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Curitiba - A produção
da primeira linhagem de células-tronco embrionárias
humanas com tecnologia totalmente brasileira foi anunciada
oficialmente hoje (1º), em Curitiba, durante o III Simpósio
Internacional de Terapia Celular. Após dois anos de pesquisa
e 35 tentativas, cientistas da Universidade de São Paulo e do
Instituto de Ciências Biomédicas do Rio de Janeiro
obtiveram a primeira linhagem de células-tronco estáveis
da América Latina.
Os resultados positivos
foram conhecidos há três meses e agora confirmados. As
células foram obtidas de embriões que estavam
congelados em clínicas de fertilização in
vitro, doados para pesquisa com a autorização dos
genitores.
Segundo Stevens Rehen,
do Instituto de Ciências Biomédicas do Rio de Janeiro e
um dos responsáveis pela pesquisa coordenada pela cientista
Lygia da Veiga Pereira, durante o processo as células foram
multiplicadas e testadas para ver se realmente eram capazes de se
transformar em qualquer tecido do corpo humano – pluripotentes.
“Antes desse avanço,
os pesquisadores brasileiros interessados em trabalhar com células
embrionárias humanas eram obrigados a importar linhagens
congeladas. Cada tubinho de células ficava em torno de US$ 1,5
mil , muitas vezes perdidos porque ficavam retidos em alfândegas”,
ressaltou o pesquisador.
O uso de embriões
humanos em pesquisas foi legalizado no Brasil, em 2005, pela Lei de
Biossegurança. A partir daí, segundo Stevens, a equipe
começou as pesquisas com recursos do Ministério da
Saúde. A primeira linhagem celular de embriões
humanos foi divulgada em 1998, por cientistas da Universidade de
Wisconsin-Madison (EUA).
Para o pesquisador, a
descoberta é um passo importante para a autonomia das
pesquisas com células-tronco no Brasil. As células
continuarão agora a ser multiplicadas in vitro e
distribuídas amostras, através da Rede Nacional de
Terapia Celular, do Ministério da Saúde, para
pesquisadores que quiserem trabalhar com elas. São
“imortais” e podem ser multiplicadas indefinidamente sem perder
as características.
O pesquisador define a
descoberta como um fato histórico, de autonomia
biotecnológica. Disse ainda que se trata de pesquisa básica,
mas que permitirá aos cientistas trabalhar numa área
que terá impacto muito grande, futuramente, na medicina
regenerativa. ‘O desafio de transformar a célula em qualquer
coisa, em neurônio, osso, é um desafio que o mundo
inteiro tem para gerar um tipo de célula necessária
para curar determinadas doenças”, afirmou
Segundo ele, é
importante trabalhar com as células-tronco adultas e também
com as embrionárias. Agora, o Brasil, que tem pesquisadores de
reconhecida competência, vai trabalhar nas duas áreas.
“O domínio dessa tecnologia mostra um avanço
científico muito importante para o Brasil.”
Uma aplicação
imediata da pesquisa poderá ser sentida no desenvolvimento de
novos medicamentos. “Podemos agora pegar um neurônio humano e
na placa de cultura colocar um determinado medicamento para ver se
ele tem efeito benéfico para determinada patologia. Isso é
um avanço significativo. Investigar novos remédios
sem precisar testá-lo no paciente é uma forma indireta
da pesquisa chegar à população”, disse
Stevens.
De acordo com ele, o
uso dessas células diretamente por médicos para curar
doenças ainda vai demorar. Não existe ainda nenhum
estudo clínico sendo feito no mundo com o uso das
células-tronco embrionárias humanas. Existem apenas
pedidos de autorização de estudos clínicos para
células diferenciadas, feitos por companhias americanas, junto
ao Food and Drug Administration (FDA), mas até o momento
nenhum ensaio foi autorizado. “Existe uma preocupação
muito grande com a segurança”.
O Brasil pode agora
concentrar seus estudos numa linhagem totalmente brasileira,
acrescentou Stevens, sem se preocupar com propriedade industrial
ou patenteamento no futuro. “Se conseguíssemos, com nossas
pesquisas, transformar uma célula embrionária comprada
no exterior, 100% em neurônio, teríamos que pagar
patente ao proprietário da linhagem. Agora, somos livres para
trabalhar.”
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