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Brasília - A
biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes – que deu nome
à lei que pune com mais rigidez autores de violência contra a mulher no Brasil – pode receber, com um atraso de sete
anos, uma indenização de R$ 60 mil do governo do Ceará
por danos materiais e morais. O anúncio foi feito ontem (12)
pelo governador do estado, Cid Gomes, por meio de um comunicado lido
na Assembléia Legislativa.
Em 2001,
a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização
dos Estados Americanos (OEA) fez uma recomendação ao
governo brasileiro para que uma multa no valor de US$ 20 mil fosse
concedida a Maria da Penha.
“Quando
houve a apreciação do caso Maria da Penha, foi feita
uma sugestão ao governo brasileiro para que fizesse uma
legislação que atendesse melhor à questão
da violência doméstica contra a mulher e também
que houvesse uma indenização a Maria da Penha
pelos danos materiais, morais e emocionais sofridos por ela”,
explica Francilene Gomes, defensora pública geral do estado do
Ceará.
Ela
reforça que a atual proposta de indenização por
parte do governo do Ceará ainda é um projeto de lei e,
portanto, precisa ser submetida à discussão e aprovação dos deputados estaduais. Para Francilene, o
valor funciona como uma compensação do estado pela
demora em reconhecer o caso e lembra que Maria da Penha precisou recorrer, inclusive, a organismos internacionais para
“fazer valer seu direito".
Francilene classifica como “positiva” a atitude do
governo cearense, sobretudo diante da pouca confiança da
população na eficácia da justiça
brasileira.
“Serve
como proposta educativa, para que outras mulheres se sintam
estimuladas a procurar seus direitos. Existe um descrédito na
demora da justiça, na eficiência das políticas
públicas. A partir do momento que o estado toma uma decisão
como essa, ele incentiva o cidadão, mostra que existe a
inclusão social, que é possível uma política
pública de efetividade e que as pessoas devem buscar seus
direitos porque vão receber uma resposta.” O
ex-marido da biofarmacêutica Marco Antonio Herredia Viveiros,
professor universitário de economia,
recebeu uma sentença de pouco mais de seis anos por duas
tentativas de homicídio – a primeira, com um tiro que deixou
Maria da Penha paraplégica e a segunda, por meio de choques
elétricos. O agressor, preso em 2003, se encontra em
liberdade.
“Ele
cumpriu muito pouco tempo da pena. Houve uma série de entraves
processuais como entrar com atestados médicos e fazer com que
os julgamentos não acontecessem. Chegou ao passo de o processo
quase prescrever. A seis meses da prescrição, as
autoridades brasileiras apressaram o julgamento do processo”, afirmou a defensora pública.
Em 1983, Marco Antonio atirou nas
costas de Maria da Penha e a deixou paraplégica. Apesar de ter
sido condenado pelos tribunais locais em dois julgamentos (em 1991 e
em 1996), ele nunca havia sido preso e o processo ainda estava em
andamento devido aos sucessivos recursos de apelação
contra as decisões do Tribunal do Júri. Em 1988, o
Centro para a Justiça e o Direito Internacional e o Comitê
Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher,
juntamente com Maria da Penha, enviaram o caso para a OEA, diante da
demora injustificada em não se dar uma decisão
definitiva ao processo.
O Brasil não respondeu ao
caso perante a comissão e, em 2001, depois de 18 anos da
prática do crime, a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e
omissão, recomendou várias medidas em relação
ao caso concreto de Maria da Penha e às políticas
públicas do Estado para enfrentar a violência contra as mulheres.
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