Aos 39 anos, uma queda do sexto andar de um edifício na cidade satélite do Gama tornou o pedreiro Longino Alves Ferreira incapacitado para o trabalho. Hoje (28), aos 60 anos, ele se emocionou e conseguiu pronunciar apenas poucas palavras na missa que homenageou as vítimas de acidentes do trabalho, na Catedral de Brasília. Longino fez um apelo às autoridades pela fiscalização das condições de segurança.
“Eu não tenho muita cultura. A minha mensagem é simples, para que os colegas tenham mais cuidado, e as empresas também. Mais cuidado com os companheiros, para não deixar acontecer o que aconteceu comigo”, pediu.
No acidente, que completou 21 anos anteontem (26), Longino quebrou a perna esquerda e teve complicações no baço, no braço direito e no pulmão. Era o único provedor da família, formada por ele, a esposa e dois filhos, que na época tinham 10 e 11 anos. Hoje, o filho mais velho é pedreiro e faz parte do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília.
Longino disse que, na obra, não havia equipamento de segurança para os operários. “Nesse tempo, nós entrávamos nas empresas e aqueles que não trabalhassem iam embora. Eu entrei na segunda e, na terça, o encarregado disse que, se eu desse conta de terminar um serviço até as 17h, teria a carteira assinada. Eram 14h30, estava terminando o serviço. Quando foi 15h15, eu caí e me machuquei.”
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília, João Barbosa de Arruda, falta fiscalização do governo sobre as empresas que não fornecem equipamentos coletivos e individuais de segurança. “Se as autoridades olhassem um pouco para o trabalhador da construção civil, setor que é o carro-chefe em número de acidentes, seria melhor para todos. Acontece que trabalhadores da construção estão aí há anos com ações na Justiça buscando direitos que lhes são garantidos, como a aposentadoria – já que muitos empregadores não assinam carteira.”
No caso de Longino, foram 12 anos para conseguir que a empresa o indenizasse pelo acidente. O coordenador da área técnica da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego), Luiz Brasil, considera altos os índices de acidentes de trabalho no país, mas ressalta o esforço para que se reverta esse quadro.
Luiz Brasil destacou o trabalho feito hoje, especialmente no nível educativo, para sensibilizar os empresários e incluir conteúdos sobre segurança e saúde do trabalho nas escolas de níveis fundamental, médio e técnico profissionalizante. "Há necessidade de mobilização de toda a sociedade, mas ainda é um número muito alto. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima em 6 mil o número de mortos por acidentes do trabalho no mundo por dia”, informou.
O número apresentado por Brasil é equivalente a três vidas perdidas por minuto no mundo – número que, segundo a OIT, representa quase o dobro de vítimas de guerra. No ranking de mortes, o Brasil ocupa o quarto lugar, com 2.503 óbitos, e perde apenas para a China, com 14.924, para os Estados Unidos, com 5.764, e para a Rússia, com 3.090.