A soja
ocupa o terceiro lugar entre as atividades que mais empregam
trabalhadores em situação análoga à
escravidão, atrás da pecuária bovina e da
produção de carvão para siderúrgicas. A
constatação é da organização
não-governamental (ONG) Repórter Brasil e faz parte do
relatório O Brasil dos Agrocombustíveis – Os impactos
da lavoura sobre a Terra, o Meio e a Sociedade, divulgado hoje (24).
De acordo com o documento, a crescente demanda do grão para
produzir biocombustíveis é um “alerta” para o
possível agravamento dessa situação no país.
A análise
é considerada, “no mínimo alarmista” pelo
coordenador do Grupo Especial Móvel de Fiscalização
do Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, Marcelo Campos.
O grupo é o responsável pela elaboração
da chamada lista suja do trabalho escravo.
Com base
em bancos de dados, mais de 19 mil quilômetros de visitas de
campo e entrevistas com pesquisadores, proprietários rurais,
ONGs e movimentos sociais, a primeira edição do
relatório traça um panorama dos impactos
socioambientais da produção de soja e mamona -
matérias-primas do biodiesel.
No
relatório, a ONG associa a demanda por biocombustíveis
à expansão das lavouras brasileiras de soja. O aumento
da porcentagem obrigatória de biodiesel no diesel brasileiro,
que em julho vai subir de 2% para 3%, é uma das explicações
do relatório para essa associação. Atualmente,
das 60 milhões de toneladas do grão produzidos no
Brasil, apenas 3,5 milhões são destinadas à
indústria de biodiesel. De acordo com o relatório, se
o atual modelo de produção do grão for mantido,
a tendência é que os impactos sociais também se
agravem, entre eles, o trabalho escravo.
“A
relação entre expansão agropecuária e
utilização de trabalho escravo acende um sinal de
alerta para a soja. Com os preços do grão em
recuperação nos últimos anos e com a tendência do aumento do número de fazendas de soja, é de se
esperar que se utilizem trabalhadores temporários tanto para
limpar antigos pastos quanto para derrubar mata nativa. E são
esses os casos mais vulneráveis para serem reduzidos a
escravos”, relata o texto.
“A
análise é no mínimo alarmista. Nós
entendemos que um eventual crescimento de qualquer segmento
econômico, seja ou não relacionado à soja, a
tendência é que ele venha a ocorrer com a garantia do
trabalho decente”, argumenta o coordenador do Grupo Especial Móvel de Fiscalização
do Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, Marcelo Campos. Segundo ele, os produtores
estão “muito mais atentos” aos riscos de contratação
de mão de obra escrava, seja na soja ou em outras culturas.
O
documento, no entanto, não aponta se o destino dos grãos
produzidos com mão-de-obra análoga à escravidão
nas fazendas da lista suja foi a produção de biodiesel.
“Se
você pegar o grosso do trabalho escravo no Brasil você
vai ver que existem poucos casos de sojeiros que praticaram trabalho
escravo; agora se você pensar na agricultura de forma
integrada, aí sim você é obrigado a fazer o
vínculo com a soja”, argumenta o coordenador da pesquisa,
Marcel Gomes.
A lista
mais recente de propriedades flagradas com trabalho escravo,
divulgada em dezembro de 2007, não inclui nenhum sojicultor,
segundo Marcelo Campos. “O que ocorre é que, semestralmente,
a lista vai ficando com um passivo, têm nomes que saem, mas têm
nomes que ficam. Ainda há produtores de soja desse passivo”,
explica.
De acordo
com Gomes, da ONG Repórter Brasil, a mão de obra
escrava é utilizada geralmente para limpar áreas,
desmatar, catar raízes; etapas que antecedem a ocupação
do solo, principalmente para a pecuária. “E a soja entra
sempre depois da pecuária em áreas já abertas.
De certa maneira, a soja se beneficia indiretamente desses casos de
pecuaristas que abriram área que depois utilizou a terra para
produzir soja. Existe um vínculo indireto, sim”,
acrescenta.
Na
avaliação de Campos, a análise da vinculação
entre a soja e o trabalho escravo à longo prazo não é
razoável, porque, segundo ele, “independente de ser soja,
sucro-alcooleiro, carvoejamento, pecuária ou produção
de tomates, qualquer atividade econômica no meio rural pode,
episodicamente, vir a utilizar o trabalho escravo”.
Em 2008,
o grupo do Ministério do Trabalho vai monitorar principalmente
três setores: sucro-alcooleiro, carvoejamento e algodão,
que apresentam maiores índices de denúncias e
ocorrências. “E a soja não está entre eles.
Pode ser que venha a ocorrer no futuro? Eventualmente [sim].
Estamos vigilantes para a toda a economia do meio rural”, afirmou
Campos.
Além
da influência sobre o trabalho escravo, o relatório
também lista problemas como invasão de terras indígenas,
aumento de ocorrência de acidentes de trabalho e conflitos
agrários como possíveis impactos sociais da demanda
crescente por biocombustíveis.
“Nosso
alerta é que se for mantido esse modelo atual de produção,
com capital intensivo, com base na grande propriedade, com intenso
uso de agroquímicos, com pouco empregos sendo gerados, isso
pode causar uma série de problemas”, apontou o coordenador
da pesquisa. Até dezembro, a ONG lançará outros
dois volumes com análises dos impactos da cana-de-açúcar,
milho, algodão, palmas e pinhão manso, também
utilizadas na produção de biocombustíveis.
Procuradas
pela reportagem, a Associação Brasileira das Indústrias
de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação dos
Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), principais
representantes do setor, alegaram que não puderam responder às
críticas hoje (24) porque os representantes e porta-vozes
das instituições estão em compromissos
fora do país.