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21 de Agosto de 2008 - 08h38 -
Última modificação
em 21 de Agosto de 2008 - 14h36
Vannuchi quer discussão da Lei de Anistia sem "espírito de vingança"
Mariana Jungmann e Ivanir José Bortot
Repórteres da Agência Brasil
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Marcello Casal JR/ABr
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Brasília - O ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, diz, em entrevista à Agência Brasil, que considera importante que o brasileiro tenha direito à memória e à verdade sobre a ditadura militar
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Brasília - O governo não
vai propor mudanças na Lei de Anistia, como temem os militares
da reserva. As dúvidas sobre a interpretação da
lei devem ser dirimidas pelo Poder Judiciário.
Essa é a
opinião do ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos
da Presidência da República, Paulo Vannuchi, para quem,
apesar disso, a ocultação dos cadáveres é
um "crime continuado", que merece punição.
O
ministro defende uma discussão sem “espírito de
vingança” e considera importante que o brasileiro tenha
direito à memória e à verdade sobre a ditadura
militar.
Em entrevista de mais de uma hora à Agência
Brasil, Paulo Vannuchi defende a reconciliação
entre a sociedade e os militares e classifica de "reflexo de um
pensamento anti-democrático" o discurso de integrantes do
Clube Militar do Rio de Janeiro. Para ele, o Brasil precisa se tornar
uma “sociedade madura” e não tratar o tema da luta do
regime militar e seus opositores de maneira maniqueísta, “como
uma separação em que o bem estava de um lado e o mal do
outro”.
ABr: Comenta-se que alguns crimes cometidos
durante a ditadura não poderiam ser punidos pela Lei de
Anistia. A nossa democracia hoje comporta avaliar e punir pessoas que
cometeram esses crimes? Vannuchi: Com certeza comporta.
Desde uma audiência em 31 de julho no Ministério da
Justiça, há um noticiário de imprensa desfocado
ou distorcido. O ministro Tarso Genro e eu teríamos defendido
a revisão da Lei de Anistia. Não defendemos, não
defenderemos. No governo ninguém tomará qualquer
iniciativa dessa. A posição do governo se divide em
dois eixos. Número um: reconhecer o direito de familiares e
vítimas a todas as informações sobre violações
de direitos humanos de opositores políticos do regime militar
de 1964 a 1988. Número dois: qualquer idéia de punição
é um termo estritamente do Judiciário. Então,
quando se fala que no Brasil se faz diferente, se faz diferente
porque o Judiciário de cada país é diferente.
Agora, não há nada de revanchismo. É
injusto que as Forças Armadas continuem carregando nos ombros
a acusação de que são as responsáveis.
Mesmo sob a acusação de que houve um sistema de
repressão política. O regime já foi julgado nas
urnas. Agora, se o Judiciário brasileiro, por meio do Supremo,
quando provocado, decidir que não pode pairar qualquer
possibilidade de punição para torturadores porque a Lei
de Anistia, ao usar a palavra crimes conexos, inclui “torturou,
estuprou, esquartejou, decapitou, ocultou cadáver”, nós
acataremos. Pode ser que o sistema internacional de direitos humanos
discorde disso. Essas decisões têm poder de coação
moral num momento em que o Brasil alça a um novo papel
internacional e caminha para ter assento permanente no conselho. Mas
os Estados Unidos também já foram acusados por tortura
em Guantánamo e não há nenhuma decisão
internacional condenando George Bush.
ABr: O senhor
compartilha da opinião do ministro Tarso Genro de que a lei
pode ser reinterpretada e que não incluiria esses crimes de
tortura? Vannuchi: Mais do que isso. Eu diria interpretada
juridicamente, porque não há nenhuma interpretação.
Não houve ainda, desde 1979, nenhum procedimento judicial para
o Poder Judiciário decidir, primeiro nas esferas estaduais,
depois na Suprema Corte. Quando eles decidirem, não há
dúvida que, do ponto de vista jurídico brasileiro, o
tema estará travado. Eu não sou jurista, mas avalio que
a palavra “conexos” não tem poder nominativo, foi um
conchavo. Porque a lei poderia perfeitamente dizer “estão
anistiados os crimes políticos e também os eventuais
delitos praticados no exercício da repressão pelos
órgãos policiais”. Pronto, não teria dúvida
de interpretação. Segunda questão: argumentos
internacionais de grandes juristas como Hélio Bicudo, Fábio
Comparato, Dalmo Dallari, Baltazar Garzón dizem que ocultação
de cadáver é crime continuado. Não é um
crime que já passou e foi anistiado. Ele continua no dia
seguinte à anistia, porque o cadáver continua ocultado.
Claro que poderá haver o argumento da prescrição
do crime.
Na condição de ministro, com história
de vida de preso político e torturado, quero dizer que o que
me move não é nenhuma idéia de cadeia para essas
pessoas. Não queremos fazer esta discussão com nenhum
espírito de vingança. Agora, precisamos fazer o
processamento da informação. A punição
pode ser a filha sentar com o pai na hora de jantar e indagar: “pai
você fez isso mesmo?" Se a posição for de
que ninguém deve ser encarcerado, é uma posição
perfeitamente dialogável, desde que você não caia
na atitude de violação dos direitos humanos - que é
o direito à memória e à verdade - de falar que
não se mexe mais nesse assunto.
ABr: Como isso
tem sido tratado no governo? Vannuchi: Eu estive ontem em
uma audiência de rotina com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e ele voltou a elogiar o livro que fizemos sobre os
desaparecidos e considerou que o seminário promovido no
Ministério da Justiça teria sido melhor se fosse feito
na Universidade de Brasília ou na Ordem dos Advogados do
Brasil para deixar claro que é a sociedade civil discutindo
assunto com a presença dos ministros. E não parecer que
é uma posição que o governo tenha tomado
internamente. Eu disse a ele: presidente, todo o meu trabalho é
para cumprir uma determinação sua de esclarecer os
fatos sobre os mortos e desaparecidos.
ABr: E como o
senhor pretende conduzir o assunto para cumprir com a missão
recebida do presidente da República? Vannuchi: Nós
não vamos passar por cima desses redutos, como o Clube
Militar, de clima de guerra fria, de atacar o governo atual como se
fosse a continuação do governo do presidente João
Goulart, com uma mistura geral que eles chamam comunismo. Nosso
discurso é: senhores oficiais das Forças Armadas da
ativa - altos dirigentes de hoje que são da mais alta
dignidade e lisura - temos um problema que é do Brasil e vamos
resolver juntos. Resolver é obter informações,
abrir arquivos e, eventualmente, fazer comissões que recuperem
essa história. Pois se não há documentos dá
para reconstituir os autos e juntos vamos definir qual é o
melhor caminho para o Brasil, conhecendo seu passado recente para não
correr riscos de repetição.
ABr: A missão
que o senhor recebeu é esclarecer as circunstâncias em
que as pessoas foram mortas e indicar onde estão enterradas,
para dar uma satisfação às famílias, que
não é uma questão jurídica. É
possível cumprir? Vannuchi: É possível.
São aproximadamente140 mortos ou desaparecidos cujos corpos
não foram restituídos às famílias para
fazer o funeral. Se conseguirmos encontrar um, já importa.
Enquanto não é feito o funeral, os familiares podem
ficar pensando: “será que ele não pode estar
internado em um manicômio judiciário sem fala? Será
que ele não aproveitou essa clandestinidade para constituir
uma nova família? Há ainda uma hipótese mais
tenebrosa. Será que pessoas sobreviveram e estão por aí
vivendo com outra identidade?”
ABr: O que é
possível fazer com as atuais limitações do
governo para tratar do assunto? Vannuchi: O que o governo
pode e vai fazer é demonstrar que não tem nenhum
empenho em ocultar isso. Na hora em que esse trabalho exigir que vá
se fazer uma décima primeira diligência no Araguaia, eu
defenderei que ela seja feita, mas que não se repitam as cenas
que já vimos. Tem que vir com trabalho de inteligência,
coletar informações do Ministério Público
e fazer verificação criteriosa com representantes do
Judiciário e famílias em cada um dos locais. Neste
sentido, reputo como fundamental a missão do ministro Jobim
[ministro da Defesa, Nelson Jobim] que é convencer os
seus subordinados desse espírito de pacificação,
de reconciliação embutido nesse gesto. Não
precisa apontar o nome da pessoa, mas ache algum oficial que está
vivo, ouça em sigilo. Se dos 60 que estariam lá, nós
acharmos um, já valeu. Se forem dez, muito melhor. E também
é possível que não existam mais corpos. Eu
defenderei, no caso em que não exista mais o corpo, que haja
uma narrativa: Rubens Paiva foi jogado de um helicóptero em
cima da Baia de Guanabara na noite do dia tal.
ABr: É
como se um país tivesse institucionalmente que cuidar da sua
saúde mental depois de uma experiência traumática
como ocorreu no regime militar. Vannuchi: É mais do
que saúde. É o tema da infantilização ou
do amadurecimento. O Brasil está pulando de patamar no cenário
mundial. Está descobrindo no pré-sal reservas de óleo
que o colocarão como terceira potência petrolífera
mundial, está produzindo alimentos como ninguém mais
pode produzir. Então, o Brasil precisa tornar-se uma sociedade
madura. E o maduro não é tratar o tema da luta do
regime militar e seus opositores como uma separação em
que o bem estava de um lado e o mal do outro, como, de alguma
maneira, o Clube Militar apresenta, com uma linguagem da guerra fria.
Maturidade quer dizer, seja daqui a cinco anos ou cinqüenta, as
Forças Armadas terão que reconhecer que qualquer que
fosse o problema do governo de João Goulart, não cabia
às Forças Armadas interromper o processo
constitucional. O presidente da República só pode sair
pelo voto popular ou pelo impeachment, quando houver crise de
responsabilidade.
ABr: O esclarecimento dos fatos pode
ajudar no amadurecimento institucional do país? Vannuchi:
Eu vou ter problema com os setores dos movimentos dos familiares
quando defendo a idéia de reconciliação. Os
direitos humanos projetam um mundo de paz, o mundo que temos é
de guerra. A transição chama-se reconciliação.
Em Angola, é MPLA (Movimento pela Libertação de
Angola) e a Unita (União Nacional para Independência
Total de Angola) [os dois movimentos que se opuseram durante a
guerra de libertação do país, que deixou muitas
vítimas, principalmente de minas terrestres] – inimigos – com pessoas sem pernas aos milhares andando pela rua, que começaram
a trabalhar juntos. O Brasil tem que superar essa página, mas
deixar registradas nas páginas viradas todas as informações.
Isso é o que diz Michelle Bachelet [presidente do Chile], só as feridas lavadas
cicatrizam.
ABr: E como pode ser feito esse processo de
reconciliação do ponto de vista jurídico e
institucional? Vannuchi: Se houver gente disposta a
dialogar nesses segmentos, nos sentaremos para dizer que pressuposto
básico é esse. Não ter medo. Se houver punição
para uma dúzia de torturadores histéricos e psicopatas,
é um tema do Judiciário brasileiro. Ele decidirá
à luz do direito internacional e dos direitos humanos. Agora,
vamos fazer um acordo para conhecer profundamente o assunto. Em algum
momento se registra o ponto de vista de um dos chefes militares. Isso
é incorporado ao relatório. A história passa a
contar com esse registro.
ABr: E as críticas
feitas ao senhor no Clube Militar? Vannuchi: O que existiu
ali foi a celebração de uma mentalidade
anti-democrática. Eu tenho a íntegra dos três
discursos. Pouco se falou de Tarso Genro e de mim. Atribuíram
a mim ser simpatizante das Farc [Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia]. Eu podia ser, mas não
sou. Veja bem, em uma guerra, você não seqüestra o
soldado adversário. Você prende e comunica a ele os seus
direitos. O seqüestro é uma retenção e, a
cada dia, se decide se vai matar ou não. É odioso, não
é suportável essa idéia. Eu não tenho
nenhuma simpatia pelas Farc. O que eu fiz foi pedir a um assessor meu
para visitar um padre [ligado às Farc] que estava preso
aqui e havia alegação de que não estava tendo
acesso a livros e a banho de sol. Uma ação inteiramente
voltada para os direitos humanos. Além disso sou de uma
família católica, eu fui preso e sei o que é ser
preso. É só isso.
(continua)
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