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Bogotá (Colômbia) - Se o governo colombiano pagou um resgate milionário e armou
uma grande farsa para viabilizar a tão esperada libertação de Ingrid
Betancourt, como alguns acusam, só o tempo dirá. Por ora, a
informação disponível e palpável é que os militares apresentaram uma encenação
digna dos melhores palcos e enganaram a cúpula das Forças Armadas
Revolucionarias da Colômbia (Farc). Eles forjaram uma missão humanitária que deveria
apenas discutir a libertação, mas acabou levando embora Ingrid e mais 14
reféns.
O governo de Álvaro Uribe divulgou ontem (4) um vídeo
da Operação Jaque, com cenas que mostram reféns revoltados dando entrevista,
sendo algemados e, posteriormente, dentro do helicóptero de resgate, em
estado de êxtase ao saber que estavam livres. Tudo parecendo cenas reais, mas editado. O vídeo tem menos de quatro minutos de
duração.
Na entrevista coletiva que concederam depois da apresentação do vídeo, o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, e os
dois principais comandantes das Forcas Armadas forneceram uma série de detalhes sobre as imagens mostradas.
Disseram, por exemplo, que agentes de inteligência do
Exercito foram treinados durante três semanas por um professor de teatro para
convencer as Farc de que integravam a missão humanitária. O
líder do grupo seria um italiano, que, de tão bem treinado, teria convencido um
guerrilheiro a lhe entregar a arma, uma pistola nove milímetros. Haveria um com
aparência de árabe e um australiano que, segundo o ministro, "é a cara" de Paul
Hogan, o protagonista do filme Crocodilo Dundee, além de uma falsa equipe de
TV.
Depois do treinamento cênico, chegou a hora da verdade, e
ninguém refugou, conta o ministro. “Quando o presidente assumiu a
responsabilidade política, entramos em fase de maior segredo, informando apenas
pouco a pouco aos infiltrados o que iriam fazer. Quando dissemos a eles que
poderiam ser seqüestrados ou mortos, a afirmação de todos foi enfática: sim,
queremos fazer”.
O resgate ocorreu depois que os 15 reféns foram levados para
uma localidade no sul da Colômbia, onde deveriam se encontrar com Alfonso Cano,
o líder das Farc, e iniciar um processo de negociação, segundo o ministro.
“Então, era uma missão internacional ‘supostamente’ ajudando o intercâmbio
humanitário”, explicou, fazendo sinal de aspas com as mãos na hora de dizer a
palavra supostamente, com uma expressão de vitória.
“Então vocês enganaram Alfonso Cano?", perguntou um jornalista e o ministro não respondeu. O repórter insistiu e Juan Manuel Santos chamou outro jornalista para a próxima pergunta.
Como as Farc raramente se manifestam, o que se tem é a versão
do governo e algumas opiniões dissonantes publicadas nos meios de comunicação. Uma delas
é da Agência de Noticias Nova Colômbia (Anncol), que divulga informações
da guerrilha. O veículo classifica o resgate de “surrealista” e considera estranho o fato de uma organização que atua há 44 anos mostrar tanta
desarticulação a ponto de cair no "conto da ajuda humanitária", o que acabou levando
embora seu principal troféu, a jóia colombiano-francesa, como Ingrid era chamada
no cativeiro.
Ingrid esta na França, onde foi muito festejada ao chegar ontem (4). Em Bogotá, colombianos demonstram satisfação pela libertação da ex-senadora e dizem que o
enfraquecimento das Farc é o grande trunfo do presidente Álvaro Uribe, que ousou mexer no vespeiro que seus antecessores evitaram.
A repercussão vai além. A imprensa divulgou melhorias
econômicas que teriam resultado do “efeito Ingrid”, como uma possível animação
de investidores estrangeiros, que já estariam vendo a Colômbia como um país mais seguro para
injetar recursos, e a valorização do peso frente ao dólar, que se verifica nos últimos dias. A reportagem da Agêencia Brasil presenciou, inclusive, pessoas reclamando da cotação da moeda norte-americana nas casas de câmbio do
aeroporto de Bogotá.
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