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8 de Agosto de 2008 - 11h47 - Última modificação em 8 de Agosto de 2008 - 13h22


Argentinos falam em crise, mas ex-ministro diz que o país enfrenta apenas dificuldades

Paula Laboissière
Enviada especial

 
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Wilson Dias/ABr
Buenos Aires - O vendedor ambulante de café, German Elboto, afirma que a política do governo elevou os preços e afetou ainda mais os pobres
Buenos Aires - O vendedor ambulante de café, German Elboto, afirma que a política do governo elevou os preços e afetou ainda mais os pobres
Buenos Aires - Os reflexos das dificuldades econômicas enfrentadas pela Argentina já podem ser percebidos pelas ruas do país.

O vendedor de café-com-leite German Elboto trabalha com seu carrinho nas largas pistas de Buenos Aires e lembra que, nas eleições do ano passado, votou a favor da atual presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Ele reconhece, porém, que as políticas adotadas pelo governo elevaram os preços e afetaram ainda mais os pobres.

“Está difícil, mas vamos sair da crise. Há emprego, mas não em abundância. Há também problemas de segurança, de saúde, de educação e de infra-estrutura. A solução seria, além de mais trabalho para o povo, a recuperação das indústrias.”

Elida Vásquez trabalha como radiologista na capital argentina e garante que o aumento dos preços recaiu principalmente sobre os alimentos de primeira necessidade, além de roupas, calçados e serviços como gás e energia elétrica. Ela acredita que as decisões político-econômicas tomadas por Cristina Kirchner mostram que a líder está “um pouco confusa” no comando do país.

“É uma mulher muito inteligente e uma senadora extraordinária mas, como presidente, não sei o que acontece. Tenho sempre a esperança de que a Argentina saia à frente, porque tem muito a dar. Mas algumas coisas precisam mudar fundamentalmente. A primeira delas é respeitar um pouco mais o povo.”

Para o economista Aldo Ferrer, os relatos de ambos os portenhos são verdadeiros, mas ele nega que a Argentina enfrente um novo período de crise política e econômica. Ex-ministro da Fazenda no país durante a década de 70, ele garante que a economia argentina encontra-se “razoavelmente ordenada”, com um crescimento de 7% nos últimos cinco anos.

“Existe uma série de problemas mas, certamente, não é uma crise como as que vivemos várias vezes – a última, em 2001 e 2002. Os preços na Argentina estão subindo um pouco demais mas não é que o país esteja outra vez como no passado, em uma situação descontrolada em que haja uma ameaça hiperinflacionária.”

Apesar de o governo argentino não reconhecer oficialmente os índices inflacionários no país – que, segundo estimativas, se aproximam de 30% ao ano – Aldo aponta que a inflação existe, mas que não é um “drama”. Ele diz que para combater a elevação dos preços, é preciso que Cristina Kirchner mantenha uma forte política fiscal, além de uma política de ingresso com distribuição de renda adequada.

“O mais importante e preocupante nesse momento é a apreciação do tipo de câmbio, porque a paridade do peso com o dólar está em torno de $ 1 para US$ 3, há aproximadamente dois anos. O tipo de câmbio é fundamental para a competitividade porque, quando o dólar é barato, é melhor importar as coisas do que produzí-las.”

O economista acredita que a estratégia argentina deve ser industrializar-se e incorporar tecnologias para que o país deixe de ser apenas um produtor de commodities ou um produtor primário. Ele elogia a iniciativa do governo brasileiro, ao participar de um encontro empresarial Brasil-Argentina, mas avalia que a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Buenos Aires, no último domingo (4), não modifique a situação no país.

“É muito importante ter políticas que ampliem as oportunidades para os empresários nacionais e isso não exclui que venham empresas do exterior, desde que possamos manter a liberação e o domínio de nossos recursos. Nesse mundo globalizado em que vivemos, só se dão bem e só existem os países capazes de pensar primeiro em si mesmos.”

Quando questionado sobre o que esperar de um futuro cenário político e econômico na Argentina, Aldo diz que a situação depende das decisões do governo de Cristina Kirchner mas que o “êxito” de uma política econômica está ligado ao reforço da política econômica interna, em tornar o próprio país mais rentável.

“A política nacional deve defender o interesse nacional. É a construção de um espaço próprio, aberto ao mundo mas, de maneira alguma, subordinado aos mercados internacionais e à inversão estrangeira. E se pudermos fazer isso juntos, via Mercosul, muito melhor, porque somos muito mais fortes.”




 


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