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São Paulo - As gestantes das tribos Guarani que optarem por ter seu bebê
fora da aldeia têm direito a um tratamento diferenciado em dez hospitais públicos do estado de São Paulo. De acordo com uma resolução publicada em julho
pela Secretaria de Saúde paulista, nos casos de partos envolvendo indígenas da
etnia, parteiras e pajés podem acompanhar os nascimentos, o cardápio oferecido
às mães deve ser especial e até a placenta dos bebês tem que ser entregue às
famílias, para depois serem enterradas. Desde 2002, o estado de São Paulo é o primeiro do país a
manter um programa de saúde voltado ao respeito das tradições de uma etnia
indígena. Neste ano, o estado ampliou de seis para dez o número de unidades de
saúde credenciadas para realizar o atendimento adaptado. “Tudo isso para deixar
as mães mais à vontade”, de acordo com a coordenadora de saúde dos povos
indígenas da secretaria estadual, Augusta Sato. Segundo ela, determinação para as mudanças no atendimento
surgiu de reivindicações da própria comunidade indígena encaminhadas à
secretaria e à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) a partir 2002. Os dez
hospitais credenciados para o atendimento dos índios foram escolhidos,
justamente, devido à proximidade com as maiores aldeias guarani do estado. Dados da secretaria apontam que apenas 20% das índias
Guarani escolhem ter seu filho em hospitais. Contudo, certos costumes
arraigados acabam prejudicando a saúde dos indígenas, mesmo
quando eles vão às unidades de saúde por iniciativa própria. Por isso, o atendimento especial. “Quando ganham bebês, as índias não comem carne vermelha,
por exemplo. Muitas iam aos hospitais e voltavam para aldeia muito magras”,
explicou Sato, ressaltando que, nos hospitais capacitados, o cardápio das gestantes
inclui frango novo, arroz, mingau e milho e derivados. “Os guaranis reclamavam que não podiam enterrar a placenta
dos filhos. Nos hospitais, elas recebem a placenta assim que deixam o
hospital”, complementou, acrescentaando ainda que os cuidados diferenciados também
são estendidos aos recém-nascidos e ao pós-parto, caso seja vontade de vontade
da mãe. Sato disse que a iniciativa já tem dado resultado. Segundo
ela, as equipes de saúde que freqüentam as aldeias já notaram que as parteiras
estão se sentido valorizadas e as mães, mais seguras para tomarem sua decisão.
“Elas confiam no pajé e na parteira, pois vêem que o método deles está sendo
reconhecido”, afirmou. “O número de partos nas aldeias até aumentou depois das
mudanças nos hospitais.” Paulo Sellera, chefe da saúde indígena da Funasa em São
Paulo, confirma as mudanças. Para ele, a iniciativa do governo paulista
consegue integrar a medicina tradicional e a hospitalar e já resultou em queda
de mortalidade infantil, de complicações no parto e de internações devido a esse tipo
de complicação. De acordo com a Funasa, dados preliminares de 2007 mostram
que, para cada mil nascimentos, ocorreram 26,8 mortes de crianças de até 1 ano. Em 2002, ano que o
atendimento especial começou a ser implantado, o índice de mortalidade era de
33,5 no interior do estado e 52,6 no litoral sul. Roberto Karai Tataendy Veríssimo, guarani residente da
aldeia de Parelheiros, no município de São Paulo, confirma que o sistema
funciona. Segundo ele, no Hospital Geral de Pedreira, a mais próxima unidade de
saúde capacitada para atendimentos especiais de sua tribo, as mulheres têm recebido
cuidados diferenciados. Veríssimo, entretanto, afirmou
que alguns ajustes ainda precisam ser feitos. “A placenta tem que ser devolvida
ao pai logo após ao parto. Faz parte de nossa tradição”, sugeriu.
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