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10 de Julho de 2008 - 09h35 - Última modificação em 10 de Julho de 2008 - 09h35


Reféns criam couraça para se defender dos seqüestradores, diz psicóloga colombiana

Julio Cruz Neto
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Antonio Cruz/ABr
Bogotá (Colômbia) - A diretora executiva da Fundação País Livre, Olga Lucia Gomes, em entrevista à Agência Brasil Bogotá (Colômbia) - A diretora executiva da Fundação País Livre, Olga Lucia Gomes, em entrevista à Agência Brasil
Bogotá (Colômbia) - O conhecimento psicológico e a vivência de uma colombiana acostumada a lidar com pessoas seqüestradas dão uma pista da razão pela qual Ingrid Betancourt deixou o cativeiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) aparentando tranqüilidade, saúde e proferindo um discurso bem articulado.

Olga Lúcia Gómez, psicóloga e diretora executiva da Fundação País Livre, afirma que os reféns têm muito tempo para refletir, para conectar-se com a espiritualidade, então as pessoas se modificam. Muitos recém-chegados do cativeiro, segundo ela, têm uma força espiritual muito grande porque é “uma forma de sobrevivência”.

Olga não está se referindo a Ingrid e faz questão de frisar que cada caso é um caso e só é possível tirar conclusões examinando a pessoa. Também é bom lembrar, especialmente no que se refere às suas declarações, que Ingrid é uma política profissional – foi senadora e era candidata à Presidência quando foi raptada. Mas seqüestros longos costumam aumentar o auto-controle, segundo ela.

“Tempos tão prolongados, como foi o caso da Ingrid, dão, entre aspas, tempo para, entre aspas, uma adaptação ao meio ambiente. Essa adaptação é parte do que é sobreviver. E essa sobrevivência leva o cativo a ter certo controle sobre o entorno”, avalia a psicóloga.

Ela explica que os reféns criam uma couraça para se defender, para que a humilhação e a perda de dignidade não sejam tão fortes. “Os seqüestradores buscam eliminar a identidade da pessoa, transformá-la em mercadoria. São estratégias psicológicas muito fortes. Quando os cativos saem, demoram um tempo para tirar essas armaduras porque têm que avaliar com quem se encontram, onde se encontram, como mudou o país. Em seis anos, Bogotá é outra. O ruído da cidade afeta, o celular...”

Por outro lado, diz ela, reféns que ficam pouco tempo em cativeiro podem sofrer um impacto maior, sair mais abalados. “O tempo não é uma variável definitiva. Conheci seqüestros curtos que são altamente traumáticos, em que as horas, pela violência que se exerce contra a pessoa, são tão fortes que traumatizam”.

Seja curto ou longo, o seqüestro geralmente causa um impacto emocional forte, porque põe à prova “todas as defesas psíquicas”. A psicóloga preserva a identidade de seus clientes, mas conta a história de um ex-prefeito que perdeu o filho e a mãe enquanto estava no cativeiro, ambos vítimas de câncer. Uma das irmãs também contraiu a doença. Segundo ela, é comum a associação entre depressão e câncer. Quanto ao ex-prefeito, abandonou a política e “saiu do país para reconstruir a vida, virou vendedor de aspirador de pó nos Estados Unidos”.

Olga acha correta a estimativa de que haja mais de 2 mil reféns ao todo na Colômbia, nas mãos das Farc, do Exército de Libertação Nacional (ELN) e dos paramilitares. Segundo ela, as três organizações aparecem nesta ordem decrescente em termos de poder.

A psicóloga afirma que 95% dos seqüestros ocorrem por razões econômicas (para pedir resgate) e só os demais por questões políticas (obter moeda de troca para recuperar guerrilheiros presos).

A Fundação País Livre presta atendimento a famílias de reféns – cerca de 300 por ano – durante e após o cativeiro, além dos próprios cativos, quando saem com vida. Foi presidida por Francisco Santos Calderón, atual vice-presidente da República.


 


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