Com 85 anos de
idade, Joaquim Corrêa vive há pelo menos 81 em uma propriedade de 2 mil
hectares às margens do Lago Caracaranã, que ficou
dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol depois da demarcação
em área contínua feita pelo governo federal.
Ele exibe um
título de posse da área datado de 1886 que herdou dos antepassados, e se diz "contrariado" com a
possibilidade de deixar a terra sem
receber uma indenização que considere adequada, caso o Supremo Tribunal
Federal confirme a legalidade da demarcação.
“Eu sou nativo, nasci
e me criei aqui. Me sinto vítima de uma injustiça”,
reclama o homem viúvo, com sete filhos, 17 netos, bisnetos e até
um tataraneto, que freqüentam a propriedade.
Joaquim, que se diz
eleitor de Lula desde 1989, quando o então
candidato visitou sua terra, chegou a enviar uma carta ao presudente há cerca de dois anos reclamando do valor
oferecido pela Fundação Nacional do Índio como
indenização para que saísse da reserva.
A
proposta do órgão federal foi de R$ 360 mil, enquanto
ele estima que o valor justo seria pelo menos R$ 1 milhão.
Alega que obteve uma resposta protocolar, para que encaminhasse as
queixas à Casa Civil. Fez o sugerido e recebeu outra resposta
de que o assunto seria avaliado.
A mágoa foi o
que restou dos contatos. “Me decepcionei. Não vou dizer que
ele [ presidente da República] fez um mal governo em nível
nacional, mas para Roraima foi um desastre. O pronunciamento que está
vindo dele é de que não vai ceder em relação
à demarcação, mas se respeitar a decisão
do Supremo, já está de bom tamanho”, avalia Joaquim.
“Agora já passei da idade e nem tenho mais intenção
de votar”, acrescenta.
O lago de Caracaranã,
um dos pontos turísticos mais belos de Roraima, está a
166 quilômetros de Boa Vista. Parte do trajeto é em estrada de terra,
onde há muitos animais na pista. A propriedade de Joaquim
Côrrea já funcionou como uma espécie de balneário,
com chalés, bares e uma praia de água doce e
cristalina. Mas segundo um de seus genros, o movimento caiu após
a perspectiva de retirada dos não-índios da área
e a colocação de uma placa dizendo que só
poderia se ingressar ao local com autorização da
Fundação Nacional do Índio.
Questionado se preferia
receber R$ 1 milhão ou permanecer na propriedade, Côrrea
disse que teria que consultar a família. Alegou temer que haja
perseguição aos não-índios, caso o STF
autorize a permanência deles lá , mas reiterou confiar
em duas “justiças” para que se chegue a uma solução
positiva para o impasse: “A primeira esperança é
justiça Divina e a última justiça dos homens.
Acredito que são pessoas [os ministros do STF) que tenham
caráter e amor à pátria”.
O relator das ações
pendentes no STF que contestam a demarcação da Raposa
Serra do Sol é o ministro Carlos Ayres Britto, que disse nesta
semana estar com o voto praticamente concluído. Caberá
ao presidente da corte, ministro Gilmar Mendes, marcar uma data para
o julgamento no plenário, que pode ocorrer ainda em maio.