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Brasília - O
queijo artesanal produzido na região das serras da Canastra,
do Salitre e do Espinhaço, em Minas Gerais, foi declarado
Patrimônio Imaterial Brasileiro porque, muito mais do que
alimento, é uma herança cultural importante, que chegou
ao Brasil nos primórdios do século 18, trazido pelos
portugueses. Era produzido na Serra da Estrela, que tem muitas
semelhanças com as de Minas.
Esta é a explicação
da conselheira do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan) Ângela Gutierrez. "Este
queijo atravessou os séculos sendo feito da mesma forma, com
os mesmos detalhes com que era feito no início do século
18. Sobreviveu a tudo e está aí para testar a nossa
raiz cultural", afirmou em entrevista ao programa Revista
Brasil, da Rádio Nacional de Brasília, para
comentar a decisão anunciada na última quinta-feira
(15), após um estudo demorado.
O título não
muda nada, nem pode mudar, no queijo "produzido com leite cru,
coalho e pingo", explica a conselheira. O que muda "é
a condição do produtor de apresentar um produto que tem
o reconhecimento do Iphan. É a segurança do comprador,
de que está comprando mais do que um produto alimentício,
está comprando a tradição. E a indústria
de laticínios tem salvaguardas próprias para este tipo
de queijo artesanal. O que muda é principalmente nesse
sentido: mais segurança, mais garantia e cultura".
Ângela
Gutierrez ressalta que o segredo da produção artesanal
do queijo Minas foi passado "de pai para filho, de avô
para neto, de uma maneira doméstica absolutamente informal, e
permaneceu. Nada modificou esse modo de fazer e, pensando bem, ele
engloba também um modo de viver, porque o queijo nessas
regiões de Minas Gerais era consumido no café da manhã,
no almoço, no lanche da tarde, na janta, como se fala nessa
região. Ele foi sobrevivendo desse modo, sem registro, sem
nenhuma bibliografia, e também numa região onde havia
muita simplicidade por parte das pessoas que o faziam".
A
conselheira destaca ainda que "esse queijo se incorporou à
vida do mineiro de uma maneira incrível e, por isso, o
Patrimônio Imaterial Brasileiro precisa incorporá-lo ao
seu campo de ação". Sobre a importância do
produto na história do estado, ela conta que, no princípio
do século 18, houve uma enorme migração de
trabalhadores para as minas, por causa do ouro e depois das pedras,
sobretudo de portugueses. “E essas pessoas precisavam se alimentar.
Então, o queijo veio com a necessidade de se produzir um
produto que, com a salga, conseguia se manter durante um bom tempo".
Além disso,
segundo ela, eram feitos queijos pequenos, durinhos, chamados de
"merendeiros", levados pelos mineiros para as lavras de
minério e pedras e que duravam o dia inteiro.
Ângela
Gutierrez destaca ainda a importância de proteger o queijo
Minas com o selo do Iphan, para evitar que outros países
tentem se apropriar dele, como o Japão tentou fazer com o
cupuaçu. "O selo atesta que é um produto nosso e o
Brasil finalmente está abrindo os olhos para a importância
da preservação de suas raízes culturais. Porque
se nós não preservamos, alguém o faz por nós
e aí vira dono".
Sobre a possibilidade de o pão
de queijo, outro produto tradicional de Minas, vir a ser também
considerado patrimônio imaterial, ela diz que é uma
questão para o futuro. Mas lembra que "este queijo que
foi registrado pelo Iphan é o queijo firme, ralado, que vira
quase uma farinha, é curado e é com ele que se faz o
famoso pão de queijo. O primórdio do pão de
queijo está registrado. Vamos ver o que vem pela frente".
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