A operação
da Mineradora Sama, empresa do grupo Eternit instalada no município de Minaçu (GO), não
pára de segunda a sábado e só é suspensa
por 12 horas aos domingos para manutenção dos
equipamentos. São 50 mil toneladas de rochas movimentadas por
dia para a extração de 910 toneladas de amianto. No
entanto, o cuidado com a saúde, hoje motivo de orgulho da
empresa, contrasta com um passado da mina chamado de
Cana Brava.
Manuel Rodrigues foi aposentado por invalidez pelo
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em 2007, aos 54 anos. Ele faz parte de um grupo de
ex-funcionários que assinaram um acordo com a mineradora para
monitorar possíveis doenças provocadas pelo contato com
o amianto. Tem direito a exames periódicos, feitos
por médicos da própria empresa, que em 2004
identificaram placas nos pulmões. O problema é que os
médicos da Sama não reconhecem a asbestose,
diagnosticada em um exame particular feito em 2005.
“A Sama não
paga nada, só a aposentadoria mesmo. Através desse
laudo que fiz, eles falam que eu tenho direito, mas até
hoje não resolveram nada”, lamenta Manuel.
O médico
da mineradora, Eduardo Andrade, contesta o exame de Manuel. Ele
afirma que desde 1980 não há casos de asbestose em
Minaçu e defende o acordo feito com os ex-funcionários.
“Não há como ter asbestose porque não há
mais poeira. Não há contato [com o amianto]. Não
há nenhum caso de pessoa que começou a trabalhar
depois de 1980 que desenvolveu alguma doença relacionada ao
amianto.”
No mesmo acordo, os ex-funcionários abriram
mão de indenizações e do tratamento médico
se o amianto for banido no Brasil, o que é defendido por
setores do governo e do Congresso.
Seu José Onofre, 74 anos, mal sabe escrever o nome, mas lamenta ter assinado o acordo. “Sou bobo mesmo. Não sei nada. Eu acho que tenho direito à indenização”, avalia.
A partir de 2001, essa
cláusula foi retirada dos acordos firmados entre a mineradora
e os ex-funcionário. O coordenador de Doenças do Trabalho do Ministério da Saúde, Marco Antônio
Perez, critica a fórmula da Sama para apoiar os
ex-funcionários. Ele, inclusive, recomenda que os
ex-trabalhadores contestem na Justiça o acordo formalizado com
a empresa.
Já a Associação Nacional dos
Magistrados do Trabalho (Anamatra) defende o banimento do amianto. O
presidente da Anamatra, Cláudio Montesso, avalia que nenhuma
tecnologia é capaz de assegurar níveis seguros de
poeira no meio ambiente.
“A forma que encontramos foi
questionar a legalidade da lei (que permite o uso controlado do
produto). Não há níveis seguros de utilização
desse produto”, argumenta.
Os estados do Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul e Pernambuco já proibiram o amianto. O último
foi São Paulo, que só conseguiu banir o mineral após
uma decisão inédita do Supremo Tribunal Federal, que
derrubou liminar que contestava uma lei estadual tornando ilegal a
comercialização do produto.
O presidente da Eternit,
Élio Martins, defende o amianto. Segundo ele, o tipo de
mineral extraído no Brasil, conhecido por Crisotila, torna
possível a exploração sem oferecer risco à
saúde. Martins, no entanto, admite que o banimento é
uma tendência mundial, ainda mais com o desenvolvimento de
novas fibras sintéticas que substituem o mineral.
“Não pode proibir sem indicar caminhos à população e às empresas. Na Europa, que não precisava da produção e não tinha demanda, tiveram cinco anos. Aqui, querem fazer isso [proibir o uso] em 24 horas”, protesta.