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Brasília - A criação
do Fundo Soberano brasileiro não mudará a política
de formação de reservas internacionais, que atualmente passam de US$ 198,9 bilhões. A afirmação é
do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, em
entrevista exclusiva à Agência Brasil.
Meirelles
negou que possa haver alguma tensão com o Tesouro Nacional,
que também poderá comprar dólares para compor o
fundo. “O Banco Central em nenhum momento deseja ter qualquer tipo
de atuação única no mercado”, disse Meirelles.
Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apesar de estar
prevista a atuação do Tesouro Nacional com a compra de
dólares, a composição principal do fundo virá
do superávit primário
(receitas menos despesas, excluídos pagamentos de juros).
Meirelles afirmou que não teve acesso aos estudos com os detalhes do fundo, mas depois de anunciadas as características
fundamentais de constituição do Fundo Soberano do Brasil, o Banco Central vai
discutir os detalhes da política de governança do
instrumento. Confira trechos da entrevista:
Agência Brasil: Como vai
ser a operação do Fundo Soberano? Henrique Meirelles: O conceito
de fundo soberano é usado por diversos países com
finalidades diferentes e distingue-se de uma maneira bastante clara
das reservas internacionais do país. As reservas
internacionais do país têm por finalidade a garantia de
liquidez. Ou seja, são ativos líquidos e de risco de
crédito menor possível. Muitas vezes, títulos
de governo, de países de economia mais sólida.
Portanto, a finalidade das reservas é fazer com que o risco
percebido do país diminua e, em conseqüência, o custo de
captação das empresas brasileiras e do governo
brasileiro cai. Isso tem acontecido e o investment grade [grau de investimento, classificação que sinaliza para os investidores estrangeiros que o país oferece segurança para investimentos]
concedido ao Brasil recentemente mostra claramente o acerto da
política de acumulação de reservas
internacionais. É mais uma demonstração desse
acerto. O desempenho do Brasil durante a crise dos mercados mundiais
que foi gerado pela crise do subprime [operações financeiras no mercado imobiliário] americano é, de
novo, outra evidência importante do acerto [da política
de acúmulo] das reservas internacionais. Evidentemente que
vem junto com toda a melhora dos fundamentos da economia brasileira:
a melhora fiscal, a continuada queda da relação dívida
pública líquida total sobre o produto, trajetória
de inflação consistente com as metas estabelecidas pelo
Conselho Monetário Nacional.
ABr: Então,
qual é o papel do Fundo Soberano? Meirelles: O Fundo
Soberano tem outras finalidades que não a de
assegurar liquidez, assegurar uma reserva líquida do país.
Cada nação tem uma diferente configuração
para o Fundo Soberano. A configuração do Fundo Soberano
brasileiro ainda não está definida. O ministro [da
Fazenda], Guido Mantega, deverá anunciar brevemente as
características fundamentais da constituição do
Fundo Soberano do Brasil e só aí nós vamos
discutir quais são os detalhes da política de aplicação
do fundo, de governança etc. No caso do Brasil, uma visão
inicial é de que recursos viriam do que poderia ser usados para despesas correntes. Portanto, o
país estará ao mesmo tempo tirando partido do excedente
de dólares do balanço de pagamentos do Brasil [e fazendo um esforço fiscal maior]. Em
resumo, vamos aguardar qual será o detalhamento do Fundo
Soberano: critério de compras, fontes de financiamento, para, a
partir daí, podermos comentar com maior tranqüilidade.
ABr: A compra
de moeda estrangeira vai interferir na estratégia do Banco
Central de composição das suas reservas? Meirelles: São
coisas diferentes. O Banco Central compra as suas reservas
diretamente no mercado através de leilão, enquanto que
hoje o Tesouro Nacional já faz também a compra de
reservas para atender algumas das suas obrigações.
Vamos aguardar para ver exatamente qual será a metodologia,
processo de compra de reservas por parte do Fundo Soberano que ainda
não está anunciado.
ABr: Se o
Tesouro vai aumentar a compra de dólares para compor o fundo,
poderá haver alguma tensão com o Banco Central que
também compra moeda estrangeira? Meirelles: Não
há nenhuma tensão. Existe um grande número de
compradores de dólares no país do setor privado e,
hoje em dia, também no setor público, no Tesouro
Nacional e, portanto, o Banco Central em nenhum momento deseja ter
qualquer tipo de atuação única no mercado. É
normal que existam compradores diversos. Inclusive, em outros países,
o Tesouro compra diretamente também para atender às
suas obrigações, inclusive para a possível
constituição de Fundo Soberano.
ABr: Como avaliar o nível ideal de
reservas internacionais? Meirelles: É difícil fazer esta
avaliação. Certamente o Banco Central não dá
muitas pistas para que os agentes econômicos não
antecipem movimentos da autoridade monetária nesta área.
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