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22 de Junho de 2008 - 15h59 - Última modificação em 22 de Junho de 2008 - 15h59


Incremento da agricultura não será eficaz para conter inflação, diz especialista

Luciana Lima
Repórter da Agência Brasil

 
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Brasília - A estratégia de direcionar investimentos para o setor agrícola, principalmente para produtos de exportação, não será a solução para controlar a inflação. Essa é a análise feita pelo economista Salomão Quadros, professor da Fundação Getulio Vargas e responsável técnico pelos índices econômicos medidos pela instituição.

“Não é dessa forma que o governo vai conseguir amenizar a inflação. O governo só vai conseguir aumentar a produção que vai ser colhida e comercializada no ano que vem. As safras desses produtos ocorrem no final do verão, em fevereiro ou março. Até lá, a inflação vai andar por conta dos choques externos e da demanda interna”, explicou Quadros.

Para ele, é necessário tomar medidas urgentes para conter a demanda e, nesse caso, resta ao governo a opção de reduzir o acesso ao crédito, ou seja, aumentar a taxa de juros.

“Existem algumas medidas que devem ser tomadas mais urgentemente, por exemplo, controlar um pouco a demanda interna. O instrumento mais eficaz no momento é a taxa de juros. Ele não é o único, mas entre os que estão colocados realmente a disposição do governo, ele é o mais eficaz”, destacou o professor.

Após se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira (19), o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, anunciou o incremento na produção de alimentos como vértice da luta contra a inflação. O governo vai lançar o Plano Agrícola e Pecuário, para a safra 2008-2009, no dia 3 de julho.

O novo pacote agrícola vai destinar a agricultores empresariais R$ 65 bilhões para financiar a próxima safra. O governo vai investir ainda outros R$ 13 bilhões na agricultura familiar.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou, também na sexta-feira, que o governo pretenda aumentar novamente o superávit primário (economia de recursos para pagar os juros da dívida pública) e tomar novas medidas de restrição ao crédito.

O maior exemplo de que o aumento da produção agrícola não vai influenciar a redução dos preços, principalmente dos alimentos, de acordo com Quadros, foi o que ocorreu com o preço do arroz. “A relação oferta/demanda do mercado brasileiro não justificava a elevação do preço do arroz. A produção dava para atender a demanda local. Tanto que, em março, o preço do arroz estava até caindo. O que aconteceu foi que o preço do arroz subiu no mundo e o agricultor brasileiro percebeu que era mais interessante vender no mercado internacional. Aí, o preço do arroz no Brasil, imediatamente, começou a subir”, exemplificou.

Quadros explica que os mercados são cada vez mais integrados e, mesmo que se aumente a produção doméstica agrícola, isso não se refletirá tanto assim no mercado interno. “A globalização tem essa característica. Ela reduz um pouco o poder do governo sobre o seu próprio país”, destacou.

O economista reconheceu a dificuldade do governo em cortar gastos, situação que reforça a demanda pelo aumento dos juros. “Os gastos não estão diminuindo. O governo acena de um lado, aí tem uma pressão para aumentar de outro, aumentar salários, corrigir o Bolsa Família, por exemplo. Todas essas despesas têm a sua razão. O governo encontra dificuldades de fazer isso porque significa tomar uma decisão que vai contrariar algum objetivo social ou político. O controle mesmo da inflação vai ter que vir da política monetária e seus efeitos sobre o setor privado. É necessário encarecer o crédito”, enfatizou Quadros.

De acordo com ele, a inflação no Brasil só não foi maior devido ao cenário de valorização do câmbio que vem ocorrendo desde o ano passado. “A inflação brasileira já vem passando por um amortecimento devido ao câmbio. O câmbio não pára de valorizar. Esse ano ele já valorizou perto de 10%. No ano passado, quase 20%. Nos últimos quatro anos, o câmbio caiu 50%. Isso tem colaborado. Na ausência dessa valorização do câmbio, a inflação aqui teria sido bem maior”.



 


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