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Brasília - O acesso do senador
Heráclito Fortes (DEM-PI) ao inquérito da Operação
Satiagraha, da Polícia Federal, na opinião do jurista
Dalmo Dallari, pode representar mais uma tentativa de levar o
processo para o Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, o jurista
alerta que o fato de o senador ser citado não faz com que o
processo seja encaminhado para a Corte Suprema.
“Eu acredito que seja
uma manobra, uma tentativa de tirar a competência do juiz de
primeira instância. Ainda mais depois deles [os acusados]
saberem que contam com a proteção do presidente do
Supremo, o ministro Gilmar Mendes. Levar o processo para o STF, então,
vai ser um presente. É manobra, mas não tem nenhuma
base legal porque a competência continua sendo do juiz de
primeira instância, mesmo que o senador seja ouvido no processo.
Trata-se de uma manobra que não tem fundamento legal e,
portanto, pouca possibilidade de êxito”, disse Dallari hoje (18), em entrevista à Agência Brasil.
Ontem, o presidente do
Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, estendeu ao
senador liminar concedida anteriormente à defesa do banqueiro
Daniel Dantas, dono do Banco Opportunity, permitindo o acesso do
senador aos autos do processo que se encontra em sigilo.
Mendes ressaltou, na
decisão, que o nome do senador apareceu em reportagens como
citado no inquérito. No pedido, Heráclito alegou que o
vazamento de dados sigilosos do inquérito tiveram o “único
e claro escopo de prejudicar a imagem” de outras pessoas não
envolvidas.
A Operação
Satiagraha investiga crimes financeiros que teriam sido cometidos por
uma organização liderada pelo banqueiro Daniel Dantas.
Deflagrada na semana passada, o banqueiro chegou a ser preso duas
vezes. Dantas acabou sendo beneficiado por duas decisões de
relaxamento de prisão concedidos pelo presidente do STF.
De acordo com Dallari,
ao conceder os habeas corpus, Gilmar Mendes teria descumprido a lei.
“O erro de Mendes ocorreu ao assumir uma competência que,
legalmente, ele não tem. Depois da decisão do juiz de
primeira instância, de decretar a prisão de Dantas, o
processo teria que ter passado pelo Tribunal Regional Federal (TRF)
e, depois, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), para,
depois, chegar ao Supremo. O ministro Gilmar Mendes, na verdade,
queimou duas instâncias. Ele deveria simplesmente ter dito que
o assunto não era da competência dele e não
despachar coisa alguma, nem a favor e nem contra”, considerou o
jurista.
Para ele, Mendes
teria agido na contramão do processo de popularização
da Justiça que vem tomando corpo no Brasil. “A
Justiça vem se aproximando cada vez mais da população.
É possível observar que há um trabalho de
descentralização, criação de juizados
especiais. Tudo isso trazendo o Judiciário para mais perto do
povo. No entanto, esse episódio envolvendo o Daniel Dantas
demonstrou que, no Judiciário, existe um juiz, altamente
situado, que não aplica a lei, que não respeita a lei.
Ele [Mendes] cometeu um erro jurídico. Trata-se de uma
responsabilidade individual. Ele está na contramão do
que a lei manda, do que a Constituição estabelece. Ele
agiu ilegalmente”, opinou.
Dallari considerou que
Mendes demonstrou desequilíbrio emocional ao anunciar que
denunciaria o juiz federal Fausto De Sanctis, que decretou a prisão de Dantas, ao Conselho Nacional de
Justiça. “É muito difícil ter uma conclusão
segura sobre o que levou o ministro Gilmar Mendes a tomar a decisão
de mandar soltar Daniel Dantas, mas o que, sem dúvida nenhuma
,aconteceu, foi desequilíbrio emocional. A atitude dele contra
o juiz mostra que, por alguma razão, ele estava indignado,
sentindo-se ofendido. Ele agiu sem serenidade. Na verdade, ele agiu
como advogado. Como advogado de defesa".
Desde a semana passada, a atitude de Mendes
tem provocado a reação de procuradores, juízes e sindicalistas, que chegaram a ensaiar um pedido de impeachment do
presidente do STF. Dallari destacou que a reação era
esperada, na medida que os juizes de primeira instância se
sentiram ameaçados pela atitude de Mendes.
“Acho que a
atitude de se pedir o impeachment é absolutamente
compreensível. Gilmar Mendes tomou uma atitude contra os
juizes dos tribunais. Na verdade, ele tirou a competência deles.
Além disso, quando ele disse que iria fazer uma representação contra o juiz De Santis ao CNJ, todos se sentiram ameaçados.
Entenderam que quem decidir alguma coisa contra a vontade de Gilmar
Mendes corre o risco de ser denunciado ao CNJ", explicou.
No entanto, Dallari
ressaltou que a proposta tem pouca chance de prosperar. O primeiro
obstáculo apontado pelo jurista é o Senado Federal.
“Não acredito que o pedido terá conseqüências
práticas porque terá que passar pelo Senado que é,
na sua ampla maioria, efetivamente ligado ao mundo dos negócios”,
ressalvou Dallari.
Para o jurista, a
punição para Mendes deveria ocorrer no mesmo CNJ, do qual o ministro é
também presidente. "Rigorosamente, o CNJ deveria fazer pelo
menos uma advertência ao ministro Gilmar Mendes. O paradoxo é
que ele é o presidente do CNJ. Então, eu acho pouco
provável que ele advirta a si mesmo. O CNJ é o órgão
nacional de controle e disciplina do Poder Judiciário. No
entanto, na hora em que a questão é contra o presidente
do STF, seu funcionamento fica prejudicado. Nesse caso, o CNJ
encontra-se cerceado, constrangido”, analisou.
A assessoria do senador Heráclito Fortes foi procurada pela reportagem da Agência Brasil, mas, no entanto, ninguém foi encontrado em seu gabinete.
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