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Wilson Dias/ABr
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Buenos Aires - O vendedor ambulante de café, German Elboto, afirma que a política do governo elevou os preços e afetou ainda mais os pobres
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Buenos Aires - Os reflexos das dificuldades econômicas enfrentadas pela Argentina já podem ser percebidos pelas ruas do país.
O vendedor de café-com-leite German Elboto trabalha com seu carrinho nas largas pistas de
Buenos Aires e lembra que, nas eleições do ano passado, votou a favor da atual
presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Ele reconhece, porém, que as
políticas adotadas pelo governo elevaram os preços e afetaram ainda mais os pobres.
“Está
difícil, mas vamos sair da crise. Há emprego, mas não
em abundância. Há também problemas de segurança,
de saúde, de educação e de infra-estrutura. A
solução seria, além de mais trabalho para o
povo, a recuperação das indústrias.”
Elida
Vásquez trabalha como radiologista na capital argentina e
garante que o aumento dos preços recaiu principalmente sobre os alimentos
de primeira necessidade, além de roupas, calçados e
serviços como gás e energia elétrica. Ela
acredita que as decisões político-econômicas
tomadas por Cristina Kirchner mostram que a líder está
“um pouco confusa” no comando do país.
“É
uma mulher muito inteligente e uma senadora extraordinária
mas, como presidente, não sei o que acontece. Tenho sempre a
esperança de que a Argentina saia à frente, porque tem
muito a dar. Mas algumas coisas precisam mudar fundamentalmente. A
primeira delas é respeitar um pouco mais o povo.”
Para o
economista Aldo Ferrer, os relatos de ambos os portenhos são
verdadeiros, mas ele nega que a Argentina enfrente um novo período
de crise política e econômica. Ex-ministro da Fazenda no
país durante a década de 70, ele garante que a economia
argentina encontra-se “razoavelmente ordenada”, com um
crescimento de 7% nos últimos cinco anos.
“Existe
uma série de problemas mas, certamente, não é
uma crise como as que vivemos várias vezes – a última,
em 2001 e 2002. Os preços na Argentina estão subindo um
pouco demais mas não é que o país esteja outra
vez como no passado, em uma situação descontrolada em
que haja uma ameaça hiperinflacionária.”
Apesar de o
governo argentino não reconhecer oficialmente os índices
inflacionários no país – que, segundo estimativas, se aproximam de 30% ao ano – Aldo aponta que a inflação
existe, mas que não é um “drama”. Ele diz que para
combater a elevação dos preços, é preciso que Cristina Kirchner mantenha uma
forte política fiscal, além de uma política de
ingresso com distribuição de renda adequada.
“O mais
importante e preocupante nesse momento é a apreciação
do tipo de câmbio, porque a paridade do peso com o dólar
está em torno de $ 1 para US$ 3, há aproximadamente dois
anos. O tipo de câmbio é fundamental para a
competitividade porque, quando o dólar é barato, é
melhor importar as coisas do que produzí-las.”
O
economista acredita que a estratégia argentina deve ser
industrializar-se e incorporar tecnologias para que o país
deixe de ser apenas um produtor de commodities ou um produtor
primário. Ele elogia a iniciativa do governo brasileiro, ao
participar de um encontro empresarial Brasil-Argentina, mas avalia que
a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a
Buenos Aires, no último domingo (4), não modifique a situação no país.
“É
muito importante ter políticas que ampliem as oportunidades
para os empresários nacionais e isso não exclui que
venham empresas do exterior, desde que possamos manter a liberação
e o domínio de nossos recursos. Nesse mundo globalizado em que
vivemos, só se dão bem e só existem os países
capazes de pensar primeiro em si mesmos.”
Quando
questionado sobre o que esperar de um futuro cenário político
e econômico na Argentina, Aldo diz que a situação depende das decisões
do governo de Cristina Kirchner mas que o “êxito” de uma
política econômica está ligado ao reforço da política econômica interna, em tornar o próprio país mais rentável.
“A
política nacional deve defender o interesse nacional. É
a construção de um espaço próprio, aberto
ao mundo mas, de maneira alguma, subordinado aos mercados
internacionais e à inversão estrangeira. E se pudermos
fazer isso juntos, via Mercosul, muito melhor, porque somos muito
mais fortes.”
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