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Brasília - Em entrevista
concedida na noite de ontem (5) no Palácio do Planalto ao
jornalista Heródoto Barbeiro e exibida pela TV Cultura
de São Paulo no Jornal da Cultura, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva falou sobre os principais temas da
economia que repercutem no país, como a obtenção
do grau de investimento, o reajuste de preços dos
combustíveis, controle da inflação.
Lula também
citou iniciativas na área de desenvolvimento como o Programa
de Aceleração de Crescimento (PAC); falou dos gastos do
governo; da greve dos servidores públicos, da política
industrial para o Brasil, que será lançada no dia 12..
Sobre a classificação
do Brasil como país com grau de investimento, anunciada na
semana passada por uma agência internacional de risco, Lula
voltou a recomendar “euforia comedida, porque o jogo tem muito
tempo pela frente”. Segundo Lula, ainda leva algum tempo para que
se consolide o processo macroeconômico do país, de modo
a se transformar em uma grande nação com uma grande
economia.
Entrada do país
no grupo dos mais industrializados:
“Acho que há
uma movimentação, vários países que
participam do G8 estão defendendo que hoje é
incompatível reunir o G8 sem reunir o Brasil, sem reunir a
China, sem reunir a Índia, sem reunir o México. Como
você vai discutir meio ambiente hoje sem estar o Brasil
presente, como é que você vai discutir alimento sem
estar presente o Brasil? Então, eu penso que o mundo vai
evoluir, não para que o Brasil faça parte do G8, mas
para que mais países componham esse grupo seleto que discute
os rumos da economia mundial”.
Preço dos combustíveis e
inflação:
“O aumento dos preços dos combustíveis
não vai alimentar a inflação porque nós
fizemos um jogo combinado. Nós fizemos o reajuste da gasolina
e o reajuste do óleo diesel para a Petrobras e ao mesmo tempo
nós reduzimos a alíquota da Cide [Contribuição
de Intervenção no Domínio Econômico]
para permitir que o aumento não chegasse ao consumidor.
Portanto, quando você for num posto de gasolina, o preço
da gasolina tem que estar o mesmo, não pode ter aumentado”.
Entrada de dólares no país:
“Às vezes fico pensando tudo o que eu já
sonhei, tudo o que eu já ouvi, tudo que um brasileiro
reivindicou nos últimos 50 anos era que o Brasil se dotasse de
credibilidade para receber a entrada de muitos dólares. Na
hora que essa situação se apresenta, aparecem as
pessoas com medo de que vai entrar muito dólar. Primeiro, eu
quero que entrem todos os dólares do mundo no Brasil. Segundo,
eu acho que temos que ter mecanismos para não misturar o dólar
que entra para o setor produtivo, para construir uma fábrica,
para gerar um emprego, com o dólar que vem para a especulação".
Anúncio da política industrial:
“No dia 12 nós vamos ao Rio de Janeiro,
na sede do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social], lançar uma proposta de política
industrial para o Brasil, que tem política de inovação
tecnológica, que tem política de incentivo às
exportações, que tem política de desoneração.
Acho que é o mais importante movimento para o desenvolvimento
industrial do Brasil que aconteceu nesses últimos 50 anos. Nós
vamos anunciar no Rio de Janeiro, no próximo dia 12 [de
maio]”.
Gastos públicos:
“Nós não gastamos muito porque não
temos muito. Há muito sofisma sobre a questão do Estado
brasileiro. Importante não é discutir se o Estado custa
muito ou custa pouco. Importante é discutir a qualidade do
serviço que o Estado presta ao contribuinte brasileiro. E nós
não prestamos um bom atendimento. É preciso que a gente
preste um bom serviço e, para isso temos que fazer as
reparações nas categorias profissionais que trabalham
no Estado”.
Investimento em infra-estrutura:
O PAC [Programa de Aceleração do
Crescimento] é, possivelmente, o mais importante
investimento que esse país já fez. Eu digo sempre que o
último grande investimento em infra-estrutura foi feito no
governo [Ernesto] Geisel”.
Política industrial:
“O Brasil precisa se transformar numa plataforma
de exportações de vários produtos que nós
fabricamos, não apenas commodities, mas de carros, de
telefone celular, de software. Por isso é que nós vamos
lançar a política industrial, para ver se ela contribui
para a gente exportar muito mais e fomentar e incentivar os nossos
exportadores”.
Greves de servidores:
“Primeiro, eu defendo a liberdade da autonomia
sindical. Segundo, defendo o direito de greve, Agora, as pessoas
precisam compreender que eu ganho um salário pelos dias que
trabalho, pelas horas que trabalho. Se eu não trabalho, quero
ficar em greve 30 dias, 20 dias, 40 dias, 50 dias, e eu [recebo]
o salário, isso não é greve, são férias.
Então, a ordem que o Ministério do Planejamento tem é
descontar os dias das pessoas que estão em greve”.
Redução da jornada de trabalho:
“Passei parte da minha vida lutando pela redução
de jornada de trabalho. Acho que ela pode significar um bem para o
Brasil. Acho que é um debate que o governo precisa fazer junto
com a sociedade, junto com os sindicatos, junto com os empresários,
para ver se chega à conclusão. Se for, do ponto de
vista da geração de emprego, da distribuição
de renda, uma coisa palatável, que se faça. Se não
for, vamos fazer no momento que precisa ser feito”.
Aposentadorias:
“É humanamente impossível você
fazer um fator previdenciário, você igualar para os
trabalhadores aposentados o aumento que você dá para o
salário mínimo, ou seja, não tem caixa, não
tem dinheiro para isso. É simplesmente isso. Então, eu
penso que a Câmara vai tratar de fazer o debate com maturidade
e a mim não tem nenhuma preocupação. Quando
chega naquela mesa ali, para sancionar ou vetar, o que pesa não
é o comportamento pessoal do Lula, não é a
vontade pessoal do Lula ser humano, o que pesa é a
responsabilidade minha de uma coisa chamada instituição,
presidência da República, e aí eu ajo como
presidente”.
Desmatamento:
“Os dados do INPE (Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais) têm demonstrado ao longo do tempo que nós
já diminuímos, praticamente, em 59% o desmatamento.
Acho que, além de ver a foto, você tem ir lá para
saber se é desmatamento na selva amazônica ou é
desmatamento de alguma área que já estava desmatada.
Mas de qualquer forma, o Ministério do Meio Ambiente, e o
Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis), nunca, nem de perto, tiveram as condições
que têm hoje para fiscalizar o desmatamento e cuidar do meio
ambiente no Brasil”.
Biocombustíveis:
“Vejo o etanol e o biodiesel como a salvação
para alguns países africanos e para alguns países da
América Latina. Cada um tem que dar a sua contribuição
para a gente diminuir o aquecimento global. Enquanto os chamados
inteligentes do mundo não encontram outro combustível
melhor para dirigir os carros sem poluir, o Brasil, humildemente,
está oferecendo etanol de muita qualidade”.
Matéria foi reeditada
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