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Brasília - Dar visibilidade à
temática dos jovens para que o segmento seja devidamente
atendido pelas políticas púbicas elaboradas nas três
esferas de governo. Essa será uma das conseqüências
da 1ª Conferência Nacional de Juventude, evento que começa
hoje à tarde, em Brasília, com a participação de 2 mil jovens. A análise é do
secretário Nacional de Juventude, Beto Cury, que está
no comando da pasta desde sua criação em 2005.
Nesta entrevista, à
Agência Brasil, Cury lembra que, se por um lado, o Brasil
figura, junto com Honduras, como um dos últimos países da
América Latina a implementar uma política de juventude,
é também o único a ter uma esfera de discussão
sobre a realidade do segmento, o Conselho Nacional da Juventude. O
secretário rechaça a tese de que o jovem é
alienado. “Hoje, temos um mosaico plural de organizações
juvenis que têm uma militância social, mas não,
necessariamente, político-partidária.”
Agência
Brasil: Com a criação
e implementação de uma política pública
para a juventude, qual é a importância da conferência? Beto Cury: A
participação é uma das cinco dimensões
importantes da política da juventude. Nós já
tínhamos um mecanismo importante que era o Conselho Nacional
da Juventude e, agora, temos a conferência, que é a
primeira de outras que virão. Nós fizemos um processo
que começou em outubro do ano passado, envolveu mil
municípios, os 26 estados e o Distrito Federal. E ainda realizamos 800 conferências
livres com jovens que cumprem medidas sócio-educativas, indígenas.
ABr: As
conferências livres são um destaque dentro desse
processo? Cury: Claro, é
uma novidade nesse processo de realização de conferências como fórum para ouvir a sociedade. A gente teve participação
de jovens que estão cumprindo medidas sócio-educativas no Caje
[Centro de Atendimento Juvenil Especializado], em Brasília, jovens que cumprem o serviço militar no quartel do Exército em Alagoas, jovens indígenas em Tabatinga [AM], na fronteira com a Colômbia,
e jovens que participaram do Festival de Cinema de Tiradentes. Além
das conferências livres, realizamos também a
consulta nacional a jovens de povos e comunidades tradicionais, jovens descendentes de quilombolas, indígenas
e ciganos, que elegeram 46 delegados para a Conferência Nacional da Juventude.
Foi um processo muito rico.
ABr: Dentre as revindicações dos quase 4 mil participantes das pré-conferências,
algumas já são antigas. O que já vem sendo feito
com relação aos temas trazidos agora pelos jovens, desde a criação
da Secretaria da Juventude? Cury: As duas
principais preocupações que apareceram com mais força
são referentes à educação e ao trabalho. Todo
esse processo já reforça a linha que a gente vinha
seguindo com base em pesquisas, mas vão para além do
que já havia sido feito. O que sair como resolução
será referência para o governo aperfeiçoar o que
está fazendo, ampliar e, evidentemente, se houver alguma
lacuna, implementar ações ou programas que estejam
descobertos. É importante frisar que o tema juventude é
recente, são três anos de uma política específica
reconhecendo a juventude como segmento social. Temos a consciência
que muito há por se fazer, e, certamente, nesse processo, que vem
debaixo para cima, começando nos municípios, ajuda a
comprometer prefeitos e governadores também. Envolver as três esferas de governo é essencial para uma política de juventude.
ABr: A
geração de hoje, invariavelmente, é apontada como
alienada. Mas a participação de tantos jovens nas pré-conferências já não seria um indício de que isso pode estar mudando Cury: Tenho
convicção disso. Há alguns anos atrás,
quando se falava de movimentos juvenis, se pensava muito em movimento
estudantil, era a UNE [União Nacional dos Estudantes] e
a UBES [União Brasileira dos Estudantes Secundaristas].
Hoje, a atuação do jovem vai além. Claro que o movimento estudantil continua tendo um
peso importante nos movimentos juvenis, mas não é só
isso. Há uma multiplicidade de organizações
de jovens que tratam, por exemplo, da questão ambiental, de
prevenção de doenças sexualmente transmissíveis,
de combate ao uso de drogas. Há ainda uma gama de
organizações juvenis que trata de qualificação
profissional, de inclusão digital. O que se tem hoje é
um mosaico plural de organizações juvenis que têm uma
militância social, mas não, necessariamente,
político-partidária. Eu acho que é um chavão
dizer hoje que a juventude é alienada. ABr: Nas propostas relacionadas ao trabalho, que serão discutidas na conferência, há um tópico
específico sobre a ampliação e o fortalecimento do
Projovem, o Programa Nacional de Inclusão de Jovens. O que ainda falta para o programa? Cury: Com a
criação do novo Projovem e ampliação da
escala de cobertura, o programa foi aperfeiçoado do ano passado para cá. Acho que o grande desafio
que nós temos hoje é sensibilizar essa juventude a
participar do programa. Nós temos recursos, mesmo com o corte
de orçamento para esse ano. São quase R$ 1,3 bilhão, recurso suficiente para atender aproximadamente 1 milhão de
jovens. É preciso mobilizar os gestores públicos a
executarem os programas lá na ponta junto conosco, e ter a adesão de prefeitos e governadores ao programa.
ABr: Os gestores públicos têm consciência da
importância de implementar políticas específicas para os
jovens? Cury: Ainda não.
Costumo falar que nós estamos tentando ganhar corações
e mentes dos agentes políticos e dos gestores públicos.
Ainda tem prefeito e governador que acha que ter política
de juventude é criar uma assessoria qualquer, colocar ali um
jovem que não tem força para dialogar com outros
secretários e ,de vez em quando, fazer um torneio esportivo de
futebol e vôlei, ou um promover um show musical. O futebol e o
vôlei não são toda a dimensão do esporte.
O show musical não é toda a dimensão da cultura.
E o esporte e a cultura são componentes essenciais, mas não
são toda a dimensão da política de juventude. Então,
consolidar essa cultura juvenil é o nosso desafio. Acho que a conferência vai ajudar muito nisso. Ela dará
visibilidade à temática e dará força para a sociedade civil pressionar os gestores locais a criar os espaços de
juventude, conselhos e coordenadorias.
ABr: Um
dos temas que será debatido na conferência é
a segurança. No caso dos jovens, o assunto merece um recorte
especial? Cury: A questão
da segurança precisa ser enfrentada não só do
ponto de vista da repressão, mas da ampliação de
oportunidades. É preciso combinar as duas coisas. Ao mesmo
tempo, é importante desenvolver ações para aqueles
jovens que já estão apenados, cumprindo medidas
sócio-educativas. Nós vamos implantar o Projovem dentro
dos presídios. Até o final de 2009, devemos chegar a 15
mil jovens, que cumprem pena, estudando para aumentar sua escolaridade, para se qualificar profissionalmente. Eles vão receber também o auxílio financeiro do programa. Isso para que esse
jovem que está cumprindo pena saia com mais possibilidades.
ABr: Uma
das propostas que surgiram nas etapas estaduais foi dar status
de ministério à Secretaria da Juventude para ministério. Que diferença
isso faria? Cury: Mais do
que ser ministério, o fundamental é que o gestor de
juventude, em qualquer esfera, tenha força dada pelo chefe do
Executivo. No caso do município, o prefeito. No caso do
estado, o governador e, no caso do governo federal, o presidente da
República. No caso do governo federal, a secretaria tem força
política para dialogar com os ministérios, para que programas específicos para o segmento sejam implementados. A secretaria cumpre, assim, o papel de agente coordenador dessa política.
Mas se você cria um Ministério da Juventude e os outros
ministérios acharem que tudo de juventude responsabilidade só desse ministério, na realidade, em vez de fortalecer, enfraquece.
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