Os dois hectares
ocupados por pés de coca encontrados pelo Exército nas
proximidades de Tabatinga (AM) representam pouco em relação
à cocaína que passa pelo Brasil , mas sinalizam para a
necessidade de se reforçar a fiscalização na
região.
A avaliação foi feita hoje (17) pelo
representante regional do Escritório das Nações
Unidas Contra Drogas e Crimes (UNODC), Giovanni Quaglia, para quem as autoridades devem ser alertadas: até então, só se tinha notícia de
plantações de coca na região para consumo
próprio de indígenas.
“É uma chamada
de atenção, uma novidade, mesmo que o cultivo seja em quantidade muito limitada. É sempre bom cuidar para que não
cresça. O perigo sempre existe. Há áreas da
Amazônia na Colômbia, na Bolívia e no Peru onde
já se cultiva coca em altitudes baixas, de até 400
metros”, afirmou, em entrevista à Agência
Brasil.
Ele explicou que a coca produzida em regiões altas tem
folha pequena e suave, mais usada para mastigação. Na
região amazônica, a folha da planta seria muito grossa e dura,
servindo exclusivamente à produção de cocaína.
Para dimensionar a representatividade dos pés da planta encontrados em Tabatinga, Quaglia lembrou que cerca de 40 toneladas de cocaína são consumidas por ano no Brasil: “Por cada hectare de coca cultivada produzem-se em torno de seis quilos de cocaína. Em se tratando de dois hectares, o máximo que os traficantes poderiam tirar seriam 12 quilos de cocaína.”
Além das 40
toneladas para consumo interno, ainda passariam pelo Brasil com
destino à Europa, via África, outras 40 toneladas de
cocaína, estima a ONU. Quaglia disse considerar “humanamente impossível”
controlar com eficiência uma fronteira tão extensa como
a existente entre Brasil, Bolívia, Colômbia e Peru.
E
a principal solução para coibir o tráfico, defendeu, não é o aumento do efetivo de segurança na
região. “Não seria prático do ponto de vista
operacional reforçar a fronteira com muitos homens. Dá
mais resultado o trabalho de inteligência que as polícias
fazem e podem melhorar, para desmantelar e prender esses grupos
criminosos. Eles muitas vezes não estão na fronteira,
mas nas grandes cidades”, argumentou.
A ONU considera a existência de produção anual conjunta de cerca de mil toneladas de cocaína entre Colômbia, Bolívia e Peru. Do total, 400 toneladas seriam apreendidas pela polícia no mundo inteiro. Além do Brasil, outro país apontada pela entidade como rota de escoamento do produto para a Europa é a Venezuela. Já 80% da coca consumida nos Estados Unidos chegariam lá via México e países do Caribe.
As políticas de redução do consumo são apontadas por Quaglia com primordiais no combate ao tráfico de drogas: “Enquanto há um mercado consumidor que demanda os produtos, sempre haverá alguém disposto a produzir e traficar. Se queremos encontrar soluções definitivas, a melhor forma é reduzir a demanda de consumo de substâncias como cocaína e maconha.”