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21 de Setembro de 2008 - 13h07 -
Última modificação
em 23 de Setembro de 2008 - 09h52
Mangabeira considera regularização fundiária o maior problema na Amazônia
Alex Rodrigues
Repórter da Agência Brasil
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Valter Campanato/ABr
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Brasília - O ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, concede entrevista à Agência Brasil
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Brasília - Na última parte
da entrevista concedida à Agência Brasil, o ministro de
Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, explica as medidas
propostas no Plano Amazônia Sustentável (PAS) para
resolver o problema fundiário na região.
Segundo ele, seriam organizadas e regularizadas propriedades abaixo de 1500 hectares, criando condições
para que o Estado brasileiro retome as áreas ilegalmente
ocupadas acima de 2500 hectares.
Numa primeira fase, propriedades
entre 1500 e 2500 hectares "ficariam em um limbo", não sendo
retomadas, mas também não seriam regularizadas.
A
conseqüência disso, na prática é que seria construído um
modelo econômico e social que privilegia o pequeno e o médio
produtor, resistindo às tendências de concentração
das propriedades, predominante durante toda a história do país.
"Seria absurdo caracterizar isso como favorecimento à grilagem.
Pelo contrário. Estamos falando de um ato de justiça
histórica que finalmente criará condições
para tornar a preservação ambiental e a produção
sustentável mais proveitosa do que o saque".
Agência
Brasil: Qual a real dimensão do problema fundiário
na Amazônia? Mangabeira Unger: De todos os
problemas locais, que são vários, o maior é o da
regularização fundiária. Menos de 4% das terras
em mãos de particulares na Amazônia têm sua
situação jurídica esclarecida. Há um caos
fundiário que resulta em males enormes, suscitando a
violência, consagrando a grilagem e tornando o saque mais
proveitoso do que a preservação e a produção.
Ninguém vai investir em preservação ou em
produzir se não confia na continuidade de seu controle sobre a
terra. Toda a população da Amazônia se sente
chantageada, já que sua base física não está
segura, estando sujeita ao vaivém das pressões
econômicas. Temos que acabar com isso.
ABr: E
como fazer isso? Mangabeira: Estou trabalhando com os
ministros que compõem a Comissão Interministerial de
gestão do Plano Amazônia Sustentável (PAS) e com
os nove governadores amazônidas [da região] para
desdobrar o plano em iniciativas concretas. Já há um
consenso de que a prioridade na região é resolver o
problema fundiário, sem o que não conseguiremos avançar
em nenhum dos outros eixos.
ABr: Que outros eixos, ou
problemas, seriam esses? Mangabeira: Os eixos
escolhidos para esse desdobramento são a regularização
fundiária e o zoneamento ecológico e econômico
regional. O segundo é o combate ao desmatamento à
partir da construção de um regime de leis praticáveis
que permitam que, preservada, a floresta tenha mais valor que
derrubada. O terceiro eixo é assegurar alternativas
ambientalmente seguras e economicamente viáveis às
populações de pequenos produtores que atuam na zona de
transição entre a floresta e o Cerrado. O quarto eixo é
a reconstrução da agricultura brasileira na Amazônia
Legal e no Cerrado, democratizando-a e agregando-lhe valor. O quinto
eixo é o regime de incentivos à criação
de pólos industriais. Há ainda as medidas para o
transporte multimodal, para que superemos o isolamento amazônico.
Por fim, tratamos também de investimentos em ciência,
capacitação e ensino. Queremos identificar algumas
microrregiões onde possamos adensar [implementar] essas
iniciativas.
ABr: A “reinvenção da
agricultura” e a instalação de pólos
industrias na Amazônia com certeza provocarão grande
polêmica. Mangabeira: Estamos convictos de que
podemos dobrar a área atualmente cultivada e triplicar nosso
produto agrícola sem tocar em uma única árvore.
Quanto aos pólos industriais, na Amazônia florestada
seriam instaladas indústrias capazes de transformar produtos
madeireiros e não-madeireiros, produzindo tecnologias
apropriadas ao manejo sustentável. Já na região
amazônica de Cerrado seriam instaladas indústrias que
agreguem valor à transformação de produtos
agrícolas e minerais.
ABr: Voltando à
regularização fundiária, o senhor chegou a
propor ao presidente Lula a criação de uma nova
autarquia federal que cuidasse exclusivamente do tema na Amazônia.
Posteriormente, o senhor disse ter sido convencido de que havia outra
opção melhor. Em que ponto está essa
discussão? Mangabeira: Havia duas teses
iniciais. Uma era reforçarmos o Incra [Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária] com mais recursos
financeiros e humanos para que ele mesmo, em colaboração
com os institutos de terra estaduais, fizesse a regularização.
A segunda sugestão, apresentada por mim, era estabelecer uma
autarquia diretamente ligada à Presidência da República
que, também em colaboração com os governos
estaduais, cuidasse do tema. Na penúltima quinta-feira [11],
governadores e ministros chegamos a um consenso sobre como resolver
esse problema.
ABr: A criação de uma
agência “enxuta”, ao invés da autarquia que o senhor
havia sugerido? Mangabeira: Sim. Um defeito da minha
sugestão é que demoraria tempo para criar, dotar dos
recursos humanos necessários e colocar em funcionamento uma
autarquia como a que eu propunha. Durante a discussão com os
governadores surgiu a sugestão de que organizemos uma entidade
leve e enxuta que trabalhe em parceria com os estados fazendo a
regularização fundária. Essa agência
funcionaria nos moldes do Inmetro [Instituto Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial].
Os governadores me convenceram de que esta sugestão é
melhor que a minha.
ABr: Mas o Inmetro é uma
autarquia vinculada Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior. Mangabeira: Há ainda
certas sutilezas jurídicas que precisam ser discutidas. Pelo
direito público brasileiro uma agência tem que ser ou
uma autarquia ou uma fundação pública.
Provavelmente seria uma autarquia, mas de natureza diferente da que
eu havia sugerido anteriormente. Ela não faria o trabalho na
base, que seria realizado pelos estados. A função desse
órgão seria coordenar, apoiar, monitorar e, em algumas
circunstâncias, transferir terras públicas para os
estados. Como nenhuma dessas tarefas envolvem a execução
direta da regularização, ela não exigiria grande
estrutura humana ou financeira, mas sim uma enorme capacidade de
gestão.
ABr: O senhor então está
convencido de que o Incra, da forma como está organizado hoje,
não daria conta de resolver o problema da legalização
das propriedades na Amazônia? Mangabeira: O Incra
tem responsabilidades nacionais e, ao longo de sua trajetória,
seu foco principal se tornou a reforma agrária e a política
de assentamentos e não a regularização
fundiária. Como temos pressa para encontrar uma solução
para o problema, me pareceu que precisamos de uma entidade que cuide
somente da regularização fundiária. Também
já há consenso de que só vamos solucionar o
problema dando um papel central aos estados e aos seus institutos de
terra. O governo federal não vai conseguir resolver esse
problema sozinho.
ABr: Então basta criar um
novo órgão para solucionar um problema que se arrasta
há tanto tempo? Mangabeira: Não. A
solução contempla pelo menos quatro componentes, sendo
que o mais importante deles é a simplificação
das leis, das regras e dos procedimentos de regularização
fundiária na Amazônia. Isso é um consenso.
Independente de quem seja o agente institucional responsável
por regularizar a posse das terras, nenhuma medida vai resolver o
problema se não mudarmos as leis. Há um emaranhado de
regras que impedem a regularização fundiária.
Esse é, de longe, o aspecto mais importante da discussão
e pensamos em sugerir mudanças em três níveis,
feitas de uma só vez.
ABr: Que mudanças
seriam essas? Mangabeira: Precisamos saber quem são
os titulares das terras, esclarecendo inclusive quando proprietário
é o governo federal, o estadual ou o municipal. Sequer isso
está claro em grande parte do território amazônico.
Depois temos que acelerar a legalização das posses
inseguras, resolvendo o problema fundiário de forma sistêmica.
Não se consegue regularizar uma propriedade sem resolver os
problemas fundiários de todas as propriedades circundantes.
Também temos que ordenar as medidas administrativas e os
recursos judiciais sem ferir o direito constitucional de alguém
recorrer à Justiça quando se sentir prejudicado. Hoje,
quando um território está em vias de ser regularizado,
alguém recorre a um juiz e consegue uma liminar que paralisa
todo o processo. Algumas normas de georeferenciamento também
têm que ser revistas, já que o tornam ineficazes.
ABr:
Quais os prováveis efeitos da aplicação dessas
medidas? Mangabeira: Organizaríamos a regularização
de propriedades abaixo de 1500 hectares, criando condições
para que o Estado brasileiro retome as áreas ilegalmente
ocupadas acima de 2500 hectares. Numa primeira fase, propriedades
entre 1500 e 2500 hectares ficariam em um limbo, não sendo
retomadas, mas também não seriam regularizadas. A
consequência prática é que iremos construir um
modelo econômico e social que privilegia o pequeno e o médio
produtor, resistindo às tendências de concentração
das propriedades, predominante durante toda a nossa história.
Seria absurdo caracterizar isso como favorecimento à grilagem.
Pelo contrário. Estamos falando de um ato de justiça
histórica que finalmente criará condições
para tornar a preservação ambiental e a produção
sustentável mais proveitosa do que o saque.
ABr:
Durante sua primeira viagem à região amazônica,
em janeiro deste ano, antes mesmo de assumir a coordenadoria do Plano
Amazônia Sustentável (PAS), o senhor discutiu com os
governadores locais algumas propostas de desenvolvimento econômico
para a região. Na ocasião, o senhor já destacava
a importância de que as intenções fossem
transformadas em ações concretas para engajar a
sociedade. De lá para cá, o senhor assumiu outras
atribuições e passou a apresentar propostas para a
estratégia de defesa nacional, para a educação e
até mesmo para políticas sociais do governo. Quantas
dessas sugestões já foram colocadas em prática e
quais seus efeitos? Mangabeira: Inicialmente, ao
assumir a Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu apenas
formularia um projeto conceitual a respeito do futuro. Só que
eu concluí que se fizesse apenas isso, tudo ficaria apenas no
papel. Então, reorientei meu trabalho para a definição
de uma série de iniciativas que encarnassem um novo modelo de
desenvolvimento e que devem ser construídas em colaboração
com os demais ministros, governadores e com a sociedade. Em um
segundo momento, recebi do governo responsabilidades mais concretas
em relação à Amazônia [a coordenadoria
do PAS] e à Defesa [a coordenadoria do comitê
interministerial responsável por elaborar o Plano Estratégico
de Defesa Nacional]. Minha pasta não tem nenhum recurso
orçamentário, nenhum poder normativo. Eu não
posso baixar portarias. Tudo que eu posso fazer é propor e
colaborar. É isso que eu estou fazendo. Algumas dessas
iniciativas estão mais próximas de serem implementadas
do que outras, mas todas compõem um ideário de
reconstrução do nosso modelo de desenvolvimento. Minha
grande aflição é ver essa dinâmica
iniciada.
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