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Brasília - A crise mundial de
alimentos deve se acentuar no prazo de três anos. No entanto, o
Brasil pode se beneficiar desse fato por ser o único país
do mundo com todas as condições (espaço,
tecnologia, água, clima e estrutura de produção
de agronegócio) para aumentar a produção,
segundo estudo feito pela Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A
afirmação foi feita pelo ministro da Agricultura,
Reinhold Stephanes, em entrevista à Agência Brasil.
O ministro disse que o
Brasil chegará ao fim da crise em posição de
destaque no cenário mundial, mas precisa resolver,
internamente, questões de legislação ambiental.
Stephanes é a favor de que haja flexibilização
em relação às áreas que já foram
degradadas. "Eu sou tão ambientalista que acho que não
devemos derrubar uma árvore para aumentar a nossa produção,
mas eu também acho que devemos utilizar o que já está
aí."
Entretanto, ele estima que se as leis que
condicionam o plantio continuarem avançando nos mesmos
patamares de hoje, restarão poucas áreas para cultivo:
“teremos congelado de 80% a 85% do território”.
O aumento da
produtividade é o primeiro fator para alcançar um
aumento significativo na produção de alimentos, segundo
o ministro. Por isso, a preocupação do governo em
investir em pesquisas, com a liberação de R$ 1 bilhão
para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
e de uma linha de crédito de mais R$ 1 bilhão para
agropecuaristas interessados em recuperar áreas degradadas.
Agência
Brasil: Alguns especialistas dizem que a crise mundial de
alimentos vai durar de cinco a dez anos. Outros chegam a falar em 20
anos. Como o Brasil pode se sobressair nesse cenário de
crise? Reinhold Stephanes: O que acabou criando todo esse
cenário foi o crescimento da economia mundial. Não se
conhece na história um período em que a economia
mundial tenha crescido de forma global, a taxas tão elevadas,
por tempo tão longo. Isso, evidentemente, aumentou renda e
aumentou demandas por matérias-primas, por energia e por
alimentos. Há um desequilíbrio entre a demanda e a
oferta e os preços aumentaram bem. De qualquer forma, que isso
dure cinco anos, que isso dure dez anos - na minha visão, daqui
dois ou três [anos] esse fenômeno vai se acentuar - é
claro que isto é uma oportunidade boa para o Brasil. Existe um
estudo da FAO [Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação] feito em
todos os países que têm condições de aumentar a
produção, que verifica cinco condições
importantes - espaço, tecnologia, água, clima e
estrutura de produção de agronegócio -, e o
único país que satisfaz as cinco condições
é o Brasil.
ABr: O Brasil
está preparado para assumir a frente desse processo de aumento
de produção? Stephanes: São raros os
países que conseguem crescer em média 5% ao ano em
agricultura, em períodos longos, como o Brasil vem fazendo nos
últimos 20 anos. Dentro desse padrão de crescimento ele
mantém também um ganho de produtividade extremamente
elevado. Dos 5% de crescimento, 3,5% são ganhos de
produtividade. Por outro lado, ele vem se firmando, cada vez mais,
como país exportador de produtos agrícolas, porque há
muito tempo é o país que mais cresce em excedentes de
exportação. Há uma situação fora e uma
situação aqui perfeita, com três dificuldades que
nós temos ainda: de infra-estrutura interna – o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] prevê
já algumas obras para isso –, uma dificuldade cambial, e uma
dificuldade da nossa dependência e vulnerabilidade de adubos,
que são três questões que nós temos que
tratar. Eu diria até que há uma quarta, que é a
questão do meio ambiente.
ABr: Como
encontrar um equilíbrio entre produção agrícola
e preservação do meio ambiente? Stephanes:
Não quero criar um impacto maior, mas é aquela
brincadeira. Daqui a pouco nós vamos extinguir a nossa
produção agrícola, porque se nós formos
vendo os avanços que houve nas leis que vão
condicionando o plantio, chega-se ao ponto tal que hoje nós
temos 70% do território brasileiro congelado com áreas
de preservação ambiental. E se continuar a mesma curva
que vem vindo por mais 10 anos, daqui a pouco teremos congelados de
80% a 85% do território. Eu
sou tão ambientalista que acho que não devemos derrubar
uma árvore para aumentar a nossa produção, mas
eu também acho que devemos utilizar o que já está
aí. Quer dizer, por um lado não derruba mais
nada e, por outro lado, se flexibiliza o que já está
antropizado, o que já está derrubado. Eu não vou
chegar em Minas Gerais e dizer: olha gente, vocês estão
plantando há 100 anos nas encostas, parem de plantar. Eu não
vou chegar para um produtor em Minas, ou no Paraná, que
utilizou 100% da área e dizer olha, agora você vai ter
que reflorestar. O dado concreto é que quando se analisa o que
há de restrição e o que há de plantio,
significa que já tem gente irregular, porque a parte plantada
já ultrapassa os 30%. Eu não quero levantar essa
discussão, mas só vou mostrar isso aqui para você.
(O ministro mostra o mapa de uma fazenda do estado de Mato Grosso).
Eu acho que esse proprietário aqui mereceria elogios. Olha
aqui como ele manteve a floresta, a mata ciliar em volta do rio. Mas
você sabe o que aconteceu com ele quando foi regularizar a
propriedade? Levou uma multa de R$ 1 milhão. Falta
racionalidade. Ele não é um criminoso. É um
produtor, e que, aliás, tem a propriedade bem estruturada, que
até merecia elogios. Mas quem foi olhar não considerou
nada disso. Porque no passado, na Amazônia, era dito ao
proprietário para manter 50% da propriedade sem derrubar. Mas,
naquela época, não existiam essas reservas permanentes
todas que hoje tem aqui. De repente, começou todo ano a
criar uma, duas, três reservas permanentes, com milhões
de hectares.
ABr: Como
resolver essa questão ambiental? Stephanes:
Precisaria reconceituar tudo. Precisaria bom senso, sentar numa
mesa, com racionalidade, fazer o que o resto do mundo faz. Não
faz o que a gente faz. É que nunca ninguém havia
montado esses mapas. (Ministro mostra mapa do Brasil identificando
todas as reservas ambientais). Ninguém tinha idéia de
que nós estávamos nessa situação. Aqui
estão os cálculos: se trabalharmos corretamente na
Amazônia, só está livre [para agricultura] 6,96%
da área. No Brasil todo, 33%.
ABr: E como
enfrentar essas dificuldades e aumentar a produção? Stephanes:
O que se procura, em primeiro lugar, é aumento de
produtividade e utilização mais racional das áreas
chamadas degradadas ou de baixa produtividade, que são muitas,
principalmente pastagens. Ou seja, diminuir área de pastagens,
passar a produzir grãos e melhorar a pastagem do remanescente
para produzir mais boi por hectare do que se produz hoje. O PAC da
Embrapa faz parte disso. Até porque cria três unidades
permanentes. Uma em Mato Grosso, maior produtor de grãos e de
carnes do Brasil, que não tem uma unidade da Embrapa, uma em
Tocantins e outra no Maranhão, que também não
têm.
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