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Brasília - O presidente do Supremo
Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, afirmou hoje (23) ao falar sobre o julgamento da constitucionalidade da demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que
o tribunal "tem em mãos um caso peculiar, que vai lhe
proporcionar a oportunidade, talvez de pela primeira vez, já
sob a Constituição de 1988, se pronunciar novamente -
porque já tínhamos pronunciamentos anteriores - sobre o
conceito de posse indígena, qual é a sua dimensão
institucional”.
Ele disse, em
entrevista coletiva à imprensa convocada para falar sobre a
visita que fez à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em
Roraima, na quinta-feira (22), que a votação da ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra a demarcação
contínua da reserva depende do ministro relator (Carlos Ayres
Britto).
“Aguardo que ele peça
pauta, mas muito provavelmente nós votaremos, ou pelo menos
iniciaremos o processo decisório, no final de junho ou logo no
início de agosto", disse.
O relator do processo e
a ministra Carmem Lúcia acompanharam o presidente do STF na
viagem à Roraima.
Outro tema que a
demarcação da reserva envolve é o da soberania,
com relação à presença de forças
militares na região. O ministro se recusou a opinar sobre os
temas envolvidos na discussão jurídica da demarcação
da reserva de forma contínua efetuada pelo governo federal,
para não antecipar voto num futuro julgamento.
Segundo Gilmar Mendes,
trata-se de um "caso de escola", em que o STF vai definir
estas e outras questões, como a demarcação em
área de fronteira e de etnias que têm presença no
Brasil, na Venezuela e na Guiana.
Sobre a visita à
reserva Raposa Serra do Sol, Gilmar Mendes disse que a comitiva
viajou em avião da FAB de Brasília para Boa Vista
(Roraima) e de lá, em uma aeronave menor, sobrevoou a Vila de
Surumu, depois as cidades de Pacaraima, Água Fria (uma antiga
vila de garimpeiros, hoje deserta), e a localidade de Caramundá-tai,
na região de fronteira, onde o avião não pousou
por falta de condições meteorológicas. A
aeronave pousou em outra pista, na aldeia Serra do Sol, onde os
ministros conversaram com os índios e retornaram a Boa Vista.
Os ministros do STF
estavam acompanhados do coronel Faulkner, comandante da Aeronáutica
em Manaus, e que conhece bem a área e tem relações
amistosas com os índios da região.
O presidente do STF
disse que não pretende ouvir representantes dos arrozeiros que
vivem na reserva.
"Os dois lados já
estão representados, já trouxeram memoriais e não
era essa a necessidade que nós tínhamos
fundamentalmente, mas sim de conhecer a realidade na área de
conflito. Nós estamos diante de um modelo todo peculiar. Temos
uma tríplice fronteira, temos comunidades indígenas,
que têm parentes em outros países, temos uma presença
bastante grande - e este é um dos reclamos - de Organizações
Não Governamentais (ONGs) de toda índole. Tudo isso
está em discussão, de certa forma, neste processo.
Então, nós não estávamos a buscar diálogo
com as partes envolvidas nesta visita. A orientação era
mais de conhecer essa realidade e ela foi bem enfatizada pelo
ministro Carlos Brito, relator do processo".
O ministro esclareceu,
porém, que "decidimos colocar os pés em terra
firme na aldeia Serra do Sol, dos índios ingaricó. Por
isso, tivemos contato com esse grupo, mas eles não estão
sequer preocupados com essa questão de maneira direta, porque
não são afetados, já que sua área está
bem protegida e devidamente guarnecida, afora outros aspectos, porque
é uma área de fronteira". Segundo Gilmar Mendes
disse "todos dizem que há um ambiente de muita tensão,
uma situação realmente de conflagração na
cidade de Pacaraima".
O ministro disse que no
STF não há intenção de fazer nova visita
à região da Reserva Raposa Serra do Sol e a viagem foi
feita com os ministros que podiam viajar no feriado, sendo que "o
principal ator nesse processo era o relator e a ele cabe conduzir
essas questões".
Gilmar Mendes
esclareceu que os ministros estão recebendo informações
de todos os interessados. “O próprio ministro Brito [Carlos
Ayres] recebeu recentemente subsídios, tanto da AGU
[Advocacia-Geral da União] quanto do governo de
Roraima. Por isso entendeu que talvez não tivesse condições
de apresentar o relatório, como inicialmente projetara, no
final de maio. Por essa razão, estamos tendo um pequeno
atraso, mas que não afeta em nada a celeridade que estamos
imprimindo ao caso", explicou.
O ministro Gilmar
Mendes entende que o Supremo está procurando um julgamento
técnico, "desideologizar o debate, tirar essa ideologia
muito forte que está imantando toda essa questão".
Sobre a possibilidade de que uma decisão do Supremo contra a
homologação da Reserva Raposa
Serra do Sol de forma
contínua abra precedente para uma enxurrada de ações
semelhantes de partes interessadas na criação de outras
reservas indígenas, Gilmar Mendes disse que "o tribunal,
por ser uma Corte Suprema, tem que lidar com as conseqüências
dos seus julgados. Nós lidamos com isso com grande
tranqüilidade e sabemos lidar com os efeitos políticos
das nossas decisões".
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