Valter Campanato/ABr
|
|
Tabatinga (AM) - Populares fazem manifestação contra o delegado da Polícia Federal que teria dado a seguinte declaração: "Em Tabatinga, quem não traficou, um dia vai traficar"
|
Tabatinga (AM) - Liderados pelo prefeito Joel Santos de Lima, cerca de mil moradores da cidade promoveram hoje (14) uma passeata até a sede da Polícia
Federal, em protesto contra a declaração atribuída ao delegado federal Eduardo Primo, de que "em Tabatinga, quem não trafica, um dia vai traficar".
A declaração foi publicada em um portal de notícias na internet no último dia 10 e reproduzida em jornais da região. Na passeata, dezenas de mototaxistas foram acompanhados por crianças das escolas municipais, professores e funcionários da prefeitura, liberados mais cedo. Em frente à
delegacia da PF, o prefeito discursou lamentando a reportagem e os moradores pediram a saída do delegado. Indagado se Primo deveria ficar ou ir embora, Joel Santos de Lima afirmou: "Por mim, ele vai, que eu não sou hipócrita."
O delegado disse ver com naturalidade a manifestação dos moradores – "um direito assegurado pela Constituição" – e acrescentou que a saída do cargo "é uma decisão dos órgãos centrais do Departamento e com certeza cumprirei minha missão em outra
cidade do Brasil”.
Primo chegou a enviar um documento à Câmara de Vereadores negando que tenha usado os termos publicados e pedindo desculpas à população pelo mal-entendido. E em entrevista à Agência Brasil, repetiu: “Eu não
disse isso. Falei que em Tabatinga temos muito traficantes. É
uma realidade constatada no número de pessoas presas quase diariamente. E, neste contexto, disse que, se não houver
uma ação de governo que viabilize a melhoria na
qualidade de vida da população aqui, possivelmente o
caminho dos jovens será o tráfico.”
Segundo o delegado,
podem haver outros motivos por trás da manifestação,
entre eles a proibição da venda de gasolina de forma
clandestina na cidade, como ocorria até janeiro. O combustível
era comprado na cidade vizinha de Leticia, na Colômbia, onde
custa cerca de R$ 1 a menos, e era comercializado em garrafas pelas
ruas.
“Na cidade de Tabatinga se vendia gasolina em todas as
esquinas, contrabandeada da Colômbia. Muitas pessoas ganhavam
muito dinheiro com o transporte irregular de combustível”, contou.
Entre os manifestantes
estava o mototaxista Geisel Parente Ferreira, que protestou: “Achei uma coisa
injusta o que ele fez. Nem todo mundo é
traficante. Eu trabalho 24 horas, pegando sol e chuva, poeira nos
olhos, para ganhar o meu pão de cada dia, e não
trabalho com drogas.”
Para o prefeito, a venda de
gasolina nas ruas não era uma coisa grave. “Vender gasolina nunca fez
mal a ninguém neste município. Isso é coisa que
é crime? Pode ser um crime, mas é uma necessidade”,
justificou
Outro crime que sofreu
maior repressão neste ano, segundo o delegado Primo, foi o tráfico
de drogas. “De janeiro para cá, apreendemos mais de 230
quilos de cocaína, que trouxeram muito prejuízo na
cidade.” Ele lembrou que no primeiro trimestre do ano passado foram apreendidos 100 quilos e que a droga que vem da
Colômbia e do Peru é a pasta base que, refinada, rende dez vezes mais que o peso original.
Segundo a Polícia Federal, o município de Tabatinga – a 1,1 mil quilômetros
de distância em linha reta da capital (Manaus), ou 1,6 mil
quilômetros por rio – funciona como um corredor de passagem para a droga, que segue
para cidades maiores de barco ou avião, chegando a outras
partes do país e do exterior. O transporte
de pequenas quantidades da droga até Manaus chega a render até
R$ 1 mil às pessoas conhecidas como “mulas”, que levam até dois quilos.