Elza Fiúza/ABr
|
Brasília - João Luciano (nome fictício) foi a primeira criança da capital federal a ser adotada por um casal homossexual. O nome das duas mulheres aparece na certidão de nascimento do filho adotivo. Estatudo da Criança e do Adolescente contribuiu para a adoção
|
Brasília - Na
certidão de nascimento de Janaína Coelho, 19 anos,
constam os nomes de duas mães: Ana Maria Coelho, mãe
biológica, e Jussara Duarte, 38 anos, mãe adotiva. As
duas estão juntas há 13 anos.
“Pra
mim é bom. É diferente de ter um pai, mas são
minhas duas mães, estou acostumada com isso desde sempre. O
pessoal tem aceitado um pouco mais. Tem uns que acham estranho, mas
ninguém desrespeita mais”, diz a jovem.
Para
Janaína, a dificuldade da sociedade em aceitar os novos
“modelos” de constituição de família deve
passar com o tempo e, segundo ela, quanto mais casos de adoção
por casais homossexuais forem aprovados, maior será a
aceitação.
“Há
uma certa resistência porque é diferente e as pessoas
têm medo do que é novo. Qualquer casal homossexual tem
os mesmo direitos e as mesmas condições [de promover
o bem-estar de uma criança ou adolescente]. O que importa
é o amor de mãe ou de pai. Não é questão
financeira ou muito muito menos sexual. É uma coisa deles e
isso não influi em nada na educação da gente.”
João Luciano (nome fictício), 6 anos, é irmão adotivo de Janaína. Ele
foi adotado por Ana Maria em 2002 e, em seguida, por meio da adoção
por extensão, foi adotado também por Jussara, em maio
deste ano. A criança afirma ser feliz em casa e na escola e,
quando questionado sobre o que há de diferente em ter “duas
mamães”, ele lembra apenas dos momentos de descontração.
“Eu posso brincar com todo mundo, fazer um montão de coisas
com a minha família.”
Ana
Maria Coelho, 44 anos, diz que o preconceito em relação
à adoção de crianças e adolescentes por
casais homossexuais ainda existe, mas “tem melhorado”. A
funcionária pública lembra que, atualmente, existem
vários tipos do que chama de “famílias alternativas”
– compostas, não apenas por pais homossexuais, mas também
por mãe, avó e netos ou mãe, empregada, tio e
filhos.
Jussara Duarte, 38 anos, é corretora e garante ter acompanhado
de perto a criação dos meninos – mesmo que a adoção
oficial dos dois tenha saído algum tempo depois. Ela conheceu Janaína quando a menina tinha apenas 6 anos, e João Luciano, aos seis
dias de vida.
“Encontramos
um promotor bem favorável. Não foi difícil. Eu
já convivia com o João Luciano desde que ele nasceu. Não
tinha porque negar o que já existia de fato. A opção
sexual da pessoa não influencia no trabalho, no amor de criar
os filhos, na vida ou no cotidiano”
Para
a professora da Universidade Católica de Brasília,
doutora em psicologia e especialista em sexualidade, Claudiene
Santos, muitas vezes pessoas responsáveis pelo
processo de adoção – membros da equipe social ou
mesmo o próprio juiz – podem apresentar preconceito contra a
homossexualidade em si e acabam por não permitir o trâmite.
Ela
reforça que o Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) prevê apenas a garantia do bem-estar dos menores e que,
mesmo a Constituição brasileira e a legislação
que diz respeito à adoção não trazem
impedimentos explícitos com relação à
adoção por casais homossexuais.
“A lei
é clara: qualquer cidadão. Ela não especifica
'qualquer cidadão heterossexual' ou 'estão excluídos
os cidadãos homossexuais'. O ECA procura o bem-estar da
criança. Muitas vezes se associa a homossexualidade com a
promiscuidade, é um medo bastante comum.”