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Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista
exclusiva à TV Brasil que vai ao ar nesta noite, no programa 3 a 1,
acreditar que a proposta enviada pelo governo ao Congresso Nacional
para uma política tributária pode ser votada ainda este ano. De acordo
com Lula, essa proposta é praticamente um consenso entre os setores
envolvidos. “Eu participei de debate com o colégio de líderes, eu
participei de debate com os empresários. Todo mundo concorda com a
política tributária”, disse.
Além disso, o presidente afirmou que o aumento no número de pessoas
na classe média facilita o governo. “Tudo que eu quero na vida é que
todos os governantes governem para um país de classe média”, disse.
Confira abaixo o segundo trecho da entrevista concedida pelo presidente Lula ao jornalista Luiz Carlos Azedo, apresentador do programa 3 a 1, à
diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Helena Chagas, e ao jornalista convidado Cristiano Romero, do jornal Valor Econômico.
TV Brasil: A política do governo é de estimular o
consumo, estimular a utilização do crédito popular, mas tem gente que
gosta de poupar dinheiro para depois comprar, para não pagar prestação.
Nós temos uma pergunta de uma cidadã de Palmas (TO): “Eu gostaria de
perguntar ao presidente porque não foi cumprida a sua promessa de
reduzir as tarifas bancárias e aumentar os juros da poupança”. Luiz Inácio Lula da Silva: Primeiro que eu não me lembro de ter
feito promessa sobre tarifa bancária, mas a verdade é que o Banco
Central e o Ministério da Fazenda estão trabalhando. Já houve várias
reuniões, já foram tomadas medidas para reduzir o custo que os bancos
cobram das pessoas que fazem depósito. E a poupança hoje paga 8,7% com
uma inflação de 6,3%, o que é um ganho razoável se levar em
conta que a poupança é um investimento em que a pessoa não paga imposto
de renda. Obviamente que se a inflação subir, a poupança sobe. O que nós
não queremos é passar a falsa idéia de antigamente. Quando a inflação
estava em 80%, a gente recebia 80% de juros na poupança e achava que
estava ganhando alguma coisa, quando na verdade a gente não estava
ganhando nada. Agora, eu posso dizer para essa poupadora que ela está
ganhando pelo menos 2,5% ao ano do capital que ela poupou.
TV Brasil: Ela tocou num ponto muito importante da classe média. O
senhor assumiu a presidência governando um país de pobres. Hoje os
números da economia mostram que o Brasil é um país onde a maioria é de
classe média. Como será a partir de agora, nesses próximos dois anos,
governar para a classe média? Qual o foco neste setor?
Lula: Tudo o que eu quero na vida é que todos os governantes
governem para um país de classe média. Mas para esse país ser de classe
média, você precisa elevar aqueles que estão no degrau de baixo. E é o
que está acontecendo no Brasil. É muito mais fácil você governar quando
as pessoas ganham mais dinheiro, têm ascensão social, têm casa própria,
um carro. Os problemas vão ficando mais sofisticados e eu acho que é
isso que todo mundo quer para o Brasil. Eu pelo menos não acho isso uma
dor de cabeça, eu acho isso uma coisa extraordinária, perceber que a
parte mais pobre da população está em ascensão nesse momento. E a pauta
de reivindicações é outra. Se você pegar a pauta de reivindicação de um
conjunto de pessoas que trabalham na construção civil e a pauta de
reivindicação de um conjunto de pessoas que trabalham, por exemplo, na
Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] ou numa Volkswagen, vai perceber que a
pauta é totalmente diferente, porque eles estão em estágios sociais
diferentes. E eu fico muito feliz em saber que o povo está tendo uma
ascensão e que agora a gente vai cuidar de discutir mais imposto de
renda, mais a tributação, a gente vai ter que discutir como melhorar a
qualidade da escola, como estamos fazendo. Ou seja, esse é um bom
problema para qualquer governo, lidar com gente que está comendo.
TV Brasil: Já que esse é um bom problema para o
senhor, o governo mandou para o Congresso um projeto de reforma
tributária e não fala de imposto de renda, não aborda a questão do
imposto de renda, que é um imposto no qual a classe média se sente
super taxada, não só por ele, mas também pelos impostos indiretos. O
governo também enviou ao Congresso a proposta de recriação da CPMF
(Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), só que agora
com um outro nome. Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre isso.
Quando o governo, não só esse, mas também outros governos propuseram ao
Congresso a reforma tributária, no final, o que se pediu ao Congresso
para aprovar foi justamente o imposto sobre o cheque, que inclusive é
considerado um imposto injusto, porque ele é regressivo e atinge todas
as pessoas, tendo conta bancária ou não, pois os empresários incluem
isso nos preços dos seus produtos.
Lula: Você não pode ser injusto comigo. O governo não mandou
proposta para o Congresso Nacional. O Congresso Nacional, através dos
senadores e deputados, fez um projeto de lei para criar uma taxa ligada
diretamente à área da saúde. E mandamos [o governo] uma política
tributária para o Congresso Nacional, que é uma política tributária
quase que consensual, porque eu participei de debate com o colégio de
líderes, eu participei de debate com os empresários. Todo mundo
concorda com a política tributária. Agora, entre concordar e votar lá,
tem uma diferença enorme. Eu estou convencido que nós votaremos esse
ano essa política tributária. Agora, vamos ser francos, eu sempre disse
que no Brasil, quem paga imposto de renda é quem vive de salário. Nós
pagamos 27,5%, pagamos em cascata, no fundo ninguém paga 27,5% do valor
que ganha. As pessoas que são contratadas como empresa, como pessoa
jurídica, pagam 15%. É uma coisa engraçada. Você pega os países ricos,
eles têm uma taxa de tributos alta. Os países pobres têm uma taxa de
tributos baixa. Você pega a carga tributária de um país aqui na América
Latina, é 12%. Maravilhoso, só que não pode investir em educação, não
pode investir em saúde, o Estado está praticamente atrofiado. Nós aqui
no Brasil temos uma política tributária alta. Já reduzimos, por
desoneração, mais de R$ 40 bilhões. Agora você veja, eu acho um
absurdo, porque quando tira a CPMF você deveria fazer um artigo
procurando qual o empresário que reduziu em 0,38% [o preço] do produto
que ele fabrica, porque não está pagando a CPMF. A verdade é que aquele
imposto era um imposto justo. E ele cobrava das pessoas que tinham
mais. Nós queríamos que esse imposto fosse todinho para a saúde, para
ver se a gente leva a saúde brasileira a um patamar de qualidade
invejável. Lamentavelmente não foi para a saúde, não foi aprovado. Nós
tínhamos feito o lançamento do PAC da Saúde, onde nós prevíamos colocar
mais R$ 24 bilhões, não foi possível, agora estamos colocando aos
poucos, para a gente poder melhorar a saúde.
TV Brasil: Presidente, nós temos uma pergunta agora de Rio Branco,
no Acre: “Eu gostaria de saber por que o salário mínimo ainda é tão
baixo”.
Lula: Eu acho que o salário
mínimo é baixo aqui no Brasil e é baixo em qualquer país do mundo. É
por isso que ele se chama salário mínimo. É aquilo que o Estado
brasileiro pode pagar para todas as pessoas que recebem o salário do
governo, sobretudo o salário que recebe da Previdência Social. Um
grande número de empresas no Brasil já não paga mais o salário mínimo,
já paga um pouco além. E nós estamos trabalhando nesses cinco anos para
aumentar o salário mínimo. É importante lembrar que ele teve um aumento
real de mais de 50%. E está no Congresso Nacional um projeto de lei
para que a gente reajuste todo ano automaticamente o salário mínimo com
relação ao PIB (Produto Interno Bruto) e com relação à inflação.
Criarmos uma média para aumentar, para não ter que ficar discutindo
salário mínimo todo ano. Foi um acordo proposto pelo movimento
sindical, e eu espero que o Congresso Nacional aprove, porque isso
seria extraordinário para os trabalhadores que ganham o salário mínimo
daqui a alguns anos terem o seu poder aquisitivo bem mais elevado.
TV Brasil: O senhor vai vetar a mudança do fator previdenciário,
que vincula a elevação do salário mínimo ao reajuste das
aposentadorias?
Lula: Se for aprovado no Congresso o acordo entre os líderes,
certamente que eu não vetarei. Agora, o Ministério da Fazenda está
discutindo isso com a Câmara dos Deputados, para mostrar o que implica
isso no custo da Previdência. Porque o governo não quer dar mais ou não
quer dar menos, o governo quer fazer aquilo que é possível fazer. Se
nós temos uma arrecadação para a Previdência Social e você aprova uma
coisa que significa aumentar o custo da Previdência Social, você tem
que se perguntar sempre de onde se vai tirar o dinheiro para pagar.
Essa é uma pergunta que todo mundo tem que fazer, os deputados, os
senadores. E eu não tenho que fazer a pergunta, eu tenho que dizer
"posso" ou "não posso". Se tiver dinheiro em caixa, você pode. Se não
tiver, você não pode. E você sabe que eu não tenho medo de vetar aquilo
que tem que ser vetado, porque eu não vou ser irresponsável de prometer
pagar uma coisa que depois eu quebro o Estado brasileiro e o
prejudicado será o próprio trabalhador. Quando a gente está no
Congresso, eu já fui congressista, a gente fica "eu acho, eu penso, eu
acredito". Naquela mesa do presidente você não acha, não pensa nem
acredita. Você veta ou não veta.
(continua)
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