ABr:
E, nesse caso, não há o que fazer?

Ribeiro: É muito difícil, porque como você vai coibir o direito de ir e vir? Você vai acabar fazendo os inocentes pagarem pelos pecadores. Ninguém tem escrito na testa que é guerrilheiro, então fica muito difícil

ABr:
Eles vêm principalmente para comprar alimentos, ou outro tipo de mantimentos?

Ribeiro: Às vezes alimentos, remédios, alguns chegam a ser atendidos nos nossos hospitais, os hospitais militares na área junto ao território colombiano onde as Farc atuam, tanto em Tabatinga quanto em São Gabriel da Cachoeira, são hospitais militares conveniados com o SUS [Sistema Único de Saúde], então a gente atende a população índia, civil, todo mundo. O atendimento é generalizado. Não duvido que alguns colombianos que são atendidos sejam integrantes das Farc. Como eu vou provar, como vai se saber se realmente são ou não? Nós sabemos que esse tipo de apoio pode estar acontecendo sem que a gente possa tomar uma providência efetiva.

ABr: Pode acontecer de novo o que aconteceu no episódio do Rio Traíra?
Ribeiro:
Eu seria leviano se estivesse dizendo que não pode acontecer. É muito difícil de acontecer, uma vez que a nossa posição na fronteira é muito firme, além de ser uma posição de vigilância bastante eficiente. Nós temos um conhecimento profundo da área, dos moradores da área, que gravitam em torno das nossas posições, e fazemos muito reconhecimento de fronteira, muito patrulhamento. Nós temos contatos com os ribeirinhos, e eles confiam no Exército brasileiro. Então, qualquer movimento na área, de gente estranha, ainda mais falando um outro idioma e estando em uma base de operações, nós tomaríamos conhecimento imediatamente. E não tenha dúvida que nos encarregaríamos de neutralizar essa base, não íamos ficar esperando que viesse alguém para fazer isso.

ABr:
E estão preparados para isso?
Ribeiro:
Totalmente.

ABr:
E o que é feito para evitar a entrada de drogas das Farc no país?
Ribeiro:
Aí já é um problema mais complexo, porque a droga também não é carimbada com nada das Farc. As drogas vêm de diversas origens, o narcotráfico é uma realidade, extremamente difícil de ser controlado. As nossas fronteiras na Amazônia são de 11,5 mil quilômetros, a maior parte é área de selva fechada. Então, a permeabilidade de indivíduos e de pequenas canoas por rios pequenos, e o trânsito que existe na Amazônia de pequenas embarcações favorece esse tipo de vai-e-vem na fronteira. E, se consideramos que a fronteira entre o México e os Estados Unidos tem 2,5 mil quilômetros, praticamente a quinta parte da nossa e que eles não conseguem controlar essa fronteira, pode imaginar a dificuldade que é uma fronteira de 11,5 mil quilômetros. É extremamente difícil esse controle. Então, não se sabe exatamente se o tóxico é das Farc, se é do produtor independente, se vem de outros países. Nós sabemos que hoje o tráfico aéreo diminuiu, por conta da vigilância exercida pelo Sipam e o Sivam [Sistema de Proteção da Amazônia e Sistema de Vigilância da Amazônia] e as calhas dos rios estão sendo mais utilizadas como meio de introdução de drogas no país. O esforço da Polícia Federal é considerável, nós temos feito um trabalho enorme para nos aproximar da Polícia Federal nesse trabalho, para podermos trabalhar juntos.

ABr:
Como é feito esse trabalho conjunto?
Ribeiro:
Acho que, enquanto não trabalharmos juntos, o efeito sempre será menor, acho que todos os órgãos envolvidos têm que se unir para trabalhar, não só em tráfico de drogas, mas em todos os ilícitos que acontecem aqui na área Amazônica. É preciso que haja um efetivo muito maior do que existe de agentes da Polícia Federal, do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis], da Receita Federal, que nós possamos unir os nossos conhecimentos. Um tenente meu é formado para ser comandante de um pelotão, e é formado para a guerra, não é formado como um policial. Então, ele tem muita deficiência técnica na fiscalização de ilícitos, ele não conhece, como eu não conheço. Eu não conheço uma documentação de caminhão, de importação ou exportação de madeira. Então, eu preciso de gente especializada que possa ir junto com o tenente, ter o apoio dissuasório da presença da tropa, mas alguém que conheça a fundo o problema para que essa parte técnica tenha um respaldo do conhecedor. E estamos tentando ver se isso acontece com mais frequência.

 


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