|
Curitiba - O anúncio oficial de que o Brasil desenvolveu a primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas, resultado de dois anos
de pesquisas de cientistas da Universidade de São Paulo (USP), será em Curitiba, durante o simpósio internacional que a
Associação Brasileira de Terapia Celular, a Fiocruz
e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) promovem nos próximos três dias.
A linhagem, grupo de células-tronco de um
único embrião capaz de replicação in vitro, foi desenvolvida sob a coordenação da geneticista Lygia
da Veiga Pereira. Até o momento, o
Brasil dependia de doações de células-tronco embrionárias
de pesquisadores do exterior.
Segundo o coordenador de Ensino e Pesquisa
em Cardiopatias do Ministério da Saúde e coordenador de Ensino e Pesquisa do
Instituto Nacional de Cardiologia Laranjeiras, Antonio Carlos Campos Carvalho, a
dependência da importação dos reagentes de outros países era um processo complicado.
“Às vezes as células
ficam retidas nos aeroportos podendo prejudicar suas condições”,
disse.
Para o coordenador, a disponibilidade de uma linhagem
celular no Brasil vai facilitar o trabalho de todos os laboratórios que lidam
com células-tronco em terapias celulares.
“É um
passo importantíssimo de domínio de uma tecnologia que já estava implantada no
exterior desde 1998, mas que sofreu
atraso aqui por restrições da legislação
brasileira”, explicou.
A legalização das pesquisas com embriões humanos, em 2005, pela
Lei de Biossegurança, foi questionada na Justiça e só em maio deste
ano teve a liberação do Supremo Tribunal Federal.
“Os pesquisadores brasileiros conseguiram produzir
uma linhagem em condições livres de contaminantes animais. Os reagentes usados
são bem definidos, o que representa um
avanço em termos de uma possível futura utilização dessas células na área médica”, enfatizou.
Porém, ele pede cautela em relação à descoberta que
considera importante do ponto de vista de
desenvolvimento tecnológico.
“Nos
deixa livres de patentes de propriedades intelectuais”, afirmou. Entretanto, não se trata de uma descoberta científica,
“na realidade é o desenvolvimento de um processo tecnológico, um importante domínio tecnológico”.
Carvalho lembrou que ainda não existe estudo clínico sendo feito com o uso das células-tronco embrionárias
humanas. Existem três pedidos de autorização para esse tipo de estudo para células diferenciadas
feitos por companhias norte-americanas, da Califórnia, junto ao Food
and Drug Administration (FDA), mas até o momento nenhum ensaio foi autorizado.
“Todo esse cuidado é pelo enorme potencial de
proliferação e de diferenciação que essas células têm. Não devemos correr o
risco de ao tentar produzir um neurônio conseguir um osso. A comunidade médica tem
que ser muito cautelosa na utilização de
qualquer tipo de célula porque antes é preciso que se chegue a ensaios clínicos, de uma margem de segurança muito grande,
senão em vez de benefícios podemos ter prejuízos”, advertiu.
O coordenador acredita
que ainda levará uns cinco anos para que
os ensaios clínicos aconteçam. “O momento é de pesquisa nessa área e cautela é muito importante. Como qualquer célula
que precise ser cultivada por um longo tempo, pois há o risco de acontecer alterações
durante o processo e as células serem transformadas, o que poderia até induzir a tumores”, afirmou.
Mas, de acordo com ele, a descoberta da primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas coloca o Brasil no mapa dos países que já desenvolvem esse tipo de pesquisa. “Já
estávamos no mapa dos que fazem pesquisa
com células-tronco adultas em terapias celulares”.
E é também, segundo o coordenador, uma resposta da comunidade científica e acadêmica
aos investimentos feitos na área, principalmente pelo Ministério da Saúde. “Só no edital do CNPq [Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que esse projeto foi
aprovado, foi liberado em torno de R$
10 milhões.”
|
|