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Roosewelt Pinheiro/ABr
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Brasília - O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, ministro Marco Aurélio Garcia, concede entrevista exclusiva à Agência Brasil
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Brasília - Na
terceira e última parte da entrevista, o assessor especial
para Assuntos Internacionais da Presidência da República,
ministro Marco Aurélio Garcia, analisa a pauta de negociações
do Brasil com o Paraguai em torno da energia de Itaipu.
Ele fala também sobre a produção
de biocombustível e outros projetos voltados para o setor
agrícola.
Segundo
ele, a negociação sobre Itaipu será conduzida pelos
Ministérios de Minas e Energia e das Relações
Exteriores.
Para Garcia é hora de reforçar a
institucionalidade no âmbito do Mercosul e da Unasul, em
especial a estrutura do Mercosul em Montevidéu, considerada
muito frágil, a fim criar as condições para
fortalecimento do comércio regional.
Agência
Brasil:- Com o fortalecimento da economia e da moeda brasileiras,
nossas empresas estão expandindo seus negócios para
países da América do Sul e expandindo suas indústrias
em novos mercados. Como o senhor vê esse processo? Marco
Aurélio Garcia: Vejo como um fato positivo, até
porque temos dois problemas aqui. Temos hoje uma relação
comercial muito desequilibrada em favor do Brasil. Temos um superávit
de balança comercial com todos os países da região,
menos com a Bolívia, em função das importações
de gás. Isso demonstra que a relação comercial
muitas vezes não resolve as assimetrias existentes entre as
economias sul-americanas, pelo contrário, até agrava.
Uma das formas pelas quais podemos compensar isso - além dos
mecanismos multilaterais, como fundos, programas de infra-estrutura e
financiamentos que o Brasil tem propiciado para construção
de obras nesses países - é justamente por intermédio
de investimentos. E o Brasil tem sido demandado, em grande medida, a
estimular os países que precisam de investimentos.
ABr:-
Há áreas específicas pelas quais o Brasil e os
parceiros têm preferência? Marco Aurélio:
Depende muito do país. Há investimentos na área
petrolífera, de gás e de minérios. A Petrobras
está presente hoje na Argentina, na Colômbia, no Peru.
Temos mineradoras, como a Vale, e temos presença forte na área
industrial, o que nos interessa, porque uma das formas de estabelecer
uma relação mais equilibrada com os países da
região é ajudá-los a levar adiante um processo
de industrialização – seja ele complementar às
nossas indústrias, às indústrias argentinas,
seja um processo autônomo. O Brasil tem estimulado muito o
desenvolvimento industrial e agrícola da Venezuela.
ABr:
O desenho que está sendo pensado pelo governo brasileiro é
de uma integração econômica maior? Marco
Aurélio: Esse pelo menos é o movimento que temos
tentado impulsionar. Agora, nossa economia é uma economia de
mercado, temos possibilidade de estimular investimentos, direcionar,
mas não de dizer para onde uma fábrica vai. Mas as
políticas governamentais são fundamentais nesse
particular.
ABr: Como as instituições de
fomento que temos estão sendo usados para isso? Marco
Aurélio:- Estão sendo usadas basicamente para a
questão de infra-estrutura. Estamos financiando uma iniciativa
tripartite entre Brasil, Bolívia e Chile, para uma obra que
permitiria a abertura de uma estrada entre Porto Alegre e o Chile,
passando pela Argentina, que irá mudar totalmente a integração
Pacífico-Atlântico. Agora, o Brasil abriu uma linha de
crédito importantíssima para esse projeto Bolívia
Hacia el Norte, e está disposto a financiar a linha de
transmissão de energia de Itaipu a Assunção, no
Paraguai.
ABr: Especificamente no caso do Paraguai,
chegou-se a falar em um Plano Marshall [principal plano dos
Estados Unidos para a reconstrução dos países
aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial,
que recebeu o nome do secretário de Estado, George Marshall],
um plano de desenvolvimento econômico. O senhor esteve antes
das eleições com Fernando Lugo em nome do Brasil. O que
ficou decidido? Marco Aurélio: Temos que ser
cuidadosos ao falar sobre isso, para não parecer que queremos
dizer aos paraguaios o que eles têm que fazer – até
porque eles sabem muito bem o que fazer. Eu diria que lá vamos
ter dois grandes problemas. Um deles é o de Itaipu, para o
qual temos expectativa de continuar negociando, como negociamos até
agora. No governo anterior, de Nicanor Duarte, o Brasil fez uma série
de movimentos que melhoraram completamente o relacionamento entre os
dois países, no que diz respeito a essa hidrelétrica,
que tem grande importância para nós, do ponto de vista
energético. Para o Paraguai, mais do que isso, tem grande
importância do ponto de vista financeiro. Uma parte expressiva
dos recursos que o Paraguai aufere vem de Itaipu. Então, é
normal que eles queiram melhorar as condições de
remuneração da energia. Optamos por uma conduta serena,
tranqüila. Estive lá pouco antes da posse do presidente
[Fernando] Lugo, conversei com ele duas vezes, estive com sua
equipe e chegamos a um acordo de que não iríamos
negociar pela imprensa, mas sim na mesa de negociação.
Há uma série de demandas que nos parecem plausíveis,
outras não.
ABr: - Como será essa
negociação? Marco Aurélio: Eles
ofereceram uma pauta que nos pareceu boa, o que não significa
que estaremos de acordo com tudo o que foi colocado ali. Mas nos
parece um excelente roteiro para as negociações. Ao
mesmo tempo, os diretores brasileiro e paraguaio de Itaipu já
conversaram algumas vezes e as conversações foram muito
positivas. As negociações, no caso brasileiro, serão
conduzidas pelos Ministérios das Relações
Exteriores e de Minas e Energias, estarão muito mais
facilitadas. A segunda questão está ligada à
idéia de um projeto de desenvolvimento maior do Paraguai. É
um país que tem uma agricultura importante – podemos
oferecer cooperação agrícola. Tenho a impressão
de que, no Paraguai, o essencial é saber se os paraguaios
querem desenvolver um programa industrial para o país. Eles
têm um trunfo importantíssimo, que é ter energia,
têm a maior proporção de energia per capita
do mundo. Essa energia, grande parte dela é exportada, mas
poderia ser convertida para a indústria paraguaia. Os próprios
paraguaios nos têm dito que querem mudar a imagem do país,
de país da falsificação. Tenho certeza de que
haveria interesse de empresários brasileiros e algumas
empresas brasileiras estão se preparando para anunciar
investimentos lá, na área de bens de capital. Acho que
há possibilidade de isso se estender para outros setores, como
o de bens de consumo, para o mercado interno e também para as
exportações. Outro capítulo que discutimos lá,
há mais tempo, é o da indústria de
biocombustíveis. Eles poderiam perfeitamente entrar na
produção de etanol, biodiesel. Enfim, a assunção
de um novo presidente cria condições e possibilidades
de um país repensar sua vocação econômica
e, em função disso, ver no que o Brasil e outros países
da região podem efetivamente ajudar.
ABr: - É
um processo com o modelo tradicional de investimentos privados? E
onde precisar, as agências de fomento brasileiras podem
investir? Um projeto compartilhado entre os dois países? Marco
Aurélio: - É. Aí, os paraguaios fixarão
as condições, e esse modelo, de certa maneira, é
o que acreditamos que possa se estender a outros países, como
o Uruguai. Outra questão importante é que o Brasil
assinou um novo acordo automotriz com a Argentina. Pela primeira vez,
depois de muito tempo, foi um acordo de seis anos de duração,
que, então, cria estabilidade. Os acordos anteriores eram
anuais, o que não dava muito impacto. Com o acordo de seis
anos, um dos primeiros efeitos que constatamos é que a
Argentina hoje retomou sua produção automobilística,
embora tenha perdido nos últimos anos muitas indústrias
de autopeças. No entanto, há possibilidade de a
indústria de autopeças voltar, porque esse acordo, com
duração de seis anos, tem alguns efeitos de projeção
sobre a indústria automotriz. Aceitamos isso. Esse acordo vai
ser estendido ao Paraguai e ao Uruguai. Isso implicaria que
tivéssemos possibilidade de fazer com que Paraguai e Uruguai
também participassem desse processo de divisão do
trabalho.
ABr: Como é o modelo desse
acordo? Marco Aurélio: Ele estabelece condições
muito favoráveis a esse processo de reindustrialização
da Argentina. A indústria automobilística brasileira
aceitou. Para ter uma idéia, muitas empresas que estavam em
Córdoba [Argentina] vieram para o Brasil, mas podem
muito bem voltar. Por outro lado, temos possibilidade de fazer com
que Paraguai e Uruguai entrem nisso. Estivemos discutindo com o
ministro da Argentina a possibilidade de, a partir de compras muito
importantes que o país fará da Embraer [Empresa
Brasileira de Aeronáutica], sobre o início de um
processo de integração com a indústria
aeronáutica argentina, que foi muito importante no passado.
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