A eleição do ex-bispo Fernando Lugo à Presidência do Paraguai representa uma "evolução", na avaliação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Ao ser escolhido como novo mandatário paraguaio, Lugo rompeu 61 anos de hegemonia do Partido Colorado - partido que sustentou os 35 anos de ditadura do general Alfredo Stroessner.
"O próprio presidente Nicanor [Duarte, atual presidente do Paraguai] já era uma evolução, um homem mais ligado aos movimentos sociais. Agora, é natural, que o Paraguai queira mais mudanças. Estamos caminhando para um futuro de maior progresso social, maior democracia", comentou Amorim, hoje (22), em Acra, onde acompanhou a
visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ficou por mais um dia,
para encontros bilaterais.
Amorim também destacou o fato de Lugo ser a favor da integração regional. Devido à insatisfação com os resultados do Mercosul, o Paraguai e o Uruguai - sócios menores do bloco - cogitaram romper a parceria, para fechar acordos comerciais com os Estados Unidos e outros países. Pelas regras do Mercosul, acordos comerciais devem ser negociados em bloco.
Candidato pela Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol), Lugo foi professor de escola pública primária e designado para a diocese de uma das regiões mais pobres do país, onde trabalhou com camponeses sem terra. Em 2006, participou da organização da Resistência Cidadã, que agrupou partidos políticos da oposição, centrais sindicais e associações civis e liderou um protesto contra o presidente Nicanor Duarte.
Fernando Lugo foi eleito com plataforma de cunho social, prometendo, entre outras coisas, fazer a reforma agrária e recuperar a soberania do Paraguai sobre seus recursos naturais - um dos focos, nessa direção, seria a renegociação com Brasil e Argentina dos tratados das hidrelétricas binacionais de Itaipu e de Yacireta.
Na semana passada, às vésperas da eleição, Lugo flexibilizou seu discurso. Admitiu que não será possível rever o Tratado de Itaipu, pois qualquer alteração depende de vontade dos dois sócios, e disse que tentaria apenas a revisão dos valores pagos pelo excedente de energia que o Paraguai é obrigado a vender para o Brasil. Sua posição está em sintonia com o discurso do Itamaraty.
"O tratado não pode ser mudado em um aspecto essencial, que é o fato de que toda energia que não seja consumida pelo Paraguai seja vendida ao Brasil. Há várias maneiras de compensar o que o Paraguai está fazendo. A gente tem que continuar trabalhando com visão positiva", afirmou o chanceler Celso Amorim, reiterando o que havia dito ontem (21), em Gana.
Amorim aproveitou para destacar que não há qualquer contradição entre suas declarações e a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ontem afirmou que o Tratado de Itaipu não será modificado. "Não entendi as manchetes dizendo que eu tinha dito uma coisa diferente do presidente. Eu disse exatamente a mesma coisa. Às vezes a gente diz a mesma coisa com outras palavras", explicou.
Leia as reportagens sobre as declarações de Lula e Amorim.