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Brasília - Organizações não-governamentais e líderes comunitários não
descartam a influência do setor de carcinicultura (criação de camarões) na
demora para criar uma unidade de conservação em Cassurubá, na região do
Arquipélago de Abrolhos, sul da Bahia.
“Não podemos garantir se é o que de fato está impedindo a
unidade, mas com certeza os carcinicultores fizeram pressão política entre os
partidos e parlamentares que os apóiam e na Casa Civil”, aponta o coordenador do Programa Marinho da ONG Conservação Internacional, Guilherme
Dutra. “Temos
a informação de que isso teria também a influência do setor de óleo e gás, por
causa de alguns blocos (de exploração) que estão vizinhos à área da reserva”,
acrescenta.
O diretor da organização não-governamental (ONG) Artimanha,
Jorge Galdino, responsável por mobilizar a população em prol da criação da unidade, diz que
“há ações de interesse político para frear a reserva”.
O sul da Bahia é alvo de interesse do setor de carcinicultura,
representado na região de Cassurubá pela Cooperativa de Criadores de Camarão do
Extremo Sul da Bahia (Coopex), que conta com apoio de parlamentares, inclusive
no Senado Federal. A idéia é criar, em parte destinada à Reserva Extrativista
(Resex), um mega-empreendimento de carcinicultura, o maior do Brasil, na área
de 1.517 hectares, num investimento de R$ 60 milhões. Uma liminar concedida a
pedido do Ministério Público Federal suspendeu o processo de licenciamento
ambiental da obra.
“A não-publicação foi uma coisa completamente inusitada. Tudo
passa a ser possível nesse contexto. A gente espera que exista um mínimo de
consistência por parte do governo federal para dar um final a essa questão. Se
essa liminar cai, o processo [de licenciamento] não teria impedimentos
para continuar adiante”, defende Guilherme Dutra.
De acordo com ambientalistas e representantes da comunidade de
pescadores, a instalação de um mega-empreendimento de carcinicultura traria
danos irreversíveis à biodiversidade e prejuízos sociais para as populações
tradicionais.
De acordo com o chefe do Parque Nacional de
Abrolhos, Marcelo Lourenço, a construção dos criatórios de camarões degradaria os manguezais, o
que comprometeria uma parte do ciclo de vida de espécies que vivem nos corais.
“Tem um potencial de impacto ambiental bastante significativo. A destruição do
manguezal prejudica o Parque Nacional, o turismo, a pesca artesanal”, explica.
“Um projeto como esse utiliza uma quantidade de água muito
grande do estuário, essa água entra carregada de larvas de vida marinha e
retorna carregada de matéria orgânica em decomposição e produtos químicos. No
médio prazo a gente estaria matando o berçário do banco de corais de Abrolhos”,
acrescenta Guilherme Dutra, da Conservação Internacional.
Cerca de 900 pessoas trabalham atualmente com pesca artesanal
na região de Cassurubá. De acordo com a representante da Associação de
Marisqueiras de Ponta de Areia e Caravelas, Marilene Costa, a comunidade também
é contrária ao empreendimento. “A criação de camarões seria péssima para a
gente. Vi [em criatórios] no Ceará como as pessoas vivem em situação
ruim, vi a degradação dos manguezais”, conta.
"São usos incompatíveis, enquanto a Resex busca
garantir a integridade do manguezal para a sustentabilidade das famílias que
utilizam os recursos naturais para subsistência, o empreendimento de
carcinicultura busca a privatização da área, o que prejudica a população e
principalmente o ambiente”, afirma o chefe do Parque Nacional de Abrolhos.
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