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20 de Março de 2008 - 18h07 -
Última modificação
em 20 de Março de 2008 - 18h42
Drogas levam jovens indígenas em Tabatinga ao suicídio, denuncia cacique
Vladimir Platonow
Enviado especial
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Valter Campanato/ABr
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Terra Indígena Tukuna Umariaçu - O cacique Manoel Nery Tikuna fala à reportagem da EBC. Ele chefia uma das aldeias do povo Tikuna
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Tabatinga (AM) - A mistura explosiva de cocaína, álcool e falta de trabalho está
provocando uma rápida deterioração da vida e dos costumes em uma área indígena
na cidade amazonense de Tabatinga e levando dezenas de índios ao suicídio. A
avaliação é do cacique Manoel Nery Tikuna, que chefia a aldeia Umariaçu
2.
De 2001 para cá, segundo ele, mais de 40 jovens se mataram na aldeia, que
abriga 3.640 índios da etnia Tikuna, às margens do Rio Solimões. O número de
suicídios foi maior entre 2001 e 2004, quando 36 índios se mataram, de acordo
com o cacique, e depois parou até 2006. Mas novos casos voltaram a acontecer em
2007, com duas mortes, e outras duas em fevereiro deste ano, segundo Manoel
Nery.
"Isso é uma coisa que entristeceu a comunidade, porque a juventude
está nesse caminho", comenta o líder tikuna, em entrevista à Agência
Brasil e à TV Brasil. "Essa droga nós não conhecíamos. Chamam de
papeleta. Eles têm desejo e compram. Vendem enrolado em um papel e eles usam.
É cocaína."
Mas o número de mortes por suicídio varia segundo outras fontes ouvidas.
Para o administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em
Tabatinga, Davi Félix Cecílio, as mortes por esta causa em Umariaçu 2 foram 16
no ano passado.
Já a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não registrou nenhuma
morte por suicídio na mesma aldeia em 2007, mas contou 19 suicídios em toda a
região do Alto Solimões, o que representa um brutal aumento em relação aos anos
anteriores. Segundo a Funasa, em 2003 houve seis suicídios; em 2004, dois; em
2005, seis; e em 2006, cinco.
Para o administrador da Funai, existe uma relação entre o consumo de
álcool e cocaína e a morte dos jovens indígenas. "Ele cheira, toma, come e aí se
suicida. Você não segura essas pessoas, ficam muito rebeldes, violentas,
agressivas, transtornadas", relata Cecílio. Segundo ele, é feita uma mistura de
cachaça, coca-cola e cocaína, que depois é ingerida.
A droga que pode estar contribuindo para o aumento dos suicídios é
facilmente encontrada na cidade de Tabatinga, que forma com a colombiana Letícia
um dos maiores corredores de tráfico no continente. Segundo o cacique, chega à
aldeia por pessoas da cidade: "Tem um cidadão em Tabatinga que vende para um Tikuna, que traz aqui".
Ele diz que sabe quem
são as pessoas envolvidas, mas tem medo de represálias. "Eu como cacique tenho
medo de informar. Porque não tenho segurança. Depois se acontece algo para o meu
lado, ninguém toma providência. Quando a gente leva ao conhecimento dos
policiais, civis, militares e federais, ninguém quer tomar providência. Esse é o
medo que a gente tem", relata.
Segundo o cacique tikuna, um em cada cinco jovens da aldeia usa drogas e
isso está modificando as relações familiares e comunitárias: "Não tem mais
horário para os nossos filhos voltarem para casa. Saem de tarde e 1 hora, 2
horas da madrugada ainda estão aqui na rua."
Uma dessas noites foi fatal para um adolescente de Umariaçu 2 em 2007,
embora o seu caso não esteja contabilizado pela Funasa. O jovem Roberto Bento
Angelo Filho se enforcou em 11 de novembro, em uma árvore no quintal de sua
casa, aos 14 anos. Ele não deixou nenhum bilhete e nem disse o
motivo.
Para o pai, que deu o próprio nome ao filho, é difícil entender o que
aconteceu, pois o adolescente não usava drogas. "Ele saiu e não voltou à noite”,
conta. “Olhei pela janela e ele não estava na rua. Esperei até o amanhecer. Às 5
da manhã olhei atrás da casa e ele estava morto. Amarrou uma corda no pescoço e
se matou. Por tristeza."
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