Valter Campanato/ABr
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Brasília - Educador, ex-presidente da Anistia Internacional - Seção Brasileira e consultor de polícias no Brasil, Ricardo Balestreri assume a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do Ministério da Justiça
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Brasília - Um educador, ex-presidente da Anistia Internacional - Seção
Brasileira e com 20 anos de trabalho como consultor de polícias
no Brasil, assume hoje (4), após três meses de
interinidade, a Secretaria Nacional de Segurança Pública
(Senasp) do Ministério da Justiça com a obsessão
de ampliar a convergência entre a atuação
repressiva policial e o respeito aos direitos humanos.
“Precisamos
superar uma visão antagonista que concebe direitos humanos e
polícia como inimigos. Num país democrático, os
policiais devem ser protagonistas do processo civilizatório. E
se o preço de deter um bandido é tirar a vida de um
inocente, ele nunca deve ser pago”, defende o gaúcho
Ricardo Balestreri, 49 anos, em entrevista exclusiva à Agência
Brasil.
Os planos do secretário são ambiciosos em relação
aos resultados das ações implantadas pelo governo
federal, sobretudo o Programa Nacional de Segurança Pública
com Cidadania (Pronasci). A promessa é de que em 12 meses a
população brasileira comece a sentir melhorias
práticas no seu dia-a-dia: “Já estamos construindo
uma realidade objetiva para que, sem nenhum exagero, daqui a um ano a
gente já possa perceber objetivamente a diferença nos
índices de violência e criminalidade em todos aqueles
lugares onde a malha de polícia comunitária estiver
presente.”
Na entrevista, Balestreri diz que milícias operam sob a mesma
lógica do crime organizado e admite a necessidade de
fortalecer a formação moral dos policiais. O secretário
ainda ressalta que o auxílio das Forças Armadas à
segurança pública é bem-vindo em áreas de
fronteira, mas não no meio urbano: “O Exército não
deve abrir mão de sua vocação típica. Senão teríamos que mandar a polícia fazer defesa
nacional e aí não se saberia mais quem faz o quê.
Então, é preciso que a gente tenha um ordenamento
funcional mais claro.”
ABr: O
direito à segurança é hoje aquele do qual o
cidadão brasileiro se sente mais carente?
Ricardo Balestreri:
As pesquisas vêm demonstrando
que a segurança pública às vezes está
acima da educação e da saúde nas demandas
populares. Existe uma sabedoria intuitiva da população,
que percebe que sem segurança sequer pode ter saúde e
educação de qualidade. Numa região
dominada pelo crime, os agentes de saúde nem sempre entram, o
professor faz censura de conteúdos e outras lideranças
são intimidadas. Também não tem ambiência
para um sujeito montar um comércio, porque precisa pagar
pedágio ao bandido. A
atividade criminosa sufoca o processo de desenvolvimento.
ABr: O governo
já entendeu este recado da população de que quer
prioridade para a segurança?
Balestreri: A
chegada do ministro Tarso Genro trouxe um novo paradigma. Só
na Senasp [Secretaria Nacional de Segurança Pública]
elevamos nosso patamar de recursos de uma média de R$ 280
milhões por ano para R$ 1 bilhão por ano, por meio do
Pronasci e do Fundo Nacional de Segurança Pública.
Precisamos agora de uma adequação de recursos humanos
para poder dar conta dessa maior disponibilidade de recursos e fazer
bom uso dela. O Pronasci é uma das provas de que o governo
assimilou as demandas ao propor casar políticas sociais com
políticas de segurança. Uma obviedade, mas ninguém
antes teve coragem de fazer.
ABr: O senhor
tem um histórico de militância em defesa dos direitos
humanos. Diante disso, que marcas pretende imprimir na política
nacional de segurança pública?
Balestreri: Eu
realmente venho de uma dupla militância, pelos direitos humanos
e pelo sistema de segurança pública, com 20 anos de
dedicação às polícias de 27 unidades
federadas. Pelos meus cálculos, conheci diretamente mais de 80
mil policiais. O destino então me deu uma oportunidade
importante. Precisamos superar um
visão antagonista que concebe direitos humanos e polícia
como inimigos. Num país democrático, os policiais
devem ser protagonistas do processo civilizatório. Essa
prática já começou aqui com a Força
Nacional de Segurança que tem sido aplaudida pela sociedade.
Temos que cuidar que a Força faça esse trabalho de
energia, redução da violência, sem apelar para os
mesmos métodos que os criminosos utilizam. O modus operandi
dos bandidos tem que ser antagônico ao modus operandi da
polícia, mesmo quando a polícia está no combate
ao bandido. Estamos providenciando a compra de microcâmeras
para que, em qualquer ação incisiva da Força
Nacional, um soldado grave integralmente e a gente assista, sem
edição, toda a intervenção, para
verificar se ela se deu à luz da ética e da moralidade.
ABr: Que efeito
a presença de homens fortemente armados em áreas
urbanas tem sobre a violência? Em que medida este tipo de ação
resolve de fato os problemas?
Balestreri: Nós
não podemos ter uma visão meramente reativa de polícia.
A reação é necessária quando a prevenção
não funcionou corretamente. Temos clareza com o Pronasci
[Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania]
de que o modelo que mais
reduz a criminalidade ordinária, assaltos, roubos, seqüestros
é o padrão de policiamento por proximidade, ou polícia
comunitária, uma polícia que caminha, que conversa, que
sabe quem somos e onde moramos, com efetivo otimizado pela
participação da comunidade. Esta polícia
é fortemente redutora dos índices de crime e violência.
As experiências esparsas que tivemos no Brasil nesse modelo
mostram isso e vamos investir. Só aceitamos projetos que
venham encabeçados por polícias comunitárias.
ABr: O Pronasci
é a principal bandeira da política de segurança
do governo federal, mas o próprio ministro Tarso Genro diz que
o programa foi pensado para ter efeitos a médio e longo
prazos. A criminalidade segue aterrorizando diariamente os
brasileiros. Que tipo de resposta imediata o governo pode dar ao
cidadão dos grandes centros urbanos em situação
de risco?
Balestreri: O
médio prazo já começou. O ministro Tarso tem
prudência. Se ele não dissesse isso, a expectativa das
pessoas seria de que depois de amanhã já tivéssemos
índices de violência e criminalidade totalmente
diferentes. Seria demagógico. Mas quando avaliamos as ações
da Força Nacional de Segurança, tem redução
nos índices de 30% a 53% nos locais de atuação.
Já estamos
construindo uma realidade objetiva para que, sem nenhum exagero,
daqui a um ano a gente já possa perceber objetivamente a
diferença nos índices de violência e
criminalidade em todos aqueles lugares onde a malha de polícia
comunitária estiver presente. É um processo de
mudança de cultura, mas às vezes é mais rápido
do que a gente pensa. E esse rápido pode ser um ano, dois
anos, dois anos e meio. Quando selecionamos a compra de armas
não-letais, estamos contribuindo para que se evite mortes nas
ações policiais. Financiar a compra de armas de guerra
não é bom do ponto de vista técnico. Se
temos recomendação técnica para usar uma
carabina que não ultrapassa paredes, mas mantém o poder
de parada, por que vamos priorizar a compra de fuzis que nas favelas
atravessam barracos e vão matando inocentes? Isso não
era feito no passado por falta de discernimento político. O
dinheiro público da União tem que ser usado de maneira
científica para que os índices de violência e
criminalidade caiam.
ABr: O que pode
ser feito para blindar o Pronasci contra o desvio de recursos, o que
já tem ocorrido em algumas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Balestreri:
Primeiro, nos autopoliciamos na execução direta e
depois somos policiados pela CGU [Controladoria Geral da União]
e pelo TCU [Tribunal de Contas da União]. Não vejo
possibilidade de que erros morais sejam cometidos, apenas erros
administrativos que serão corrigidos à medida que
forem detectados. Já informei, por exemplo, a todos os
secretários de Segurança do Brasil que não
financiamos mais viaturas descaracterizadas. Não queremos
fazer um tipo de compra que depois é extremamente difícil
fazer a fiscalização. Esse sistema de compra de
viaturas é historicamente milionário no Brasil e se
presta virtualmente à corrupção.
ABr: O Rio de
Janeiro é emblemático nos problemas de segurança
pelos quais passam o Brasil. Há especialistas que dizem haver
ali uma guerra civil. O senhor concorda?
Balestreri: Sou
totalmente contrário a se falar em guerra. A ideologia da
guerra cria uma grande confusão no plano moral, porque na
guerra vale tudo ou quase tudo. Não podemos nos transformar em
parecidos com aqueles que combatemos. Existem índices piores
do que guerra, com mais de 40 mil homicídios por ano no
Brasil. Mas admitir uma guerra é permitir o uso indevido e
imoral de violência descontrolada. Temos que ser muito firmes
na reação à atividade criminosa, sem fazer
corrida armamentista contra bandidos. Se começarmos a comprar
armas de guerra para combater bandido em favela vamos matar
inocentes. E se o preço de
deter um bandido é tirar a vida de um inocente, ele nunca deve
ser pago. Não podemos admitir isso. Não proponho uma
polícia frouxa. Defendo firmeza e uso da força sem
cometimento de excessos e danos para a população
trabalhadora. Os pobres nesse país são heroicamente
honestos e têm que ser protegidos e defendidos pela segurança
pública.
ABr: Os fatos
recentes no Rio de Janeiro mostram que o Exército não
deve ser acionado para solucionar problemas de segurança
pública?
Balestreri:
Segurança pública é
responsabilidade de todos, também das Forças Armadas.
Mas o lugar delas não é o meio urbano. Elas têm
um papel nas fronteiras brasileiras onde o efetivo policial não
consegue dar cobertura, em áreas ameaçadas pela
incursão do crime organizado no passe de drogas e armas. O
papel das Forças Armadas não é substituir
polícia em meio urbano. O Exército não deve
abrir mão de sua vocação típica. Senão
teríamos que mandar a polícia fazer defesa nacional e
aí não se saberia mais quem faz o quê. Então,
é preciso que a gente tenha um ordenamento funcional mais
claro.
ABr: O que o
governo pretende fazer para combater adequadamente um quadro de crime
organizado, milícias e tribunais de exceção em
áreas de risco?
Balestreri: Quando
falamos em crime organizado, falamos em repressão qualificada.
É a indústria mais lucrativa do planeta, responsável
por algo em torno de 10% do dinheiro que circula no mundo. O crime organizado deve
ser combatido usando a inteligência, e a nossa Polícia
Federal é um exemplo magnífico. O crime organizado não
mora em favela, mora em mansão e faz negócios de alto
nível. Mas existem organizações delinqüenciais,
que são grupos de base ligados ao crime organizado, como o PCC
[Primeiro Comando da Capital] e o Comando Vermelho. Tecnicamente,
as milícias são grupos deliqüenciais e fazem
trabalho de crime organizado, à medida que cobram “impostos”
ilícitos, comercializam atividade de TV a cabo sem licença.
Não há diferença entre milícia e
narcotraficante do ponto de vista da moralidade. Nós
temos dados que nos levam a crer que as milícias cada vez
evoluem mais rapidamente, inclusive em substituição ao
narcotráfico. O caminho para combater é a inteligência
e um zelo absoluto para eliminar dos quadros os maus policiais.
ABr: O que leva
o Brasil a ter ainda tantos casos em que agentes do Estado aparecem
atrelados a organizações criminosas?
Balestreri: A
primeira questão é a deficiente formação
moral dos policiais. Ganhar mal favorece o fenômeno, mas ganhar
bem não resolve problema de ordem moral. Isso vem de casa, se
agrava na corporação que muitas vezes dá uma
formação meramente tecnicista. E aí temos que
repensar a formação nas academias de polícia e,
por isso, a Senasp tem parcerias com 66 instituições de
ensino superior onde se ensina conteúdo humanístico. Há
um grupo imenso de policiais moralmente corretos. Temos que ter zelo
para não permitir que os maus policias entrem e também
que não permaneçam. Advogo um acompanhamento
psicológico permanente para detecção dos
caracteres psicopáticos, de pessoas que não sentem
complexo de culpa e usam as instituições para sua
locupletação ou cometimento de truculência
desmedida. Toda função de poder atrai caracteres
psicopáticos.
ABr: O
número atual de agentes da Força Nacional de Segurança
é suficiente para as demandas do país?
Balestreri:
Aumentamos em 50% o
efetivo, mas ele ainda é insuficiente. Os estados devem
compreender que precisam, além de solicitar a colaboração
da Força, também colaborar com ela.
ABr: Tem havido
resistência por parte de estados em ceder agentes?
Balestreri: Houve
um período de críticas fortes de vários
comandantes em relação ao tipo de estrutura da Força
Nacional. Foi constituído um grupo de trabalho para fazer a
reforma da Força e hoje ela é semelhante ao que deseja
o colégio de comandantes. Temos 1.087 homens operando e outros
8 mil em condição de operar, já passados pelo
processo de instrução e nivelamento. Estamos criando
como novidade o Batalhão de Pronto Emprego (Bepe), que vai ser
integrado por 550 homens e mulheres e, diante de uma ocorrência
muito grave, poderá intervir de maneira imediata. A Polícia
Militar de Goiás nos cedeu um quartel inteiro em Luziânia
para treinar os policiais de elite com todo equipamento top de linha
no planeta. Ao final de um ano, devolveremos os agentes ao estado e
estaremos disseminando doutrina correta e equipamento de ponta pelo
Brasil inteiro.