"Foi a
primeira entrevista coletiva da história do Surumu”, disse
um empregado do arrozeiro Paulo César Quartiero ao final de
uma conversa do patrão com quatro equipes da mídia
nacional.
Quartiero é o protagonista do movimento de
resistência à retirada de não-índios da
Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde fica a Vila Surumu,
em Roraima. Rodeado de seguidores, ele diz saber o que é
“melhor” para os índios.
“O pessoal do CIR
[Conselho Indígena de Roraima] não tem discurso.
Querem voltar a viver da caça e pesca e andar descalço.
Mas hoje o índio quer assistir novela e Big Brother”,
compara, ao destacar a importância de promover desenvolvimento
econômico na área indígena.
A prosa toma o
rumo da influência religiosa na vida dos moradores da Raposa
Serra do Sol. E as críticas se voltam para os missionários
que, segundo o arrozeiro, estão ligados a ONGs estrangeiras
com interesses na área : “A Igreja Católica quer
tomar conta do monopólio indigenista”.
Quartiero não
segue nenhuma religião. Diz acreditar em Deus e admirar os
evangélicos: “Eles cobram lá a porcentagem deles, mas
se conseguem fazer com que uma pessoa pare de beber ou não se
separe da mulher, já está bom”.
A prisão
por desacato há 11 dias agora é lembrada com bom humor.
Quartiero alega que os policiais federais chegaram de forma
truculenta à Vila Surumu e um delegado acabou ouvindo dele que
tinha mau hálito. Sobre o não comparecimento a uma
reunião nesta semana entre produtores de arroz e a Polícia
Federal, justifica: “Já fui preso uma vez e não quero
virar freguês”.
O arrozeiro acredita que a exposição
da “luta” dos arrozeiros para permanecerem na Raposa Serra do Sol
e uma possível decisão favorável do Supremo
Tribunal Federal, no julgamento de mérito das ações
que contestam a homologação, terão conseqüências
em toda a região amazônica.
“Os indígenas
querem progresso. Será uma virada de página no enfoque
do tratamento da Amazônia, para entender que é
necessário preservar primeiro o interesse nacional e a
soberania”, afirma Quartiero.
O líder arrozeiro está
prestes a reassumir o comando da prefeitura de Pacaraima, após
ter sido cassado por denúncia de compra de votos. Aguarda
apenas a publicação de um acórdão do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que revogou sentença da
Justiça Eleitoral de Roraima.
“Quero me reeleger
prefeito de Pacaraima e o futuro a Deus pertence”, comenta a
respeito dos planos eleitorais. Há rumores nos meios políticos
do estado, entretanto, de que Quartiero, admirador confesso do
presidente venezuelano Hugo Chávez, será candidato a
senador ou governador.
Perto da Vila Surumu, ficam as duas
propriedades rurais do arrozeiro: as fazendas Depósito, de 5
mil hectares, e Providência, de 4,2 mil.