|
Buenos Aires - A Argentina deve deixar
para trás os desentendimentos durante a Rodada Doha e
aproveitar o bom momento vivido pelo Brasil em âmbito
internacional. A avaliação é do analista
econômico Dante Sica, ex-secretário de Indústria
da Argentina e analista econômico especializado na relação entre
os dois países.
De acordo com o analista, o governo de Cristina Kirchner [presidente da
Argentina] precisa compreender melhor o novo alinhamento da
política internacional brasileira, para que possa “engatar”
sua própria política externa.
“Teremos muito mais a
ganhar em termos de conjunto e de posição diferenciada.
Deve-se abrir uma nova etapa de discussão a partir disso, no
Mercosul. Devemos reconhecer em todos os países as
necessidades de política externa, de se abrirem à esse
novo mundo que está dando uma oportunidade muito grande para a
América Latina, e tratar de aproveitar – tanto em nível
de política interna como externa – as oportunidades.”
Dante destaca que o
Brasil conta, atualmente, com estratégias voltadas para
política externa com caráter ofensivo, enquanto a
Argentina permanece com táticas defensivas e protecionistas, o
que gera diferenças marcantes quando se trata de
posicionamento internacional.
“Lamentavelmente, a
Argentina tem uma política interna que muitas vezes dificulta
poder ascender com mais força ao mercado internacional. É
o caso da suspensão de algumas exportações como
o trigo para o Brasil. São restrições que
colocaram aqui, e nesse sentido a Argentina precisa fazer mais
esforço. Quando se analisa e compara com anos anteriores, a
Argentina está muito exilada do contexto internacional”,
disse.
Ele acredita que o
Brasil, como o maior parceiro da Argentina no Mercosul, pode ajudar
os argentinos a romper o “isolamento internacional”.
Ao comentar a visita do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Buenos Aires, no último
domingo (4), o analista reforça que o líder
brasileiro, acompanhado por uma delegação de empresário
com interesse no mercado argentino, abriu caminho para uma maior
integração regional.
“É uma aposta
ao governo argentino e um sinal de que as diferenças nas
negociações durante a Rodada Doha não empatam o
que são as relações entre os países. O
Brasil tem a possibilidade de jogar muito mais forte em termos de
integração regional e nos chama a ter uma aliança”,
avalia.
Para Dante, tanto a
Argentina como o Brasil devem estar atentos aos problemas energéticos
manifestados na América do Sul sob o ponto de vista regional,
além de fazer esforços junto ao Uruguai e ao Paraguai
para buscar uma saída “politicamente confiável”,
aproveitando os recursos energéticos bolivianos e
integrando-se ao Chile e ao Peru.
“Temos que utilizar
esses acordos bilaterais para fazer um programa muito forte de
integração de infra-estrutura regional. Nossos países
têm integração física, por meio de marcos
ferroviários e de aerovias, mas devemos avançar em um
projeto que vai melhorar a competitividade entre as empresas e
acelerar a melhoria da circulação de bens”, defende.
Ele elogia o acesso ao
financiamento internacional conquistado pelo Brasil e ressalta que
tal êxito, somado ao poder de compra da moeda brasileira,
permite que muitos empresário ingressem em solo argentino.
Nos últimos
quatro anos, segundo Dante, o Brasil se transformou no primeiro país
de origem de capital na Argentina em setores como o têxtil, de
calçados, o eletrônico e o automobilístico.
“São setores
onde, historicamente, a Argentina tem tido problemas e, hoje, a
disputa comercial acaba sendo diluída pela forte participação
do Brasil em nosso processo de produção. Acredito que a
visita de Lula permite visualizar melhor o impacto econômico
dos empresários brasileiros na Argentina. Eles não
apenas compram empresas, mas geram novas empresas, integram capital e
abrem muitos postos de trabalho para o nosso país. É
uma nova etapa que temos no Mercosul.”
|