



|
Roosewelt Pinheiro/ABr
| |
Brasília - O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, ministro Marco Aurélio Garcia, concede entrevista exclusiva à Agência Brasil
|
Brasília - Os países da
América do Sul poderão cooperar com o complexo
industrial destinado à produção do petróleo
do pré-sal, dentro de uma estratégia do Brasil de
fortalecimento da economia regional.
A expectativa é do
assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência
da República, ministro Marco Aurélio Garcia.
Como
exemplo, ele diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
quer dar prioridade à indústria naval do continente
para atender parte da necessidade de compra de 200 novos navios pela
Petrobras.
Em entrevista à Agência Brasil,
Garcia também defende a expansão da indústria
brasileira nesses países, como forma de reequilibrar a balança
comercial, e manifesta a intenção do Brasil de expandir
para o Uruguai e Paraguai o mesmo tipo de acordo automotivo feito
este ano com a Argentina.
ABr: A descoberta do pré-sal
vai implicar alguma mudança nesse processo de integração
industrial com os nossos vizinhos. Como o senhor está vendo
este processo? Marco Aurélio: Só para citar
um número, a Petrobras terá que encomendar 200 navios.
Hoje não há capacidade de produção de 200
navios no mundo, então, o presidente Lula [Luiz Inácio
Lula da Silva] tem enfatizado que quer prioridade para a produção
disso e de outros componentes ligados a essa gigantesca indústria.
Ele quer dar prioridade para o Brasil e para a América do Sul.
Então, temos que começar a repertoriar [compilar,
formar repertório] completamente o estado da arte da
indústria naval argentina, uruguaia, venezuelana, colombiana.
Temos interesse em que essa demanda estimule completamente o processo
de industrialização ou reindustrialização
da América do Sul. Quando começou o governo Lula, a
indústria naval estava muito fragilizada. Houve, então,
um salto, a partir também das estatais que começaram
produzir as plataformas aqui.
ABr: Um modelo desse
pressupõe estabilidade econômica, fiscal, ter a
regulamentação das legislações? Marco
Aurélio Garcia: A supranacionalidade é uma coisa
que normalmente vai sendo aceita, ai é sempre um problema de
sensibilidade, e eu acho que sua aceitação maior ou
menor está sempre ligada à capacidade que ela tem de
resolver os problemas substantivos. Se houver base de
supranacionalidade que resolva os problemas das assimetrias, os
problemas sociais, que fortaleça a democracia, ela será
aceita. Se não for assim, não será aceita. No
caso europeu, onde é que esbarraram os mecanismos
supranacionais que a União Européia criou? Esbarraram
no fato de que alguns países acreditaram que não era
uma Europa social, não estavam sendo resolvidos problemas
cruciais, estava-se tentando montar uma institucionalidade, uma
burocracia. Não sei se é esse, ou não, não
quero entrar na discussão dos europeus, mas o que digo é
que, de qualquer maneira, quando as populações de
alguns países ou de todos não se reconhecem mais nas
instituições, isso vale tanto para o ponto de vista
nacional como regional.
ABr: Então
quer dizer que, do ponto de vista industrial, o Brasil vai ter uma
demanda de submarinos, navios, equipamentos etc?
Marco Aurélio:
Nós temos interesse de que essa demanda possa estimular,
concretamente, o processo de industrialização e de
reindustrialização da América do Sul. Do Brasil,
evidentemente. Então no fundo, você observa o seguinte:
quando começou o governo Lula, o estado em que se encontrava a
indústria naval era muito fragilizado. Hoje, houve um salto. A
partir de quê? Também das estatais.
ABr: Com essa
disponibilidade de energia, a matriz energética também
começa a ser revista...
Marco Aurélio:
Eu acho que o tema energético tem que ser pensado de forma
mais abrangente. Nós vivemos um grande paradoxo na região.
A região tem as maiores reservas energéticas do mundo,
se você somar o potencial hidroelétrico, petróleo,
gás, biocombustíveis, sol, vento, e até nuclear.
Então nós temos, sem dúvida, a maior reserva
energética do mundo e muito diversificada. Qual é o
paradoxo que nós temos aqui? Temos gigantesco potencial
energético e temos crise de energia em vários países.
Uruguai, que vive sempre no limite, Argentina, no limite, o Chile, o
Paraguai, que vivem essa coisa surrealista de ter Itaipu e ter apagão
em Assunção, e assim vamos. Então uma das coisas
que vamos ter que fazer é buscar soluções
coletivas para isso. Coletivas e diferenciadas. Evidentemente o país
que tem o maior potencial hidroelétrico do mundo, e isso é
seguro, talvez não tenha o maior potencial de combustíveis
fósseis, se formos comparar com o que é o Oriente
Médio, com o que é a Rússia. Ainda que as
descobertas de gás sejam sensacionais, a expansão das
reservas venezuelanas e brasileiras também é muito
expressiva. Tirando isso, que poderia ser objeto de discussão,
do ponto de vista de hidroeletricidade, que é energia
renovável, não poluente e barata, nós temos o
maior potencial do mundo. No entanto, nós ainda não
temos resolvidos os nossos problemas energéticos. Tomemos o
exemplo do Brasil. Aqui no Brasil, uma das razões do apagão
que houve era a ausência de redes de conexão. Quando as
zonas de interconexão se estabeleceram, o governo fez um
investimento que praticamente dobrou as ligações de
redes no Brasil. Apesar de que aumentou muito o consumo, com o
crescimento da economia, que provocou o crescimento do consumo
doméstico, cerca de 7 milhões de pessoas que receberam
o Luz Para Todos. Mas quando essa rede se estabeleceu, os riscos do
desabastecimento diminuíram. Estamos fazendo novos
investimentos, que nos garantem elevação do teto de
proteção. A mesma situação se coloca para
a América do Sul. Se, quando construirmos as hidroelétricas
de Madeira [do Rio Madeira: Jirau e Santo Antônio] e
outras que venham, se formos fazer uma binacional com os bolivianos e
com os argentinos, a de Garabi, tudo isso vai ter uma utilização
multinacional. Estamos diante de uma perspectiva de consolidação,
de uma espécie de divisão do potencial energético
do continente, quer dizer, que cada país tem, como a Bolívia,
que tem gás – mas se quiser, pode ter eletricidade – e o
Brasil, que não tem tanto, mas tem petróleo suficiente,
tem biocombustíveis – o Uruguai está começando
a investir em biocombustíveis e agora eles descobriram
petróleo. Até porque eu acho que uma das coisas que é
interessante é: você veja o tipo de discussão que
o pré-sal está produzindo no Brasil. Não é
uma discussão ligada, fundamentalmente, à relação
de sustentabilidade energética. Não é isso? O
que está se discutindo no Brasil exatamente é 'o que é
que nós vamos fazer com os excedentes, qual será a
utilização do excedente petrolífero que vai se
produzir no Brasil?' Nós não queremos exportar petróleo
bruto. Por isso decidimos construir duas grandes refinarias, uma no
Maranhão e outra, no Ceará. que vão se dedicar a
exportar gasolina premium para o mundo, para agregar valor. É
evidente que nós vamos querer compartilhar com os outros
países os investimentos necessários para a produção
da exploração do pré-sal, o impacto que isso
terá sobre a economia brasileira é gigantesco.
ABr: E aí
o senhor acha que fortalece o Mercosul, a visão econômica
de região, o senhor acha que isso será um mote para
consolidar?
Marco Aurélio:
Acho que isso ajudará muito. Não vai nos dispensar de
tomar outras medidas, que são claras hoje. Precisamos reforçar
a estrutura física, a conectividade entre os países,
precisamos reforçar a infra-estrutura energética,
porque ela independe do programa do pré-sal. Em terceiro
lugar, precisamos fortalecer os mecanismos financeiros, a questão
do bloco sul é importante, a quantidade de obras que precisam
ser feitas aqui. Precisamos também reforçar as
políticas sociais, sobretudo uma série de programas de
fronteira que são muito importantes, que beneficiam as
populações dos países vizinhos e a nossa também.
Vamos ter que pensar, também, em outros mecanismos
financeiros, quer dizer, essa experiência que estamos iniciando
com a Argentina de comércio em moeda nacional pode se
generalizar para os outros países. Há ganhos muito
fortes. Por outro lado, precisamos agilizar certos mecanismos de
garantia na região. Hoje em dia o problema não é
tanto emprestarmos para o país A, B ou C, uma certa quantia
para ele realizar uma obra. A negociação das condições,
em geral, é um trabalho de engenharia financeira que se
resolve rapidamente. O grande problema, muitas vezes, são as
garantias. Então como é que se faz. Convênio de
crédito recíproco é um mecanismo,
conta-petróleo, conta-gás, conta-isso, conta-aquilo.
Esse é um problema que nós também precisamos
sofisticar mais. Eu diria que, finalmente, haverá, tudo isso,
associado a outra coisa, também importante, que é criar
mecanismos de compensação das assimetrias. ABr:
Como isso é possível?
Marco Aurélio:
Essa institucionalidade se reforça reforçando
mecanismos já existentes e criando outros. No caso do
Mercosul, nós temos uma estrutura em Montevidéu que é
muito frágil. Então ela precisaria ser reforçada,
mas consideravelmente, para que pudesse haver, por parte do Mercosul,
uma capacidade de iniciativa maior. Agora nós vamos ter um
parlamento, que pode ser um elemento importante. Uma particularidade
que os países menores, muitas vezes, ficam preocupados, é
que o parlamento pode significar uma hegemonia brasileira. Isso é
uma bobagem. O Parlamento Europeu não está dominado
pela Alemanha, França, Reino Unido ou Polônia, mas em
partes e tendências que são partidárias.
ABr: O senhor
acha que vamos caminhar por esse modelo?
Marco Aurélio:Eu
espero que sim.
Continua....
|
|