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Brasília - A descoberta de enzimas
que permitam a produção em escala e o desenvolvimento
de tecnologias de conversão de biomassa em etanol a partir das
florestas brasileiras são os principais objetivos do
programa Florestas Energéticas na Matriz de Agroenergia
Brasileira. O programa está sendo realizado pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), sob a liderança
da unidade Embrapa Florestas, localizada no Paraná.
Cerca de 70 instituições
públicas e privadas e mais de 100 pesquisadores participam do
programa em todo o país. Um dos projetos inseridos no programa é
coordenado pela pesquisadora Sonia Couri, da Embrapa Agroindústria
de Alimentos, do Rio de Janeiro. Ele visa à obtenção
de derivados energéticos de alto valor agregado a partir de
biomassa florestal. Ou seja, é o processamento da madeira para
produção de energia, utilizando diferentes processos.
Segundo a pesquisadora, existem
muitos complicadores que oneram a produção de energia a
partir de biomassa. Um deles é o custo internacional das enzimas - ou
catalizadores biológicos - usadas na produção de
energia, que oscila hoje entre US$ 0,30 a US$ 0,50 por galão de
etanol. Mas, para ser lucrativo para o setor produtivo, esse valor
teria que ser reduzido para cerca de US$ 0,05 o barril, informou
Sonia Couri. Essas enzimas, atualmente, são importadas pelo
Brasil.
“O mundo todo está
procurando produzir uma enzima que torne esse processo economicamente
viável. Porque a enzima é muito cara ainda”, explicou. Ela
alertou também que ainda não está otimizado o
pré-tratamento da biomassa. Daí o interesse dos
pesquisadores em conseguir recursos que permitam agilizar os
trabalhos.
Sonia Couri explicou que ,
antes de iniciar o processo de fabricação de energia a
partir da biomassa, é preciso efetuar o pré-tratamento
da estrutura rígida dos troncos para expor a fibra de celulose
à ação das enzimas. “Você tem que tirar
a celulose que está mais escondida para que a enzima possa
agir”.
A pesquisadora destacou que é preciso que haja
condições diferenciadas de pré-tratamento para
cada tipo de matéria-prima usada, como resíduos de
agroindústria, toras de árvore ou bagaço de
cana. A celulose é um polímero de glicose, ou seja, uma molécula maior e mais complexa. “Então,
a enzima age na molécula de celulose e transforma aquilo em
um xarope de glicose. A enzima faz com que a ligação
entre uma glicose e outra seja rompida, e aí você tem
então a glicose livre para ser fermentada e fazer o etanol”, ensinou.
Trabalhar com baixas
temperaturas e em condições brandas é uma das
vantagens do uso dessas enzimas. Elas substituem o tratamento com
ácidos, que é muito drástico e resulta em um
resíduo difícil de tratar depois, segundo a pesquisadora.
A Embrapa Agroindústria
de Alimentos procura isolar fungos que sejam excelentes produtores
dessas enzimas para depois utilizar na biomassa. Até o
momento, a unidade de pesquisas já testou cerca de 500
fungos. Dois deles foram selecionados nos laboratórios do
Centro de Tecnologia de Alimentos (CTA), situado no estado do Rio, e
da Embrapa Agroindústria Tropical, que fica no Ceará.
Outros grupos de
pesquisadores da Embrapa e de entidades de pesquisa parceiras
efetuam a triagem para seleção de bactérias,
cuidam da caracterização do DNA desses fungos e
bactérias selecionados, e buscam ainda, a partir da biomassa,
produzir um bio-óleo, que também é um derivado
energético.
Na última
semana, a equipe envolvida na obtenção de derivados
energéticos, no caso o etanol, esteve reunida nesta capital.
O conjunto de pesquisas incluídas no programa Florestas
Energéticas quer o aproveitamento das florestas e dos resíduos
agroindustriais como uma opção para a matriz
energética brasileira.
“Se você
considerar que o Brasil tem poucas áreas plantadas, existe um
potencial muito grande para explorar essa área plantada. Você
pode usar tanto a madeira de floresta plantada – não é
a madeira de floresta nativa, de jeito nenhum – ou mesmo resíduos
dessa floresta”, disse Sonia Coura.
A pesquisadora avaliou que, em termos energéticos,
é muito mais vantajoso usar parte dessas florestas plantadas
para geração de energia. Ela argumentou que se o Brasil
tivesse atualmente mais áreas com florestas
plantadas, não haveria tanta invasão de florestas
nativas.
O projeto foi iniciado
em setembro de 2007 e tem prazo de conclusão previsto para
dentro de quatro anos. A pesquisadora defendeu, entretanto, que ele
deverá ter continuidade. Dos recursos previstos inicialmente,
em torno de R$ 5 milhões pela Embrapa, só foram
liberados até agora cerca de R$ 2,5 milhões.
Sonia Couri afirmou que os
pesquisadores pretendem buscar recursos em outras fontes à
medida em que os estudos forem se desenvolvendo. “Porque ainda
não é suficiente para tocar [o projeto] como deveria
ser. Quanto mais recursos você consegue,
mais rapidamente você pode ter alunos, pagar bolsas. Quer
dizer, ter mais gente na equipe e produzir muito mais. Porque é
isso que está acontecendo nos demais países”, explicou.
A coordenadora do
projeto na Embrapa Agroindústria de Alimentos observou que é
preciso viabilizar as pesquisas economicamente, de modo a baratear o
custo das enzimas. Uma das empresas interessadas em validar essa
tecnologia em uma escala maior, anterior à etapa de
industrialização, é a Global Ciência e
Tecnologia, do setor de inovação.
A companhia está
entrando com o projeto na Financiadora de Estudos e Projetos
(Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia,
em busca de financiamento. “Se a gente conseguir produzir aqui no
Brasil, economiza uma série de etapas e pode ser viável
economicamente”, concluiu.
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