| |
17 de Setembro de 2008 - 22h00 -
Última modificação
em 18 de Setembro de 2008 - 14h28
"Não vamos tomar nenhuma medida precipitada", diz Lula sobre a crise mundial
Ana Luiza Zenker
Repórter da Agência Brasil
|
|
|
Domingos Tadeu/PR
| |
Brasília - Entrevista do presidente Lula ao Programa 3 a 1, da TV Brasil, no Palácio da Alvorada
|
Brasília - O Brasil está preparado e não deve sofrer muito com a crise no mercado
financeiro dos Estados Unidos. Foi o que afirmou hoje (17) o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista exclusiva à TV Brasil, que vai
ao ar nesta noite no programa 3 a 1. Lula também afirmou que o governo
está trabalhando para que o Brasil continue crescendo, mas sem
descuidar do controle da inflação.
Confira abaixo a primeira parte da entrevista concedida pelo presidente Lula ao jornalista Luiz Carlos Azedo, apresentador do programa 3 a 1, à
diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Helena Chagas, e ao jornalista convidado Cristiano Romero, do jornal Valor Econômico.
TV Brasil: Presidente, a situação mundial é de crise,
principalmente por causa da situação do mercado financeiro nos Estados
Unidos. O Brasil está preparado para enfrentar essa situação sem
recessão, sem quebradeira dos bancos? Que providências o governo
está tomando?
Luiz Inácio Lula da Silva: O governo está preparado e o Brasil
está preparado. Obviamente que nós sempre levamos em conta que, tendo
recessão nos EUA, vai ter um abalo em todos os países, afinal de contas
é a maior economia do mundo. Mas o Brasil nunca esteve tão preparado
como está hoje. O Brasil diversificou a sua balança comercial. Nós, que
tínhamos uma dependência de quase 30% da balança comercial com os
Estados Unidos, hoje temos apenas 15%, embora ela tenha crescido mais
de 15% ao ano. Nós diversificamos para a América Latina, para a América
do Sul, para a África, para o Oriente Médio, para a Ásia. O Brasil hoje
é menos dependente da relação comercial com os Estados Unidos, se bem
que ainda é um parceiro muito importante.
TV Brasil: O governo tomará medidas para reduzir um possível
impacto, como por exemplo, havendo restrição de crédito externo,
providenciar mais crédito interno?
Lula: Nós não vamos tomar nenhuma medida precipitada. Nós estamos
acompanhando isso com lupa. O [presidente do Banco Central, Henrique]
Meirelles está viajando para Nova York, tenho conversado com o ministro
[da Fazenda] Guido Mantega todo dia. Na medida em que for necessário,
nós vamos tomar medidas. Obviamente que, se rarear o crédito
internacional e os empresários brasileiros tiverem dificuldade para
tomar dinheiro emprestado, nós vamos ter que tomar uma decisão de
arrumar mais dinheiro para que o BNDES [Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social] possa emprestar. O dado concreto é
que nós temos muitos investimentos já contratados, com financiamento
garantido e certamente isso não irá sofrer nenhuma consequência. Eu
queria ressaltar que o Brasil está numa situação privilegiada com
relação à crise americana. Não é que a gente não deva ter cuidado. Mas
até agora as coisas estão andando bem, os bancos brasileiros não estão
metidos no subprime [categoria de hipoteca que gerou a crise no mercado imobiliário], portanto é uma tranquilidade para o Brasil. Mas
se sabe que todo cuidado é pouco.
TV Brasil: A economia brasileira está crescendo basicamente puxada
pela taxa de investimentos. É até um dado positivo, os investimentos
das empresas em máquinas e equipamentos estão crescendo numa velocidade
duas vezes e meia maior que a do PIB [Produto Interno Bruto], ou seja,
o primeiro efeito dessa crise sobre o Brasil já é visível, que é
justamente a escassez de crédito. As empresas brasileiras não vão ter
tanto acesso a recursos no exterior como vinham tendo. O BNDES por sua
vez está emprestando, tem esse ano uma carteira de R$ 84 bilhões
aprovada para emprestar, mas faltam recursos. O senhor considera por
exemplo aumentar o capital do BNDES para que ele possa continuar
emprestando no mesmo ritmo?
Lula: Nós já tomamos a decisão de emprestar mais R$ 15 bilhões
para o BNDES e também de pegar o fundo que nós criamos de
desenvolvimento com o dinheiro do Fundo de Garantia [por Tempo de
Serviço, FGTS] para repassar uma parte para o BNDES fazer os
investimentos. Nós estamos cuidando de garantir que as coisas aconteçam
e sabemos que empresas grandes como a Petrobras, a Vale do Rio Doce
precisam de financiamento externo, mas na hora em que ele rarear nós
vamos ter inclusive que mudar as normas do BNDES, que não pode
emprestar uma determinada quantidade de dinheiro só para uma empresa,
para que ele possa aumentar o volume de dinheiro emprestado. Uma coisa
que é importante o povo brasileiro ter clareza é que nós não queremos
em hipótese alguma brecar o crescimento da economia. Nós estamos com um
mercado interno sólido, ele dá substância à nossa economia e nós
queremos que continue fortalecido. Por isso eu acho que o Brasil vai
passar por essa sem sofrer as consequências que sofreria em outros
momentos, quando nós estávamos mais débeis. Dessa vez, sem passar
nenhum otimismo exagerado, eu acho que o Brasil está seguro, até porque
temos um colchão de US$ 205 bilhões de reserva. E não queremos mexer na
nossa reserva por conta disso. O que nós queremos é continuar fazendo a
economia crescer, que o povo continue consumindo, continue comprando,
porque aí nós vamos dar solidez à nossa economia.
TV Brasil: A economia está crescendo a uma taxa de 6% ao ano neste
momento. Mas dado esse ciclo de aperto monetário que o Banco Central
iniciou em abril, o mercado já espera uma redução do crescimento no ano
que vem para algo entre 3% e 4%. Como o senhor está olhando
essa possibilidade?
Lula: Eu penso que o mercado vai ser surpreendido. Todo mundo sabe
que as medidas tomadas pelo Banco Central e as medidas também tomadas
pelo Ministério da Fazenda tinham como objetivo reduzir um pouco a
demanda, porque ela estava muito aquecida. E nós começamos a ficar
preocupados porque na hora em que aumenta a demanda e você não tem a
oferta, você pratica uma coisa que eu não quero, que é a inflação. Como
nós temos muitos investimentos contratados, alguns em andamento, a
nossa expectativa é que num curto prazo essas empresas que estão
aumentando a sua capacidade de produção, e que hoje significam aumento
de demanda, daqui a um ano estarão colocando o produto na rua, vão
passar a ser oferta, e isso pode equilibrar a nossa economia, para que
a gente não tenha nenhuma preocupação. Os preços internacionais dos
alimentos estão caindo, a inflação já está reduzindo, estamos a uma
taxa de 6,3%. O Brasil é o único país do mundo que está dentro da meta
ainda, nós vamos perseguir essa meta e vamos manter, porque eu sei
o que significa a inflação controlada nesse país.
TV Brasil: Então a prioridade é controlar a inflação, não é o
crescimento? O crescimento vai ser condicionado ao controle da
inflação? Essa é a orientação?
Lula: As duas coisas são prioridade. E nós estamos provando que é
possível a economia crescer, é possível distribuir renda e é possível
controlar a inflação. Estamos provando que é possível exportar, ao
mesmo tempo importar, crescendo o mercado interno. Esse é o sucesso da
política econômica, é que você não precisa travar. Se você está tomando
dois comprimidos, você pode tomar apenas um e meio. Aí nós vamos
permitir que haja um ciclo duradouro de crescimento. É com essa
hipótese que eu trabalho: o Brasil crescer 10 ou 15 anos a taxas entre
4% e 6%, um crescimento extraordinário. Isso significa aumento da
massa salarial, aumento de emprego. De janeiro a agosto nós criamos 1,8
milhão de empregos. Vamos chegar em dezembro com mais de 2 milhões de
empregos. Se vocês pegarem a retrospectiva, vão perceber que há muitas
décadas o Brasil não tinha uma situação privilegiada como essa que nós
estamos vivendo agora.
(continua)
|
|
|
LEIA MAIS SOBRE OS ASSUNTOS
|
|