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Brasília - O Cadastro Nacional de Adoção, que
será lançado hoje (29) pelo Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), vai permitir atacar diretamente o problema das
restrições que dificultam as adoções no
país.
A opinião é do juiz Francisco de
Oliveira Neto, coordenador do projeto Mude um Destino, criado pela
Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para
estimular a adoção.
Para o titular da Vara da Infância e da
Juventude de Florianópolis (SC), os dados vão permitir
mostrar concretamente às pessoas interessadas na adoção
que elas podem aumentar muito suas possibilidades se forem menos exigentes
em suas escolhas.
“Existe uma grande diferença entre a
criança desejada e a existente [para adoção].
No Brasil, a grande maioria das pessoas só quer adotar
crianças brancas, sem nenhuma suspeita de problemas de saúde,
meninas, com no máximo um ano de idade. Quando tivermos uma
centralização dos números poderemos ter
políticas públicas voltadas para essa situação”,
ressaltou.
Segundo o juiz, alterando, por exemplo, o critério
da idade e aceitando adotar crianças de 2 ou 3 anos, é
possível reduzir pela metade o tempo de espera por uma adoção,
que em Santa Catarina chega a até quatro anos.
De acordo com Neto, as informações
do cadastro serão importantes para demonstrar que não
há burocracia no processo de adoção. Conforme o
juiz, se um casal for habilitado e a criança escolhida estiver
destituída do poder familiar, em uma semana poderão
estar vivendo sob o mesmo teto, mas essa agilidade não é
possível quando a criança escolhida não existe.
“É direito da pessoa fazer essa escolha,
mas é um dever do Poder Judiciário alertar para as
conseqüências. Que se preserve direito de escolha, mas que
a pessoa tenha conhecimento do que isso vai implicar, para que não
se confunda a demora no processo com burocracia,” afirmou.
Ele destacou, no entanto, que a idealização
das crianças a serem adotadas é um desejo natural, que
ocorre também em relação a filhos biológicos.
“É natural esse desejo, mas nós
temos que tratar com a realidade também. É o mesmo que
ocorre com o filho biológico: temos que trabalhar com a
aceitação da realidade. É claro que nós
estamos falando de um processo judicial que tenta imitar a vida
biológica, onde a possibilidade de escolha é maior, mas
mesmo assim as pessoas têm que fazer uma escolha próxima
do real, senão não vão materializá-la”.
O juiz disse ainda que não vê como
racismo as restrições feitas à cor das crianças
a serem adotadas. Segundo ele, há vários outros fatores
envolvidos nessa escolha, como, por exemplo, o desejo de esconder que
a criança é adotada, o que seria dificultado por
grandes diferenças na aparência ou na raça.
“Se olhar a lista de pretendentes, verificamos
que a maioria deles é branca por uma questão histórica,
social do nosso país, eles têm um padrão de vida
mais elevado. O que eles não querem é denunciar que a
criança é adotada. Esse é um mito a ser
trabalhado, sobre o qual o Estado pode atuar, esclarecendo às
pessoas que talvez o mais adequado seja contar [que a criança
é adotada]”, relatou.
Segundo levantamentos da Justiça, em
Santa Catarina existem hoje cerca de 3 mil pessoas interessadas na
adoção e 120 crianças e adolescentes disponíveis
para o processo, a maioria deles com mais de 7 anos de idade. As que
estão abaixo dessa faixa etária têm problemas de
saúde, como, por exemplo, serem portadoras do vírus
HIV.
No estado, cerca de 90% dos pretendentes só
aceitam adotar crianças brancas, 95% não aceitam
crianças com qualquer tipo de problema de saúde e 70%
procuram bebês com menos de um ano de idade.
Neto salientou que essa é a realidade
catarinense, mas dificuldades encontradas em outros estados do país
precisam ser investigados e o cadastro será um instrumento
eficiente para isso.
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