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Brasília - Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o destino prioritário do
dinheiro que pode vir a ser arrecadado com a exploração do petróleo da
camada pré-sal, descoberto recentemente, são investimentos na educação
e no combate à pobreza. Foi o que ele afirmou em entrevista exclusiva à
TV Brasil, que vai ao ar hoje (17), no programa 3 a 1. “Essa é a chance
que nós temos de resolver dois problemas que são dívidas históricas com
o povo brasileiro”, disse.
Na ocasião, Lula também ressaltou que antes de 5 de outubro,
data prevista para que ele receba o relatório do Ministério de Minas e
Energia sobre a nova regulação do pré-sal, tudo o que for discutido, mesmo por ele, são apenas hipóteses.
No entanto, o presidente afirmou que pretende fortalecer a Petrobras e
não criar uma empresa estatal exclusivamente para o pré-sal.
Confira a terceira parte da entrevista concedida pelo presidente Lula ao jornalista Luiz Carlos Azedo, apresentador do programa 3 a 1, à
diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Helena Chagas, e ao jornalista convidado Cristiano Romero, do jornal Valor Econômico.
TV Brasil: Presidente, nós temos agora uma pergunta de Fortaleza
(CE): “Eu queria saber do presidente Lula o que ele vai fazer com o
dinheiro da reserva do petróleo do pré-sal”.
Luiz Inácio Lula da Silva: Esse pré-sal, nós não conseguimos ainda
nenhum dinheiro com ele, mas já tem uma disputa pelo dinheiro imensa.
Na verdade, o pré-sal é uma dádiva de Deus para nós. Nós estamos com
uma comissão trabalhando num novo marco regulatório para o petróleo no
Brasil, porque tudo mudou depois que nós encontramos essas grandes
jazidas no pré-sal, e ainda temos que fazer mudanças na Lei do
Petróleo. Eu tenho em tese que esse dinheiro vai ser utilizado primeiro
para fortalecer a Petrobras e a indústria petrolífera brasileira.
Segundo, você vai usar para o fortalecimento da indústria naval.
Terceiro, você vai fortalecer a indústria petroquímica. Agora qual é a
minha prioridade? É fazer altos investimentos na educação e na pobreza
desse país. Essa é a chance que nós temos de resolver dois problemas
que são dívidas históricas com o povo brasileiro, que é recuperar o
tempo perdido na educação, que nós já começamos, mas com mais dinheiro
nós vamos fazer muito mais, e ao mesmo tempo, ver se você eleva os
outros brasileiros que ainda não chegaram à classe média, para a classe
média. Agora, eu vou receber só depois do dia 5 de outubro o relatório
apresentado pelo ministro [de Minas e Energia, Edison] Lobão, e a partir
daí eu pretendo fazer um debate com a sociedade brasileira.
TV Brasil: Por que mudar o maco regulatório, se esse
marco regulatório deu à Petrobras a situação em que ela está hoje, de ser
uma empresa competitiva, uma das três maiores empresas de energia do
mundo? Por que mudar o marco?
Lula: Porque você não tem mais contrato de risco. Agora você sabe
que tem petróleo e nós precisamos ser mais donos desse petróleo, afinal
de contas 50% do que foi achado até agora é da União. Nós temos que
saber o que nós vamos fazer com ele. Esses dias eu conversei com o
primeiro-ministro da Noruega e ele me dizia o seguinte: "Olha
presidente, a única coisa que nós queremos saber é se há regras. Lá na
Noruega nós cobramos 78% de imposto. E todo mundo paga, ninguém
reclama". Então, o que nós queremos é ver o que existe no mundo. Todos
os países que encontraram petróleo fizeram mudanças na lei, para se
proteger, fortalecer a sua empresa. E é isso o que nós vamos fazer, e
fazer uma coisa com muito juízo, porque a Petrobras é essa coisa
extraordinária de empresa que nós precisamos fortalecer, aumentar o
capital da Petrobras.
TV Brasil: Aumentar o capital da Petrobras e nada de outra empresa estatal para cuidar do pré-sal?
Lula: Veja bem, quando nós falamos em empresa estatal, nós não
queremos criar uma outra Petrobras. Na verdade, é outra coisa, parecida
com o que acontece na Noruega. É um fundo, uma pequena empresa, na
Noruega deve ter 60 funcionários, que é o Estado cuidando do petróleo.
É essa empresa que vende o petróleo, essa empresa que negocia o preço
do petróleo. É isso o que nós poderemos fazer. Não está certo ainda
porque eu não recebi a proposta.
TV Brasil: Mas já não existe a Agência Nacional do Petróleo para gerenciar essa questão?
Lula: É outra coisa, porque a agência é para regular e a agência
tem uma certa autonomia. O que nós queremos é que a União tome conta
desse petróleo. Tudo o que nós vamos fazer não é uma coisa para o meu
governo, é uma coisa para o futuro, porque nós só vamos tirar esse
petróleo em escala efetivamente de exportação industrial daqui a uns
cinco, seis anos.
TV Brasil: Então está decidido já que vai se criar essa nova empresa com esse objetivo?
Lula: A única coisa que está decidida, uma definição clara, é que
o petróleo é da União. Isso é o que está definido. E portanto a União
tem que cuidar. O que a gente vai fazer, eu vou colher o resultado do
debate. Até porque eu não estou fazendo uma coisa para mim. Eu estou
fazendo uma coisa para esse país e eu quero que todo mundo debata, para
que a gente faça o melhor possível para o país. Daqui a 10, 15 anos,
quando eu já não existir mais, eu quero estar lá no céu, tranquilo de
que o povo brasileiro está usufruindo de uma riqueza que é dele e que
está regulamentada a partir da vontade desse povo. É isso o que eu
quero.
TV Brasil: O senhor disse agora que quer aumentar o capital da
Petrobras. É aumentar a participação da União no capital da Petrobras,
que hoje no capital total é 32% no capital ordinário, com direito a
voto é 55%, ou é fazer uma chamada de capital para que a Petrobras
possa com isso tomar empréstimos e recursos?
Lula: Uma das hipóteses, e eu estou falando só em hipóteses, é
você utilizar uma parte do petróleo para aumentar o capital da União na
Petrobras. Essa é uma hipótese. Como eu só vou receber o estudo depois
do dia 5 de outubro, aí nós vamos começar o debate. Por enquanto,
quando eu falar, quando Dilma [Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil],
quando [o ministro de Minas e Energia Edison] Lobão falar, é tudo
hipótese. Quando eu receber o documento, nós vamos transformar
parte dessas hipóteses em mudanças concretar e ter um debate com a
sociedade brasileira.
(continua)
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