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São Paulo - O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio
Meira, respondeu, nessa segunda-feira (29), a acusações de que não estaria cumprindo acordo firmado com o governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli
(PMDB), sobre a realização de estudos antropológicos na região sul
do estado. “Isso não é verdade”, disse ele, em entrevista à Agência Brasil. Meira reafirmou que o
trabalho de antropólogos da Funai está suspenso até a publicação de uma nova
instrução normativa pela fundação, assim como o acordado com o governo
sul-mato-grossense no último dia 15, ao contrário do que têm afirmado
representantes de sindicatos de produtores rurais do estado. Segundo ele, “contra-informações” têm sido criadas para
prejudicar o andamento de estudos da Funai para identificação de terras
indígenas da etnia Guarani Kaiowá. Sem citar nomes, Márcio Meira disse que algumas
pessoas de má-fé também estariam aproveitando o momento eleitoral para
tumultuar ainda mais a discussão sobre o assunto. “Há gente de má-fé que quer ver o circo pegar fogo,
principalmente, em época de eleição”, disse ele. “Tem gente que não está
interessada em pacificar os ânimos por lá [em Mato Grosso do Sul]” Agência Brasil: Sindicatos de produtores rurais de Mato Grosso do Sul têm
afirmado que os estudos da Funai não foram suspensos, como previa o acordo
firmado com o governo do estado. Antropólogos da Funai teriam sido vistos na
região. Márcio Meira: Isso não é verdade. Os estudos estão suspensos
até a publicação de uma instrução normativa que vai detalhar os trabalhos.
Muitos antropólogos contratados pela Funai para realizar os levantamentos
também trabalham para a fundação em outros projetos. Os antropólogos que permanecem
na região estão trabalhando nesses projetos. Inclusive, a presença deles está
servindo para explicar aos índios que os trabalhos estão suspensos. Os
índios também perguntam como andam os estudos. ABr: Por que existe este desencontro de informações? Meira: Há gente de má-fé que quer ver o circo pegar fogo,
principalmente, em época de eleição. Temos uma eleição daqui a uma semana. Tem
gente que não está interessado em pacificar os ânimos por lá [em Mato Grosso
do Sul]. ABr: O que a eleição tem a ver com a discussão sobre os
estudos antropológicos da Funai? Meira: Os índios também votam, também têm um peso grande nas
eleições da região. O desencontro de informações pode criar uma contra-informação, que pode favorecer um candidato ou outro. Essa contra-informação pode também atender à vontade de um setor que não quer que
o acordo dê certo. ABr: Afinal, o que foi acordado entre governo do estado e
Funai? Meira: Que caberá à Funai publicar uma instrução normativa
esclarecendo exatamente qual é função dos grupos de trabalho criados nas
portarias publicadas pela fundação. A instrução vai servir para esclarecer
pontos duvidosos. Isso foi feito porque havia um entendimento do setor
produtivo de que estss grupos estariam demarcando terras, o que não é verdade.
Também ficou acordado que os grupos só vão atuar a partir do momento em que
essa instrução estiver publicada. ABr: O que também foi dito e que não é verdade? Meira: Primeiro, que os grupos estariam demarcando terras em
26 municípios onde eles têm que fazer os estudos, inclusive dizendo que eles
estariam demarcando 12 milhões de hectares. Os grupos não demarcam nada. Também
é preciso esclarecer que os grupos não fazem vistorias em terras privadas de
ninguém. As aldeias são o objeto desse estudo. Não há vistoria em nenhuma
propriedade. ABr: Qual é o trabalho dos antropólogos? Meira: O trabalho é técnico para identificação de costumes
dos índios para que possamos, a partir daí, definir as áreas passíveis de
identificação como terras indígenas. Mas ainda não temos nenhuma idéia da
quantidade de terras que isso vai envolver. O momento seguinte, que prevê a
delimitação das áreas necessárias para os índios, ocorrerá após os estudos.
Nele, todos os atores terão o direito de contestar os resultados dos
levantamentos. ABr: Como será feita a indenização dos proprietários? Isso
entra na instrução normativa? Meira: Isso não entra na instrução normativa, até porque
existe uma base legal que impede. O que ficou acertado no acordo é que vamos
buscar - governo de Mato Grosso do Sul e governo federal - mecanismos para que os proprietários
de boa-fé que eventualmente sejam afetados pelas identificações possam receber
por além das benfeitorias, o que a Funai já paga. ABr: A Constituição não veda o pagamento de indenização que
não seja pelas benfeitorias? Meira: O que a Constituição reza é que cabe à Funai pagar as
indenizações pelas benfeitorias de boa-fé. Isso cobre só a casa, cabeças de
gado, plantação etc. Não cobre a terra. O que estamos discutindo é como o
estado de Mato Grosso do Sul pode definir outra forma de indenizar os proprietários pela terra. Os proprietários foram levados lá pelo processo de
colonização do estado de Mato Grosso, na época de Getúlio Vargas. Se foi o
estado que fez isso, o próprio estado pode definir uma forma de indenização por
danos que esses proprietários tiverem. O Rio Grande do Sul, por exemplo, pagou
as indenizações que vão além das benfeitorias. A Constituição impede que a
Funai pague, mas não impede que os estados paguem. ABr: A situação dos índios Guarani Kaiowá está entre as
piores do país? Meira: Há outras regiões do Brasil onde a violência contra
os índios é muito grave. O Mato Grosso do Sul, com certeza, é uma dessas
regiões. Existem 40 mil guaranis vivendo em 40 mil hectares de terra. Há um confinamento muito grande. Também existe preconceito, racismo e intolerância.
Por isso, que temos que resolver isso. ABr: A demarcação dessas terras seria a solução? Meira: Tenho dito que a solução das terras indígenas na
região é a solução para a área como um todo. Ela resolve tanto o problema dos
índios quanto o dos não-indígenas, pois dará a segurança jurídica necessária para
todos desenvolverem seu trabalho. Os índios saberão quais são suas terras, onde
elas começam e terminam, e os fazendeiros saberão onde começam e terminam suas
terras para produzir à sua maneira. Os índios não querem virar brancos. Eles
querem continuar a ser índios e têm esse direito. ABr: É possível resolver a questão fundiária dos índios sem
prejudicar a produção de Mato Grosso do Sul? Meira: O Mato Grosso do Sul, o Brasil, têm terra
suficiente para produzir e se desenvolver. Nós temos condição de aumentar a
produtividade em áreas que não são terras públicas, que não são terras
indígenas ou unidades de conservação. Há áreas disponíveis no Brasil para
aumentar essa produtividade e sem prejuízos a terras indígenas. Não é uma
questão onde, ou é uma coisa ou outra. A questão é como vamos conciliar uma
coisa e outra respeitando nossa diversidade cultural e meio ambiente. É o como
fazer. Esta é a nossa posição e a do governo federal.
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