Empréstimos
bancários não estão pressionando o consumo, portanto, o governo não deve pensar em fixar as prestações
dos financiamentos. Foi o que defendeu o secretário de
Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson
Barbosa, em entrevista exclusiva à Agência Brasil.
Ele disse que
preocupante é o aumento da demanda de insumos básicos
destinados à produção de bens duráveis pelas
indústrias. Para Barbosa, o país tem hoje situação
econômica suficientemente estável para absorver crises
externas.
Um cenário indesejável na economia
internacional levaria à queda nos preços das
commodities (bens primários comercializados em larga escala), redução no fluxo de ingresso de moeda
estrangeira e conseqüente pressão sobre a taxa de câmbio.
Mas isso traria reflexo sobre a inflação, não
sobre o endividamento externo.
Diante disso, ele
defende que o Banco Central seja cauteloso e conservador, ou seja,
que espere um pouco mais para reduzir as taxas de juros. O setor
público, disse Barbosa, deveria fazer um corte nos gastos
correntes, que envolve despesas com pessoal e custeio, já na programação orçamentária
que será anunciada em abril.
O governo teria, assim,
como levar adiante a sua política de melhoria de renda com
programas sociais e investimentos em infra-estrutura, o que, em
contrapartida, contribuiria para ampliar os espaços na
condução da política monetária. Leia a
íntegra da entrevista concedida ontem (27).
Agência Brasil -
Existe uma crítica em relação aos gastos do
governo e à falta de recursos na economia. Como o senhor vê
isso?
Nelson Barbosa - Uma coisa é o nível do
gasto, outra é a taxa de crescimento do gasto, debate que
para uns está claro e para outros não está.
Aumentamos as transferências de recursos para os programas
sociais e elevamos o salário mínimo. Quando você
está em um trabalho desse de transferência de renda, os
gastos aumentam. Você parte do zero e coloca alguma coisa.
Depois, você tem apenas que mantê-las. Então, o
gasto daqui para frente é menor. A despesa corrente teve uma
elevação em 2006, puxada pelo salário mínimo.
Isso permitiu o aumento do consumo, que, por sua vez, estimulou o
investimento e elevou o grau de utilização da
capacidade produtiva das empresas. No caso das despesas com pessoal,
o índice caiu para 4,3% do PIB [Produto Interno Bruto, soma
das riquezas produzidas no país] em 2004 e 2005. Depois, subiu
para 4,6% em 2007 e agora passou a desacelerar. Por isso, o governo
tem um projeto de lei de crescimento real de 2,5% sobre a folha de
pagamento, que é vital para a estratégia das contas
públicas.
ABr - Com a redução
de gastos, não sobra mais espaço para afinar a política
monetária, em um momento de pressão
inflacionária?
Barbosa - Acho prudente que o
governo segure seus gastos não só para que o Banco
Central tenha mais espaço para a política monetária,
mas para melhorar a qualidade do gasto: direcionar os recursos mais
para o investimento do que para o gasto corrente. Isso vai ajudar na
redução da dívida pública e fará
com que o país cresça bem, por um longo tempo. É
ter investimento crescendo mais do que a variação do
PIB e elevando a capacidade produtiva. Assim, o consumo vai crescer
de maneira compatível com a produção. Como temos
um crescimento vegetativo da população de 1,4% e um PIB
de 5% ao ano, indica que o consumo por habitante cresce a 3,6% ao
ano.
ABr - O governo está pensando em
limitar o crédito para conter o consumo?
Barbosa - O crescimento do consumo é efeito da variação
do câmbio, do fim da CPMF [a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira], do crescimento da massa salarial e
da queda da taxa de juros, impacto já absorvido em grande
parte. Na questão do crédito, o que houve foi
informação truncada. O governo não quer limitar
os números de prestações. As famílias
sabem o que podem gastar, o BC tem mecanismos, junto com os bancos,
para avaliar os riscos. Isso é uma decisão que o
consumidor tem que ter para ele mesmo. Números divulgados
anteontem [26] pelo Banco Central mostram que as taxas de inadimplência
estão caindo. Não é um problema de "bolha
de crédito". Há o consumo de alguns bens
crescendo, puxando os custos industriais, como o do minério
de ferro. Por isso que a gente colocou meta de crescimento de 5% do
PIB no PAC [o Programa de Aceleração do Crescimento]. Porque a gente acha isso compatível com a oferta
de insumos básicos às indústrias e com a
estabilidade da inflação.
ABr - Qual seria a relação adequada para o crédito
bancário em relação ao PIB?
Barbosa - Hoje, as operações de crédito em geral
estão em 34,9% do PIB. São 12% de pessoas físicas,
24,8% de pessoas jurídicas e recursos direcionados, como os do
BNDES [ Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], de 10,2%. Do total de crédito, R$ 975 bilhões,
só R$ 47 bilhões são de habitação.
O processo não é equilibrado, vem em ondas: primeiro,
ele causa impacto em um mercado, depois muda de patamar. Vai chegar
uma época, se Deus quiser, que todo mundo vai ter o carro, o
eletrodoméstico e chegar no crédito imobiliário.
Na maioria dos países, o financiamento imobiliário está
em primeiro lugar nas operações de crédito. Há
muito espaço para crescimento do crédito, mas é
importante lembrar que conseguimos acelerar o crescimento da
economia, passando de 3,7 % para 5,4% do PIB.
ABr - O PAC foi planejado para acelerar o crescimento da economia e
agora os senhores estão dizendo que devemos ir com calma
porque o consumo está aumentando e que isso pode ter impacto
na inflação.
Barbosa - O PAC tem por
objetivo manter o crescimento em um patamar de 5%. O Brasil já
teve surtos de crescimento no passado, que foram abortados por crises
externas ou por alguma restrição doméstica.
Então, nosso desafio não é desacelerar. Isso
seria uma contradição com o PAC. Só que os
desafios mudam, os de ontem, necessariamente, não são
os de hoje. O que a gente precisa é manter o crescimento nesse
nível com a estabilidade da inflação. Pelas
projeções de crescimento de 4,5 a 5% em 2008 - e se for
mantido o mesmo percentual em 2009 - é perfeitamente
compatível com o cumprimento das metas de inflação.
ABr - Então, onde está a dificuldade que pode levar a
um desequilíbrio na condução da política
econômica?
Barbosa - O
que está acontecendo é que nós estamos lidando
com os problemas - se é que podem ser chamados assim - de
aceleração do crescimento. Em nenhum lugar do mundo,
isso é um processo equilibrado. Evidentemente que os
economistas nos seus estudos definem o ponto de equilíbrio
como referência para avaliar a política. Mas, na prática,
esse processo não é equilibrado: seja na China , no
Brasil, nos Estados Unidos. É natural que você tenha
alguns pontos com a demanda crescendo forte e pode ter maior ocupação
da capacidade instalada. Isso ocorre principalmente nos setores de
insumos básicos, onde você não constrói a
capacidade do dia para a noite.
ABr - A
preocupação, então, é com a pressão
dos custos das matérias-primas?
Barbosa - A
preocupação é mais pela pressão dos
insumos do que da demanda. O reajuste do preço do minério
de ferro e do aço vai influir na produção de
automóveis. Então, ele pode pressionar pelo lado do
custo. Na verdade, há uma preocupação em não
deixar, em um contexto de consumo alto, que esse aumento de custo
seja transmitido para o preço. Aí é que entra a
questão do consumo, não que o consumo seja, em si,
excessivo. É que, numa situação de demanda
aquecida, com um aumento de custo, isso torna o insumo inicialmente
um custo mais perigoso.
ABr - Esse efeito não
pode ser potencializado com aquecimento do consumo?
Barbosa - O
consumo não cria dificuldades. Ele é um dos
sustentáculos do crescimento da economia brasileira. Uma das
bases de modelo de desenvolvimento que estamos implantando é a
ampliação do mercado do consumo de massa com inclusão
de milhões de trabalhadores. O Brasil, diferentemente de
outros países emergentes, tem um mercado interno grande que
suporta uma base industrial, uma base de serviço sofisticada e
diversificada. Essa é vantagem do Brasil. Não devemos
tratá-la como um problema. O que há, obviamente, é
que à medida que a economia cresce, o emprego e a renda também
crescem e as pessoas vão consumir mais. Primeiro, as pessoas
consomem bens de primeira necessidade como os alimentos. Depois,
passam para bens de consumo duráveis de pequeno valor, como
celular, DVD etc. Seguem para o computador, o automóvel e
agora estão chegando em um bem que não é de
consumo, que é a moradia.
ABr - Vamos
insistir na questão do crédito, afinal se houver maior facilidade no crédito isso não pode servir de
estímulo ao consumo?
Barbosa - O que há
nesta questão do consumo é, talvez, uma preocupação
com a sustentabilidade da expansão do crédito que, a
meu ver, é sustentável. A questão é que o
crédito no Brasil sempre foi muito reprimido. Por causa da
inflação alta, as pessoas nunca tinham acesso ao
crédito. Com a estabilização e com o aumento da
renda, as pessoas estão tendo mais acesso ao crédito.
Então, ele cresce rápido. Vai subir mais, mas os bancos
obedecem às regras monitoradas pelo BC, que atribui o risco de
forma correta a cada tipo de operação. Neste momento, o
aumento do consumo, alimentado pelo crédito, está
direcionado para os bens de consumo duráveis e esses bens não
estão subindo tanto de preço porque estão
sujeitos aos preços internacionais. Um exemplo são os
equipamentos de TV, som e informática, que tiveram deflação
de 9,81% de março de 2007 a fevereiro de 2008 e isso se deve às
importações, à valorização cambial
e à inovação tecnológica. Os
eletrodomésticos tiveram deflação de 1,36%, e os
automóveis, um aumento de preços de 2,48%.
Valores bem abaixo do centro da meta de inflação de
4,5%.
ABr - Na medida em que pode haver um
desaquecimento lá fora, isso não pode se reverter para
reduzir o preço dos insumos internamente?
Barbosa - Pode, mas isso entra em uma questão relativa ao preço
das commodities, por isso há uma dúvida: o que
acontecerá com o preço das commodities? Ficará
estável ou cairá? Mas é muito difícil
dizer se é bom ou ruim. No Brasil, a gente vê uma
relação inversa entre preço de commodity
e taxa de câmbio. Quando o preço da commodity
cai, e isso é ruim para as exportações, é
bom para a taxa de inflação, mas a taxa de câmbio
sobe. Ou seja, uma coisa neutraliza a outra parcialmente. Quando a
taxa de câmbio sobe, o preço da commodity cai.
Foi o que ocorreu com o aço. No ano passado, o aço
subiu de preço lá fora, mas aqui dentro não, por
causa da taxa de câmbio que caiu. Uma coisa compensou a
outra.
ABr - Quais os reflexos desse cenário
de crise externa sobre nossa economia?
Barbosa - O
importante é que o Brasil está numa situação
boa. Se tivermos o pior cenário - que não é
provável porque teríamos uma desaceleração
forte atingindo a China, que derrubaria o preço das
commodities e resultaria em aversão ao risco, reduzindo
os fluxos de recursos ao Brasil – o principal problema seria uma
pressão sobre a taxa de câmbio. A taxa subiria um pouco,
mas não sairia do controle. Isso poderia causar pressões
temporárias sobre a inflação. Mas é algo
que não nos afeta como no passado. Porque qualquer impacto de
um cenário ruim antes quebrava o Estado brasileiro, que era
muito endividado e a dívida era atrelada ao dólar.
Quando existia um problema desses, a dívida pública
subia no dia da crise. Hoje, nós somos credores externos. Nos
preparamos para que a política brasileira possa suportar
choques. Não quero dizer que esse cenário desfavorável
seja o mais provável. Pelo contrário. Acho que estamos
num cenário mais intermediário, o preço das
commodities permanece estável e a taxa de câmbio
também. Por isso, acho que esse crescimento [da economia]
é compatível com o cumprimento das metas estabelecidas pelo CMN.
ABr - E como fica a política monetária nesta
conjuntura?
Barbosa - Houve, no ano
passado, um choque no preço dos alimentos. Até a
primeira semana dezembro, a inflação anualizada estava
em 3,9%. Em quatro semanas, ela foi para 4,5% porque houve um choque
no preço do feijão. Isso tirou o grau de liberdade da
política econômica. Uma coisa é você estar
com uma inflação de 3,9% ou 4%, outra coisa é
estar com 4,5 %. Acho que isso foi um fator novo, um pouco
inesperado. Por isso, o Banco Central não pode continuar
reduzindo as taxas de juros porque trouxe um pouco de apreensão
sobre o rumo. Nós estamos em um momento de esperar para ver.
Essa montanha-russa [sobre os impactos da crise no Brasil] deve durar
até o meio do ano, até que a situação fique
mais clara nos Estados Unidos. Neste contexto, vale a pena ter um
pouco de cautela, tanto na parte de política monetária
quanto da política fiscal, que é conter os gastos de
despesas correntes e fazer investimentos do PAC.