Marcello Casal Jr./ABr
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Brasília - O novo embaixador do Brasil no Timor Leste, Édson Monteiro, fala sobre os desafios na parceria com o país, que busca a união nacional. O presidente do Timor Leste, José Ramos-Horta, teve alta esta semana após mais de um mês internado em um hospital da Austrália. Ramos-Horta foi atingido a tiros no dia 10 de fevereiro, em sua residência, em Dili
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Brasília - O presidente do Timor
Leste, José Ramos-Horta, teve alta esta semana depois de mais
de um mês internado em um hospital da Austrália. Nas
próximas semanas, deve reassumir o comando de seu país. A concertação
com as forças de oposição e a resistência
em busca da união nacional será o principal desafio de
Ramos-Horta na avaliação do novo embaixador do Brasil
no Timor Leste, Édson Monteiro.
Ramos-Horta foi
atingido a tiros por um militar no dia 10 de fevereiro, em sua residência, em
Dili. O embaixador brasileiro
- que assume a representação diplomática no
Timor Leste no próximo dia 25 - acredita que a desejada
estabilidade só será alcançada se o atual
governo acalmar as dissidências nas Forças Armadas e
entrar em acordo com a Frente Revolucionária de Timor Leste
Independente - Freitilin, grupo que comandou a luta pela
independência do país e hoje tem a maior bancada no
Parlamento timorense, mas está fora do poder.
Colonizada por
portugueses, a parte oriental da ilha de Timor foi abandonada pelo
governo de Lisboa em 1975, após a Revolução dos
Cravos. Até 1999, a região foi dominada pelo governo da
Indonésia. Em 1999, em referendo organizado pela Organização
das Nações Unidas (ONU), 98% dos timorenses decidiram pela
independência.
Com a retirada da Indonésia,
até a independência, em 2002, o Timor Leste ficou sob
administração transitória das Nações
Unidas, a cargo do brasileiro Sérgio Vieira de Melo, então
subsecretário-geral para Assuntos Humanitários da ONU, morto no Iraque.
O regimento interno do
Parlamento timorense, o plano nacional de educação do
Timor Leste e o primeiro projeto de criação de um
sistema tributário no país foram elaborados por
profissionais brasileiros.
O Timor- Leste é
o terceiro país no qual o Brasil mais investe. Dos US$
22,97 milhões destinados pela Agência Brasileira de
Cooperação (ABC) à cooperação
Sul-Sul até 2006, US$ 2,1 milhões foram gastos em
projetos no país asiático – montante inferior apenas
aos investimentos no Haiti (US$ 2,7 milhões ) e em Cabo Verde
(2,2 milhões).
“É a maior
atividade conjunta de organismos internacionais em qualquer lugar do
mundo: Nações Unidas, Banco Mundial, Banco da Ásia.
Há um grande programa de cooperação, porque o
país precisa de quase tudo em termos de organização
como país”, resume o novo embaixador do Brasil no
Timor-Leste. “Tem que se organizar
governo, o Parlamento, os planos e os currículos para
educação, a maneira de cobrar imposto, de refazer uma
infra-estrutura, que foi quase inteiramente destruída no
período de luta pela independência”, enumera.
Em entrevista exclusiva
à Agência Brasil, Édson Monteiro cita as
áreas de cooperação atual e futura do Brasil com
o único país asiático de língua
portuguesa, faz uma análise do atual contexto político
timorense e fala sobre o papel do Brasil e da comunidade
internacional no processo de reconstrução e
estabilização do país.
Agência Brasil
- Os recentes atentados contra
o presidente José Ramos-Horta e o primeiro-ministro, Xanana
Gusmão, demonstram que ainda falta muito para o Timor-Leste se
estabilizar politicamente? Ainda há forças de
resistência à independência?
Édson
Monteiro - Se
pode imaginar as tensões que se criaram em 24 anos de ocupação
indonésia. Muitos dos que aderiram efetivamente e
até participaram da repressão e do controle do país
se refugiaram na parte indonésia da ilha do Timor, mas muitos
ficaram. Há um processo de reconciliação que
precisa ser feito, que ainda não está completo, ainda
há desconfianças. É até geográfico,
há uma tensão entre a parte mais a leste da ilha, longe
da Indonésia, e a parte mais próxima. É nesta
área que se concentrou boa parte da atividade dos membros da
Fretilin [Frente Revolucionária de Timor Leste
Independente] que lutavam contra a Indonésia. E essa
tensão também e manifesta dentro das Forças
Armadas. Este é um dos motivos da briga de 2006. Alguns
militares acharam que estavam sendo prejudicados. E há um
problema geral que é o reconhecimento do que os guerrilheiros
fizeram na luta pela independência, eles têm que ter
algum tipo de prêmio, de pensão, de título. Isso
vinha sendo discutido de uma forma muito
indecisa. Depois de 2006, tornou-se um tema premente e o governo tem
a determinação de atender a essas
reivindicações. Aquele militar que estava rebelado
simbolizava estas dificuldades. O que o presidente Ramos-Horta estava fazendo,
e disse isso aqui no Brasil, era negociar uma saída. Ele
antecipou seu retorno ao país dizendo que as negociações
estavam avançando e precisava estar no Timor.
ABr - Que tipo
de negociação, em qual direção? Isso
inclui a oposição?
Monteiro - No
sentido de trazer o militar rebelde de volta, deixar claro para ele
que seriam atendidas as reivindicações consideradas
justas e também fazer um acordo político com a
oposição. Essa oposição é
fundamentalmente a Fretilin, que foi a força que comandou a
luta pela independência. É uma situação
politicamente complicada. O grupo que comandou a luta pela
independência hoje está fora do poder. Eles têm o
maior número de deputados, mas os outros se uniram e elegeram
o presidente do Parlamento, o que deixou alguma insatisfação.
Em seu livro, Ramos-Horta diz que depois da independência
seria necessário um governo de união nacional, todas as
forças do país deverão estar juntas em um
projeto de reconstrução nacional.
ABr - Esse é
o ideal de qualquer governante...
Monteiro - Na
prática a coisa não é tão fácil,
mas é necessário.
ABr - Mas é
possível? Qual o papel da comunidade internacional?
Monteiro - A
contribuição internacional deve ser no sentido de
estimular todos os grupos políticos do Timor a se aproximarem,
a deixarem de lado as diferenças e trabalharem juntos em um
projeto nacional. Toda vez que eu me encontrar com um deputado
timorense terei este mesmo discurso: vocês precisam se
entender, precisam se unir, colocar o interesse do país acima
destas diferenças.
ABr - Isso não
terá um preço, como em qualquer país?
Monteiro - A
Fretilin poderá dizer que só faz isso se ganhar um
ministério. Aí se vê isso aqui no Brasil, se vê
em todos os lugares. É preciso negociar e encontrar uma
fórmula que preserve o interesse de um lado e atende ao desejo
de outro.
ABr - Há
disposição do atual governo de fazer este tipo de
negociação, de ceder espaço a todos os grupos?
Monteiro - Acho
que sim, toda a comunidade internacional está dizendo isso a
eles. Não há outra saída, eles não podem
isolar a Fretilin, ela tem uma força enorme, é
realmente o partido mais organizado. Acho que eles têm
consciência. Como acomodar isso é uma decisão que
os timorenses terão que tomar com o nosso incentivo e o nosso
apoio. Quando será? Espero que em breve, espero que o
presidente volte e quem sabe volte reforçado para convencer os
seus partidários de que é preciso acomodar o outro
lado. Não vejo como encontrar outra forma de contornar esses
conflitos internos que realmente existem.