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Brasília - Uma disputa política,
de fundo econômico e que visa a enfraquecer o governo de Evo
Morales, presidente da Bolívia. Assim, dois especialistas
brasileiros ouvidos pela Agência Brasil classificam a
consulta popular marcada para este domingo (4).
Considerado
inconstitucional pelo governo federal e sem o respaldo do Conselho
Nacional Eleitoral (CNE) boliviano, o polêmico ‘Estatuto do
Estado Autônomo de Santa Cruz’ concede aos governantes do
estado mais rico do país, próspero em petróleo e
gás mineral, poder para legislar sobre questões fiscais
e fundiárias, entre outras coisas.
“O que o movimento
por maior autonomia quer é reter no estado uma maior
quantidade de recursos. E, na visão do governo federal
boliviano, isso inviabilizaria a maior parte de seus projetos”, diz
o professor de Relações Internacionais da Universidade
de Brasília (UNB), Virgílio Arraes, para quem não
há, no momento, condições políticas para
a fragmentação da República boliviana, composta
por nove estados.
Para Arraes, o projeto
autonômico é mais uma etapa da acirrada disputa entre
grupos políticos antagônicos. “De um lado, está
a elite tradicional. A mesma que, durante décadas, se
beneficiou do sistema econômico e político então
vigente. De outro lado, há a nova elite, que vem basicamente
do movimente indígena. Eu compararia à história
do cobertor curto. São duas elites puxando o mesmo
cobertor”.
A autonomia requerida por Santa Cruz, avalia
Arraes, possibilitaria aos políticos da região não
só manter a atual estrutura socioeconômica, como
atrapalhar os planos de Morales e de seus partidários.
“A
repartição dos recursos existentes é
insuficiente para atender aos dois grupos. E se for feita como alguns
estados querem, inviabilizará o governo Morales, repercutindo
negativamente nas próximas eleições
presidencial.”
Para o professor de
História Contemporânea da Universidade de São
Paulo (USP) Osvaldo Coggiola, a aprovação do estatuto
de Santa Cruz e de outras localidades que já manifestaram a
intenção de fazer o mesmo transformaria o governo
federal numa espécie de “marionete” dos poderes
estaduais.
Para Coggiola, a questão de fundo é
saber quem vai ficar com os lucros da exploração do
petróleo e do gás mineral, reinvestindo-os de acordo
com suas prioridades. “É preciso lembrar que a Bolívia
possui a segunda reserva natural de gás da América
Latina, uma reserva muito fácil de explorar”.
Coggiola
acredita que, independentemente do resultado da consulta popular
deste domingo, a situação política na Bolívia
caminha em direção a “uma radicalização
muito forte que só será decidida nas ruas”.
O
professor sugere que a estratégia do governo federal de também
convocar um referendo popular para verificar a posição
da população sobre a eventual reforma da Constituição
só vai acirrar o embate com grupos oposicionistas. “Os
referendos autonômicos departamentais e o constitucional
apenas preparam o terreno para um enfrentamento muito mais acirrado,
que vai ser decidido como historicamente sempre se decidiram as
coisas na Bolívia. Nas mobilizações e
contra-mobilizações populares”.
A Assembléia
Constituinte boliviana aprovou a reforma constitucional no final de
2007, sem a presença de parlamentares oposicionistas. Os
governadores de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija reagiram
imediatamente, ameaçando declarar a autonomia de seus
estados.
Para entrar em vigor, a nova Constituição
tem de ser ratificada por meio de um referendo nacional que ainda não
tem data marcada para acontecer.
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