Condições mais vantajosas no comércio de produtos importados e melhorias nos serviços públicos de saúde e educação são algumas das principais demandas de proprietários e funcionários dos cerca de 60 mil
estabelecimentos comerciais – entre lojas e camelôs – funcionando em
Cidade do Leste, segundo dados da Prefeitura do município.
Este é o caso do vendedor de eletrônicos Carlos Garay, paraguaio que trabalha no comércio da cidade há 15 anos e aprendeu português pela convivência com brasileiros que trabalham no comércio de Cidade do Leste. Só na loja
onde ele trabalha, são cerca de 80%.
Garay é eleitor confesso de Fernando Lugo, ex-bispo candidato a presidente do Paraguai
nas eleições do próximo domingo (20) pela Aliança Patriótica para a Mudança (APC, sigla em espanhol). “Eu
acho que [com a eleição do Lugo] vai melhorar para todo
mundo”, diz.
Os brasileiros são atraídos principalmente por dois motivos: preços baixos, conseqüência de um imposto de importação em torno de 10%, e a possibilidade de conseguir emprego, com salário um pouco
mais alto que no Brasil.
É o caso de Averaldo Oliveira da Silva, morador de Foz do Iguaçu. “A
convivência aqui com os paraguaios é amigável, faz quinze anos que eu
trabalho aqui já”, conta. Segundo ele, um dos motivos que leva os donos
das lojas, em geral chineses ou libaneses, a contratar brasileiros é o
fato de terem que atender muitos compradores vindos do Brasil.
Do lado de fora dos grandes centros comerciais, a situação é um pouco
diferente. A maior parte são paraguaios, com opiniões divergentes na
forma de definir o voto, mas todos esperando melhor qualidade de
vida.
“Eu escolhi o Lino [Oviedo] pela relação que ele tem com o Brasil,
porque nós dependemos muito do Brasil e temos muita esperança que tudo
melhore”, afirma Luis Acosta, vendedor ambulante.
Já Teófilo Persíngola, também camelô, prefere Fernando Lugo, na
expectativa de que “quem esteja no governo seja honesto”. “Em primeiro
lugar, me interessa na proposta do Lugo a honestidade e não roubar o
povo, depois saúde e educação. É diferente desses 60 anos de governo de
um grupo de mafiosos que está imperando no nosso país”.
Ele não vê problemas na relação com os brasileiros em Cidade do Leste,
nem com os comerciantes e importadores chineses e árabes. No entanto,
ele ressalta que “a maioria do que o brasileiro ganha aqui leva para o
Brasil, o árabe leva para o Líbano, o chinês leva para a China. Não
fica nada aqui, ou você viu uma fábrica aqui? Você já descobriu uma
fábrica de alta tecnologia aqui no Paraguai? Não, [os imigrantes vêm]
só para vender um dia e depois já vai tudo”.
Findo o dia, sacolas cheias, é hora de voltar para casa. O trânsito em
Cidade do Leste está ainda mais caótico. A Ponte da Amizade está cheia,
não importa se chove ou faz sol. São carros, motos, vans, pessoas a pé,
todos misturados com ambulantes, caixas, sacolas e militares. Desde
meados da década de 80, o que eles querem é fazer negócio, conseguir um emprego e uma vida
melhor, não importa em que lado da fronteira.