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Plano Real acabou em 1999 diante da crise cambial. Essa é a avaliação do secretário de Acompanhamento Econômico
do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.
Em entrevista à Agência Brasil, ele considerou as medidas adotadas em 1º de julho de 1994 importantes porque reduziram a inflação a níveis administráveis, mas afirmou que vê como um equívoco comparar a atual política econômica do governo Lula com o Plano Real, que completa 14 anos.
O secretário concordou com o Banco Central no que diz respeito à trajetória da inflação. Segundo ele, os preços devem subir até outubro ou novembro e, depois, começam a ceder. Para Barbosa, o desafio agora está na arte de balancear crescimento com controle da inflação.
Agência Brasil - Secretário, o que mudou com o Plano Real?ABR - Então não é uma
continuação?
Barbosa - Muitas pessoas dizem que é
uma continuação, mas eu não vejo como pode ser
uma continuação. Primeiro, você tem uma política
de câmbio flutuante e no Plano Real você tinha câmbio
fixo. Também não é a mesma coisa da política
de câmbio flutuante pós Real do segundo mandato do
governo Fernando Henrique, porque hoje você tem um câmbio
flutuante com altas reservas internacionais. Câmbio flutuante
com baixa vulnerabilidade externa, enquanto antes era um câmbio
flutuante com alta vulnerabilidade externa, com baixas reservas
internacionais.
ABR - E no campo fiscal?
Barbosa - No campo fiscal, certamente não
é igual ao Plano Real porque acho que ele chegou a ter, em
alguns anos, déficit primário. Uma das grandes falhas
que se aponta do Plano Real - não acho que é a
principal - acho que foi a cambial, mas havia uma política
fiscal relativamente folgada que era inconsistente com as metas do
plano. Isso muda em 99, você começa a ter as metas de
[superávit] primário [a economia que o
governo faz para honrar compromissos financeiros]. Então,
a política atual é diferente da política do real
e também, na minha opinião, diferente das políticas
de superávit primário praticadas até 2003,
porque agora você combina superávit primário com
responsabilidade social, com alto investimento em programas de
transferência de renda e investimento público. Não
é a mesma coisa. Está sendo provado que é
possível fazer ajuste fiscal com crescimento. Não é
só o número do [superávit] primário,
mas como você faz o primário, qual a qualidade desse
primário. Você fez um programa que privilegia
inicialmente as políticas sociais, as transferências de
renda que vêm para combater a pobreza e as desigualdades na
distribuição de renda. Mais recentemente, de 2007 para
cá, vem privilegiando o investimento público para dar
sustentação ao crescimento.
ABR - E no caso monetário?
Barbosa - No Plano Real, você não
tinha a meta de inflação, mas tinha uma meta cambial
que funcionava para reduzir a inflação. A partir de
1999, a âncora vai embora e se institui o sistema de meta de
inflação, que passa ser uma âncora expectacional,
que prova ser mais bem-sucedida por ser bem mais versátil.
Acho que foi um acerto e essa política continua desde então.
ABR - Mas e no período 1999 a 2002,
correspondente ao segundo mandato de FHC, quando se optou pelas metas
de inflação?
Barbosa - Na minha opinião, a nossa
[meta de inflação] não é igual a
essa pois nós tentamos compatibilizar meta de inflação
com aceleração do crescimento. Não só
puramente metas de inflação. Você tem que manter
a inflação sob controle sim, você tem que manter
ela estável, mas também manter o crescimento em um
nível adequado para gerar emprego, para melhorar a situação
social da economia. É isso que a gente vem tentando.
Compatibilizar esses dois objetivos. Por isso que a meta de inflação
tem que levar em conta a expectativa de potencial de crescimento da
economia para aproveitar esse potencial. Nesse sentido, acho que ela
então, que apesar de ser o mesmo instrumental, o mesmo
arcabouço institucional, ela tenta balancear as coisas. É
o mesmo carro que a gente está dirigindo só que não
está dirigindo da mesma forma e essa é a diferença.
ABR – E agora, não volta a
preocupação com a inflação. Existe esse
temor?
Barbosa - Nós temos que tomar
cuidado com o jogo de palavras. Porque neste momento de volatilidade,
de preocupação, de muita incerteza internacional, o
governo tem que transmitir - e ser o agente que transmite -
tranqüilidade e serenidade. Isso não deve ser confundido
com passividade. O governo está atuando. Atuou fortemente para
trazer a inflação para baixo, para reduzir a inflação
de volta ao centro da meta dentro do prazo considerado adequando para
manter o crescimento da economia. O Banco Central atuou, o Ministério
da Fazenda atuou dentro da política fiscal, então o
governo está atento e está monitorando isso
diariamente, tomando medidas. Mas também o governo não
quer alimentar boatos e medos infundados, porque a gente tem um
sistema institucional forte, capaz de trazer a inflação
para baixo a médio prazo, e isso já está em
movimento. Nesse sentido, nós já estamos monitorando a
situação sem grandes sobressaltos, mas sem nenhuma
passividade. Pelo contrário.
ABR - Nesse momento existem novas medidas
sendo elaboradas?
Barbosa - Algumas medidas já foram
tomadas. A gente não anuncia medidas hipotéticas ou
futuras. O que a gente teve foi aumento de taxas de juros, aumento do
superávit primário, gasto público – o chamado
impulso fiscal – já é negativo, o que significa que a
política fiscal do governo federal está contribuindo
para o controle da demanda agregada e essas coisas levam tempo para
aparecer. Esta semana o governo vai lançar o Plano Safra. Que
não tem o impacto imediato sobre os preços neste ano,
mas ao viabilizar o aumento da safra no final deste ano e do ano que
vem vai contribuir para o controle do preço dos alimentos e
também para reduzir a inflação a médio
prazo.
ABR - E quanto à curva de inflação?
Até onde ela pode ir?
Barbosa - Como está apresentada pelo
boletim do Banco Central, por questão de inércia, de
efeito estatístico, esta inflação acumulada em
12 meses, como é uma média móvel, deve continuar
subindo até outubro, talvez até novembro, e aí
ela começa a cair. Até onde ela vai, é questão
de modelo. Segundo expectativa do BC, fecha um pouco acima de 6% e
depois cai ligeiramente e continua caindo até chegar perto de
4,5% no final de 2009 e [fica em] 4,5% em 2010.
ABR - Esse é o desafio?
Barbosa - O desafio da política
econômica agora é sempre administrar o que a gente chama
de trade-off [as trocas]. Ou seja, você tem agora
uma questão que é baixar rapidamente a inflação
sem desacelerar muito a economia. Se você quiser só
baixar a inflação rapidamente, você consegue
desacelerando bastante a economia. Se você quiser não
desacelerar a economia você consegue mantendo a inflação
alta. A arte está em balancear, não escolher um dos
extremos. A mesma coisa é no câmbio. Como é que
você mantém o câmbio flutuante, mas sem aumentar
muito a vulnerabilidade externa. É muito fácil manter o
câmbio completamente flutuante e deixar a vulnerabilidade
externa residual ou manter uma baixa vulnerabilidade externa
controlando o câmbio como alguns países fazem. A mesma
coisa na política fiscal. Você vai cortar gasto, pode
cortar sem nenhuma responsabilidade social. Mas também se a
gente vai manter a responsabilidade social gastando demais sem nenhum
preocupação com equilíbrio fiscal é outro
extremo. A gente está nessa fase de administrar a política
econômica dentro desses extremos. Eu vejo no debate que as
posições são polarizadas. Algumas pessoas querem
que a gente vá para alguns extremos, desconsiderando
completamente os outros efeitos. Isso obviamente não é
a política que a gente vem praticando nem acho que essa é
a melhor política, pois isso introduz mais volatilidade na
economia.