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Brasília - A cada
três horas, nasce uma criança anencéfala no
Brasil – no total de oito bebês por dia. Os dados foram
divulgados pela Sociedade
Brasileira de Genética Clínica, hoje (28), na segunda audiência pública para discutir a interrupção
de gravidez em casos de fetos com má formação ou sem cérebro. O representante do órgão,
Salmo Raskin, reforçou que o problema é mais freqüente
do que se imagina e que não pode ser totalmente prevenido com adição de ácido fólico na
dieta da gestante.
“A
anencefalia ocorre por volta do 24º dia de gestação.
A gestante ainda não sabe que está grávida.
Quando ela descobre - e não usou o ácido fólico -
não adianta mais, porque o tubo neural do feto já está
fechado.”
Segundo
ele, a patologia é mais freqüente em fetos do sexo
feminino, com possibilidade maior de acometer mulheres
com histórico de anencefalia. O risco chega a ser 50 vezes maior para as mulheres que já
geraram fetos anencéfalos – ainda que tenha sido interrompida.
“É
muito comum a presença de outras má-formações
– em 20% a 40% dos casos de anencefalia. Esse alto índice
não permite a doação de órgãos. Os
bebês morrem muito rápido, não dá tempo.
Não se pode fazer o transplante antes do sétimo dia de vida,
e eles não sobrevivem.”
Para o assessor da da Organização das Nações Unidas para assuntos de Saúde da Mulherd, José Aristodemo Pinottii, membro da
Academia Nacional de Medicina, a interrupção a gravidez
em casos de anencefalia sequer cpode ser classificada como aborto, porque o
feto anencéfalo não tem “potencialidade de vida”.
O ginecologista e obstetra Thomas
Rafael Gollop, membro da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência, destacou que o feto com esse tipo de anomalia é “um morto cerebral que tem batimentos
cardíacos e respiração”. Ele lembrou que a
anencefalia é a segunda má-formação
congênita mais comum no mundo e que o Brasil está em quarto lugar no ranking de casos da
patologia. “É um problema de saúde pública.”
Dados da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência indicam que a
interrupção da gravidez em casos de anencefalia já
é permitida em países da Europa, no Canadá, na
China e em Cuba, mas é proibida na Irlanda, em países
islâmicos e na América do Sul – com exceção
do Brasil e do Uruguai, que permitem a medida caso haja aval do
Judiciário.
“Aproximadamente
75% dos fetos anencéfalos morrem no útero. Todos
têm sobrevida vegetativa que cessa, na maioria dos casos, em 24
horas e nas primeiras semanas. Foram mais de 5 mil alvarás
judiciais concedidos para a interrupção de gravidez com
anencefalia entre 1989 e 2008.”
Ao final da audiência pública, Débora Diniz,
antropóloga e membro do Instituto de Bioética, Direitos
Humanos e Gênero (Anis), ressaltou que a principal conclusão
a que se chegou, até o momento, é que a
anencefalia, “por absoluto consenso”, é uma doença
letal em 100% dos casos.
“Não
importa se foi uma gestação planejada, se já há
expectativa pela chegada do bebê. Em geral, o diagnóstico
é feito durante a ecografia, um momento em que as mulheres
buscam conhecer o sexo da criança e começar o enxoval. Em muitos casos, o que ocorre é uma lenta e
desesperada busca por tribunais para evitar que o feto alcance 500
gramas ou 20 semanas de gestação e precise ser
enterrado. É uma experiência de tortura.”
A Anis é
co-autora da Argüição de Descumprimento de
Preceito Fundamental (ADPF) 54, que propõe a garantia do
direito à antecipação terapêutica do parto
em casos de anencefalia no feto. A ação foi proposta
pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde
(CNTS) e tem o objetivo de garantir o direito de escolha das mulheres
e proteger os profissionais de saúde que quiserem realizar o
procedimento.
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