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Brasília - A falta de políticas
públicas adequadas - aliada a razões econômicas,
sociais e culturais - pode ser a causa para o fato de tantas crianças
de até 13 anos de idade estarem trabalhando. A avaliação
é do procurador do trabalho Antônio Lima,
vice-coordenador da Coordenadoria Nacional de Combate à
Exploração do Trabalho da Criança do Ministério Público do Trabalho.
Ele comentou
hoje (28) dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) que revelaram haver 1,4 milhão de crianças de 5 a 13 anos de idade trabalhando. O número é referente ao levantamento de 2006.
Para o procurador, as
políticas públicas de erradicação do
trabalho infantil não são eficientes e não têm
dado resposta necessária aos seus objetivos. “O processo de redução tem
caminhado muito lentamente, é preciso que se invista na
solução do problema buscando melhorar a condição
social das famílias em que vivem as crianças, a
educação de qualidade e romper a barreira cultural da
sociedade”, disse.
Segundo ele, além de questões
econômicas e sociais, o trabalho infantil existe porque é
aceito culturalmente no Brasil. “Há uma falha nas condições
econômicas e sociais da família, há uma falha do
Estado nas políticas públicas, que ainda são
inadequadas. E há uma falha da sociedade, que ainda concebe o
trabalho infantil como uma solução para as crianças
pobres”, avaliou.
Para a procuradora do Ministério
Público do Trabalho, Eliane Araque dos Santos, o fato de
existir crianças trabalhando é um “absurdo”. Ela
também considera as políticas públicas
insuficientes. “As ações não estão
tendo condições de enfrentar a realidade, o Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil [Peti] estacionou,
a integração do Bolsa Família com o Peti não
está dando conta de enfrentar a realidade e o número de
crianças inseridas no programa tem se mantido ao longo dos
anos”, afirma.
Segundo ela, o fato de 62,6% de crianças de
5 a 13 anos de idade, que estão trabalhando, estarem no meio
rural, pode ser justificado tanto pela pobreza maior no campo, como
pela necessidade de agregar os membros da família ao trabalho.
“As famílias envolvem as crianças
no trabalho por necessidade, e muitas vezes o trabalho é no
sistema de produção. Então, o ganho aumenta se a
família toda estiver inserida”, justificou Eliane. Para a
procuradora, a situação pode ser remediada com a
ampliação do acesso a políticas de crédito
no meio rural.
Para a procuradora, a participação
das crianças nos afazeres domésticos é
inadmissível. “Na verdade, a criança está
trabalhando, está praticando tarefas que são do adulto,
ainda que ela possa ir à escola e faça esses afazeres
no horário em que ela está em casa, ela está
deixando de ter lazer, de estudar. Para mim, afazer doméstico
não é nada mais, nada menos que trabalho”, definiu.
Dados da Pnad apontam que 49,4% das crianças
e adolescentes entre 5 e 17 anos exerciam
afazeres domésticos em 2006. Para a procuradora, atividade
doméstica pode interferir no rendimento escolar da criança.
“É necessário que ela estude e amadureça o
conhecimento adquirido na escola. E que horas ela vai fazer isso, se
em casa ela está envolvida em afazeres domésticos?”,
questiona.
Eliane Santos lamentou que a participação
de crianças nos afazeres domésticos seja aceita
socialmente no país, especialmente para as famílias
pobres, e diz que é preciso ter mais políticas públicas
para atender as famílias e proteger as crianças.
Procurados pela Agência Brasil, os
ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome, responsáveis pelas ações públicas
de erradicação do trabalho infantil, não
comentaram os dados da Pnad.
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