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Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) - Para o analista político boliviano Alfonzo Román, o resultado preliminar da consulta popular sobre a autonomia do estado de Santa Cruz indica não apenas o desejo da sociedade por reformas políticas, mas também a atual divisão do povo boliviano. Apuração parcial da Corte Departamental Eleitoral apontava, no início da tarde de hoje (5), a vitória dos autonomistas, com 84% dos votos.
“Existe demanda por uma maior democratização do Estado”, afirmou Román hoje (5). “Também é preciso considerar que existe um movimento de centenas de milhares de pessoas que querem ser levadas em conta. São os indígenas, os camponeses e a classe média que, até hoje, não tinham qualquer participação junto ao Estado.”
Para Román, boa parte da população de Santa Cruz ignorava o real sentido da consulta convocada pelo governador de Santa Cruz, Rubén Costa. Segundo ele, muitos votaram por “pressão emocional e psicológica” ou para demonstrar sua insatisfação com a política do governo federal. “Há em Santa Cruz uma espécie de ditadura, uma pressão popular para que todos se agrupem em torno de uma só idéia, a um determinado grupo e qualquer tentativa de pensamento independente é combatido.”
Román também considera que a divisão entre os chamados collas (forma pejorativa de chamar as pessoas vindas de outras regiões, sobretudo de estados como La Paz, Sucre e Chuquisaca) e os cambas (os nascidos em Santa Cruz, estado mais rico do país) foi determinante para o resultado da consulta. “Os resultados também são reflexo de uma luta de classes, devido a diferenças culturais e de pontos de vista.”
O analista criticou líderes sociais que, segundo ele, estimulam o ódio entre os dois grupos. “Diante da incapacidade de apresentarem propostas ideológicas, uma nova filosofia de Estado, tomaram como bandeira as diferenças culturais, raciais, étnicas e sociais”, afirmou Román, responsabilizando governo e oposição pela divisão “do país, das cidades, das regiões, dos povos”.
Para Román, a possível vitória da proposta de autonomia para Santa Cruz deverá influenciar as consultas convocadas pelos estados de Beni, Pando, em 1 de junho, e Tarija, no dia 22 do mesmo mês. “Santa Cruz é um estado poderoso e influente tanto em termos de população, quanto de produção econômica. O estado será uma espécie de referência para os demais”, afirmou.
Segundo ele, o estatuto de Santa Cruz, mesmo se aprovado, não poderá ser aplicado por não ter respaldo das instituições nacionais. “Este documento é uma mistura de autonomia, federalismo e separatismo. Até mesmo os líderes do movimento pró-autonomia estão convencidos de que ele não poderá ser implementado a menos que se declare a independência do estado.”
Para o cientista, a intenção desses líderes era acumular influência política para pressionar o governo federal a negociar reivindicações dos estados e dos grupos de oposição. Entretanto, ele teme que, com isso, as forças políticas entrem em confronto.
“A menos que as pessoas que estão à frente dessa confrontação tenham nobreza para sentar e negociar um projeto de Constituição que aglutine todos os setores do país, vamos terminar em uma confrontação.”
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