9 de Outubro de 2008 - 16h53 -
Última modificação
em 9 de Outubro de 2008 - 17h44
Tarso parte 4: Brasil deve consolidar cultura jurídica contra tortura
Ivanir José Bortot e Marco Antônio Soalheiro Repórteres da Agência Brasil
Marcello Casal Jr./ABr
Brasília - O ministro da Justiça, Tarso Genro, concede entrevista exclusiva à Agência Brasil. Ele falou sobre sucessão presidencial, crise financeira e rechaçou as críticas do presidente do STF, Gilmar Mendes, de que o país vive num "estado policialesco"
Brasília - Em entrevista exclusiva
concedida hoje (9) à Agência Brasil, o ministro da Justiça,
Tarso Genro, afirmou que a tortura deve ser considerada prática inadmissível na cultura
jurídica do país, além de ser caracterizada como
“crime contra a humanidade, imprescritível”.
Em relação
à Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR), Tarso disse que o
governo nunca cogitou rever a demarcação em
faixa contínua, com 1,7 milhão de hectares. Afirmou
ainda que a derrota de Paulo César Quartiero - atual prefeito de Pacaraima (RR) e líder dos produtores de arroz na região - nas eleições
municipais do último dia 5 diminui o poder de influência do arrozeiro
sobre as comunidades.
Agência Brasil: A questão
de mortos e desaparecidos no regime militar ainda não foi
totalmente esclarecida. O que precisa ser feito daqui para frente
para dar uma solução a isso?
Tarso Genro: Uma coisa é
introduzir na cultura jurídica do país uma visão
de princípio de que a tortura é inaceitável como
método investigativo e de que é um crime contra a
humanidade, imprescritível. Essa é uma disputa
teórica, doutrinária, que fazemos diariamente, mas que
depende de decisões do Poder Judiciário em casos
concretos levados pelo Ministério Público. A questão
dos arquivos está sendo conduzida pela Casa Civil. Estamos
falando de arquivos secretos, que parte deles foram queimados, parte
retirados de dentro das estruturas de repressão, mas o governo
está tentando fazer uma trabalho de recuperação,
que é muito difícil. Está sendo conduzido pela
ministra Dilma [Roussef, da Casa Civil], tem o apoio do ministro [da Defesa, Nelson] Jobim, mas o mais importante
é mesmo colocar na ordem jurídica do país uma
visão definitiva banindo a tortura, tanto para presos comuns quanto para presos políticos.
ABr: Na eleição
em Pacaraima, na Raposa Serra do Sol, um opositor a Paulo
César Quartiero [líder dos arrozeiros de Roraima] será o novo prefeito.
Isso melhora o ambiente para uma solução?
Tarso: Acho que as
eleições não vão ter influência
nessa questão. Vão ter influência em diminuir o
poder pessoal do Quartiero sobre determinadas comunidades, porque
como prefeito ele tinha estrutura institucional mais sólida
para trabalhar. Mas não creio que a questão da Raposa
volte ao nível de conflitividade que já teve. Nós
temos um pacto implícito com todos os setores, com
exceção do Quartiero – nunca conversei com ele, nem
tenho motivo para conversar –, de que seja qual for a decisão
do Supremo vamos fazê-la cumprir dentro da paz e harmonia, de
um relacionamento com todos os interessados, por mais irregular que
seja a sua situação na região.
ABr: O governo
cogitou, em algum momento, independente da decisão do STF,
rever alguma coisa em relação ao tamanho da demarcação?
Tarso: O
governo quer uma decisão do Supremo, vai cumprir, mas entende
que sua demarcação está correta.