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Rio de Janeiro - O comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno,
disse hoje (16) que a demarcação contínua de terras indígenas na região de
fronteira é uma ameaça à soberania nacional. Ele participou da abertura do
seminário Brasil, Ameaças a sua Soberania, que prossegue até sexta-feira
(18), no Clube Militar do Rio de Janeiro.
“Nós estamos cada vez mais aumentando a extensão das terras
indígenas na faixa de fronteira e caminhando numa direção que me preocupa. Pode
não ser uma ameaça iminente, mas ela merece ser discutida e aprofundada", declarou Augusto Heleno. E completou: "Poderão representar um risco para a soberania nacional".
Para o militar, o país tem que estar preparado para a guerra
e a Amazônia é a região mais provável de ocorrer ações bélicas. “É nossa
hipótese alfa. Há ameaça de conflitos armados, ainda que não sejam iminentes,
mas que podem ocorrer, devido ao aumento inegável de tensão em algumas relações
bilaterais”, disse Augusto Heleno.
Ele apontou dez possíveis conflitos fronteiriços entre os
países vizinhos, desde disputas por terras entre Guiana e Venezuela ou Paraguai
e Bolívia, até efeitos da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia (Farc).
O militar negou que sua posição contrária à demarcação de
área contínua na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, defendida pela
Presidência da República, represente quebra de hierarquia.
“Em nenhum momento eu contrariei a decisão do presidente da
República. Ela está tomada e será cumprida por quem de direito. Eu levantei o
problema. E ele merece ser discutido e novamente está sendo estudado”, referindo-se à decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF), que mandou suspender a ação de retirada de não-índios
da reserva.
O general comentou a declaração do representante da
Advocacia Geral da União (AGU), José Antônio Toffoli, feita ontem (16), contestando
os argumentos de que homologação em área contínua traria riscos para a defesa
do território nacional e enfatizando que declarações de membros das Forças
Armadas que se mostraram críticos à demarcação “não correspondem ao pensamento
do governo brasileiro”.
“Eu não tomei posição quanto à demarcação de terra indígena.
Eu coloquei um problema para que ele seja discutido por aqueles que representam
o governo. Eu não falo em nome do governo porque não tenho autoridade para
isso. E o Exército brasileiro é um instrumento do Estado, acima de ser um
instrumento de governo.”
Durante a palestra, para cerca de 200 pessoas, a maioria militares, o general mostrou trechos da Declaração da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os Direitos dos
Povos Indígenas, para reforçar sua visão de possíveis ameaças à soberania nacional com
demarcações contínuas de territórios indígenas, que poderiam ser considerados
independentes do país.
A declaração da ONU foi aprovada no ano passado e tem 46
artigos, com objetivo de proteger os povos indígenas em todo o mundo. Segundo ele, o artigo 6 define que “toda a pessoa indígena tem
direito a uma nacionalidade”. O artigo 9 diz que “os povos e as
pessoas indígenas têm o direito de pertencer em uma comunidade ou nação
indígena, em conformidade com as tradições e costumes da comunidade, ou nação
de que se trate”.
O diretor do Centro de Informações da ONU, Giancarlo Summa,
rebateu as desconfianças do general e disse que a declaração não tem objetivo
de formar novos estados indígenas. “O artigo 46 proíbe, explicitamente, que a
declaração possa ser utilizada para tentar desmembrar um território de um país.
Não é para formar novos países ou estados indígenas e a própria declaração
proíbe essa possibilidade.”
Em referência à polêmica em torno da reserva Raposa
Serra do Sol, o representante da ONU disse que a entidade não se pronuncia
sobre assuntos internos dos países-membros, limitando-se a reconhecer que há
maior preservação do meio ambiente nas áreas transformadas em reservas
indígenas o que, segundo ele, é um fator positivo.
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