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Brasília - Crise
foi o tema central da entrevista que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva concedeu, hoje (10), à Agência Brasil e aos
portais Terra, Uol, IG, G1 e Limão. Ele disse que o Brasil
será o país menos afetado pela crise porque as finanças
e o sistema bancário estão sólidos. Ao falar de
crise, citou os programas sociais, a inclusão digital, as
medidas do Banco Central para conter a escassez de crédito e
da reunião que quer convocar com os parceiros do Mercosul para
traçar uma estratégia conjunta de enfrentamento da
crise. Leia a íntegra da entrevista.
Repórter -
Há algumas semanas, o senhor deu entrevista ao jornal O
Globo e disse que este talvez seria o melhor Natal da história
de todos os brasileiros. E o que vemos hoje é o comércio
cancelando encomendas diante da grande crise que o mundo está
vivendo. Qual o Natal nós podemos esperar este ano? Luiz Inácio
Lula da Silva - Eu continuo otimista, acho que nós vamos
ter um Natal extraordinário no Brasil. Até porque,
embora o Brasil esteja vivendo a economia global, a crise, ela não
chega no mesmo tamanho em todos os países do mundo. No Brasil,
nós não temos ainda nenhum grande projeto que sofreu
qualquer arranhão. A decisão do governo é manter
todas as obras do PAC [Programa de Aceleração do
Crescimento], de infra-estrutura. Nós já assumimos
compromissos, algumas dessas obras estão com financiamento
pronto, outras contratadas, outras em andamento. O emprego continua
crescendo, pelos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística].
Portanto, essa crise, embora
estejamos acompanhando tudo com lupa, embora seja maior que todas as
outras que aconteceram, seja a da Rússia, a Asiática,
seja a do México, a verdade é que o Brasil está
mais preparado. É como se tivéssemos tomado uma vacina
contra uma doença. Ela está demorando a chegar ao
Brasil e, se chegar, talvez seja numa proporção muito
menor do que está chegando no Estados Unidos, na Europa, o
epicentro da crise, onde estavam todos metidos na especulação
financeira, com o subprime. Ou seja, não é o
caso do Brasil.
O sistema bancário do Brasil
está sólido, as finanças públicas
brasileiras estão sólidas, a política fiscal do
governo está muito sóbria e serena, as nossas reservas
nos dão tranquilidade. Até agora, não há
sinal de que a economia brasileira esteja envolvida no subprime.
Portanto, ela [a
crise] pode chegar aqui muito menor e não vai atrapalhar o
nosso desejo de continuar crescendo. É óbvio que se
houver uma crise profunda de recessão nos Estados Unidos,
atingindo a Europa e a China, todos os países vão
sofrer.
Eu estou convencido de que o Brasil
vai sofrer menos que qualquer outro país em consequência
da crise surgida nos Estados Unidos. Estou convencido disso.
Portanto, todos nós temos que nos preparar para comprar tudo o
que a gente sonha para o Natal e torcer para que o Ano Novo seja
infinitamente melhor. Aliás, eu vi uma declaração
do presidente de uma dessas federações do comércio
dizendo que o otimismo dele para o Natal é muito maior que no
ano passado. Obviamente que o povo está vendo na televisão.
É preciso ver como essa crise está sendo vista todo
santo dia.
Eu vou contar duas histórias
para vocês. Primeiro, quando surgiu a história da gripe
aviária no mundo, não vou citar quem, mas saiu na
televisão a morte de uma galinha em Marília e disseram
que era gripe aviária. Aí, diminuiu o consumo do frango
no Brasil e a gripe não estava no Brasil. Se naquela época
você perguntasse: pode chegar aqui? Pode, mas não
chegou, porque o Brasil estava distante das aves migratórias.
Não chegou aqui porque nós nos preparamos antes. Eu me
lembro até que dei uma entrevista na Embrapa [Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária], com a imprensa, e eu
pedi que, quando tivesse uma situação dessa gravidade,
vocês comunicassem aos especialistas para poder fazer
investigação da notícia.
Depois, teve a questão da
febre amarela dos macacos, que se vendeu como se fosse uma coisa
nacional, quando na verdade era uma coisa localizada. Então, é
preciso que a gente dê às crises a dimensão que
elas têm. Essa crise americana é profundamente forte,
mas o Brasil está profundamente preparado. Essa é a
diferença básica. E por isso vamos continuar
incentivando.
Eu estive com o pessoal da Petrobras
esta semana e eles me comunicaram o seguinte: de US$112 bilhões
que ela tem para fazer investimento, US$ 104 bilhões é
caixa próprio, não depende de empréstimo. Além
disso, nós vamos trabalhar para ajudar as empresas brasileiras
para terem o empréstimo necessário que precisarem.
Estamos trabalhando forte para isso.
Acho que um presidente da República
nunca se reuniu tantas vezes com o presidente do Banco Central e com
o Ministro da Fazenda. Além de me reunir de manhã, de
tarde e de noite, converso nos intervalos. Nós temos que
acompanhar com lupa, para não termos surpresas. Além do
mais, o papel de um presidente da República é passar
tranquilidade para a sociedade, a serenidade que ela precisa para
continuar acreditando no pais e isso nós estamos fazendo e
vamos continuar fazendo, certamente. De olho, preocupados, atentos,
mas fazendo o que precisa ser feito no Brasil.
Repórter- Presidente,
em relação à crise financeira, pode ser anulado
o esforço dos países e do Brasil em investir no combate
à fome e à pobreza, que é um pilar do seu
governo?
Lula - Se nós
analisarmos friamente o mundo de 2008, nós vamos perceber que
ele é um pouco diferente do mundo de 1998, por exemplo. Vamos
perceber a diferença. A Rússia, a China, a Índia,
o Brasil, sobretudo esses países, não tinham a solidez
que têm hoje. Hoje, quando falamos em Fundo Soberano, estamos
falando em quase US$ 3 trilhões. Se pegarmos China, Índia,
Rússia, Arábia Saudita, México e Brasil,
ultrapassa US$ 3 trilhões. Dinheiro que está na mão
do Estado, que estava, há dez anos, todo quebrado. Por isso, a
crise russa, de apenas US$ 40 bilhões, criou uma crise no
mundo. Hoje, nesta crise, só os Estados Unidos colocaram quase
US$1 trilhão [para ajuda do sistema financeiro]. Nosso
amigo primeiro-ministro da Inglaterra [Gordon Brown], ontem
[9], anunciou mais US$1 trilhão para o sistema
financeiro.
Ou seja, já são US$ 2
trilhões e a crise não está causando, no Brasil,
o impacto da crise de US$ 40 bilhões ou de US$ 70 bilhões
de dólares. Isso porque o Brasil está mais sólido,
porque os empréstimos que temos que fazer já foram
contraídos, os bancos brasileiros estão mais
preparados, não estavam na especulação, isto
porque o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social] está mais estruturado, e a economia brasileira
está crescendo fortemente. Isso nós vamos continuar
fazendo. Tenho conversado, recebido cartas das indústrias que
vieram fazer investimentos aqui, todos dizendo que vão manter
os investimentos. Aliás, Deus queira que o Brasil seja um bom
lugar para eles façam seus investimentos, que tenham seus
lucros necessários para poder ajudar suas matrizes e poderem
pagar suas dívidas no exterior.
Os programas sociais vão
continuar. Acho que a elevação e as conquistas sociais
no Brasil têm demonstrado que podem acabar com a fome, todos os
países do mundo podem fazer isso. Custa barato, muito barato e
é muito eficaz. Ou seja, pouco dinheiro na mão de muita
gente, significa socializar as coisas neste país. Agora, muito
dinheiro na mão de poucos significa concentração
de riqueza e empobrecimento de todo mundo. Então, o Bolsa
Família, os programas de investimento na Educação,
Saúde na Escola, todos esses programas vão acontecer. O
Projovem, não vamos tirar um centavo desse dinheiro.
Muita gente diz que o presidente
Lula não está vendo a crise. Ora, meu Deus do céu,
eu sou um tipo de ser humano que quando vou visitar uma pessoa doente
num hospital, eu não fico dizendo a ele quantas pessoas
morreram daquela doença. Eu fico dizendo das pessoas que se
curaram da doença. Porque tem gente que vai a um hospital
visitar um doente terminal e dizem: ontem morreram quatro disso. Eu
não sou esse tipo de gente. O meu papel é passar
serenidade para a sociedade brasileira, a verdade absoluta. Agora, na
medida em que essa crise chegar ao Brasil e tiver implicação
na redução dos investimentos ou que o governo tenha que
reduzir os investimentos, com a mesma serenidade que eu digo que o
Brasil está num momento bom, eu vou dizer que a situação
está agravada, que vamos ter que fazer isso e aquilo e
anunciar as medidas.
Eu tenho evitado trabalhar com
pacote. Tenho dito ao Guido [Mantega] e ao [Henrique]
Meirelles que, com pacote atrás de pacote, esse país já
quebrou a cara muitas vezes. Então prefiro medidas pontuais,
na hora necessária. Se o médico diz que o paciente deve
tomar 20 injeções, você toma 22? Toma uma de cada
vez. Aí, você vai se curar melhor do que se tomar todas
de uma vez.
Comigo não tem pacote.
Medidas, quando for necessário, tomaremos medidas. E posso
dizer, com muita serenidade, muita atenção, que tenho
conversado com muita gente. Ontem, por exemplo, quando eu liguei para
o Bush [George W. Bush, presidente dos Estados Unidos] eu
perguntei: “presidente Bush, quando é que vão entrar
em vigor as medidas que você anunciou?”. Aí ele disse:
“olha, ainda vai demorar umas duas semanas e meia a três
semanas”. E nós sabemos o que implica o processo eleitoral
lá. Posso dizer a você que os programas sociais, os
investimentos nessa área é que garantem que o nosso
mercado interno continue crescendo.
Feliz o Brasil que tem crescimento
dos mercados interno e externo, que tem diversificação
de sua relação comercial, que não depende
exclusivamente da economia americana ou européia, como em
outros tempos, ou hoje, que temos relação comercial com
muitos países. Estamos conversando com todos os países.
O Guido, agora, vai ter reunião com os ministros do G20
financeiro [a reunião será amanhã, 11, em
Washington]. Nos próximos dias, talvez uma reunião
com os parceiros do Mercosul. Porque esse é o momento da
política, porque já que grande parte da economia
virtual falhou, em prejuízo da economia real, é o
momento dos dirigentes políticos assumirem a responsabilidade
de tomar as decisões.
Repórter - O TSE
[Tribunal Superior Eleitoral], nessas eleições,
legislou mostrando que os portais [de internet] deveriam
seguir as mesmas regras da campanha política que as
concessionárias públicas de rádio e televisão.
Também proibiu a propaganda fora da página única
de cada candidato. O TSE está legislando, na nossa visão,
de uma maneira que não pode fazer, caso contrário
restringe a livre expressão. O senhor concorda com a essa
atitude antidemocrática do TSE?
Lula - Se você
fosse candidato e tivesse sendo vítima da internet, com
certeza, você concordaria. Se você for um cidadão
brasileiro ou um presidente da República que ama a liberdade
de expressão e de comunicação, talvez não
concorde. Achamos que precisamos cuidar, da melhor maneira possível,
para que os meios de comunicação funcionem de forma
mais aberta possível e com a maior responsabilidade possível.
Acho que negar a informação ou proibir as pessoas de
fazerem a propaganda que quiserem fazer de seus candidatos é
você negar o direito de expressão que é tão
legítimo quando qualquer outra coisa que pode passar na
internet.
Penso que é preciso que a
gente tenha a seguinte visão: a internet é uma
revolução que, há 15 anos, ninguém
imaginava que poderia ser, ninguém tinha noção
de que um jornal televisivo, que passa todo dia, já fica velho
na hora que vai ao ar, porque a gente já sabe da notícia
pela internet. Então, tentar coibir um espaço em
que a gente recebe notícia em tempo real... Eu brinco sempre
que, quando faço um discurso aqui em baixo [no mezanino no
Palácio do Planalto], e depois, chego na minha mesa, está
aqui o discurso. Goste ou não goste, está lá o
que vocês publicaram.
Agora, vamos ter cuidado e
estabelecer regras para que você não possa fomentar
coisas como a pedofilia na internet ou outras coisas mais
graves. Mas, do ponto de vista da comunicação, da
liberdade de expressão, nós temos que agradecer a
existência da internet porque ela deixou tudo mais
antigo e ultrapassado.
Essa é uma revolução
que não sei ainda se os donos de meio de comunicação
já começaram a estudar, carinhosamente, de quanto mais
brasileiros tiverem computadores, mais acesso à internet
haverá.
Outro dia, estava pensando, a pessoa tira todas as músicas que
ele quiser na internet e, aí, as pessoas ficam
discutindo a pirataria, ou seja, a pessoa tira [a música]
dentro de casa. A pessoa baixa quando quiser e a hora que quiser.
Acho isso fantástico do ponto de vista do extravasamento da
liberdade do ser humano, de ter acesso às coisas. Acho
extraordinário.
Portanto, acho que precisamos tomar
cuidado para que, em nome de estabelecer uma regra de funcionamento
que coloque em risco a sociedade, como o caso da pedofilia, que eu vi
cenas a mim mostradas pelo Senado, realmente abomináveis.
Temos que ter um acordo com os provedores para terem responsabilidade
de não permitir que isso aconteça. Mas, fora disso, em
se tratando de debate cultural, politico, econômico, viva a
internet!
Repórter - Diante da
crise, o senhor já editou uma medida provisória
garantindo ao Banco Central a prerrogativa, se necessário, de
comprar as carteiras de crédito de bancos pequenos, tem
adotado um discurso de cautela, não alarmista em relação
à crise, que o senhor considera que ainda não atingiu
em cheio o Brasil. Caso essa crise fique mais forte, e acredito que a
tendência seja essa, e o Brasil se encontre no meio desse
processo, e caso o senhor veja que bancos grandes, grandes
instituições brasileiras acabaram se envolvendo no que
o senhor classificou de cassino, voluntariamente ou não, o
senhor considera a possibilidade de ajudar esses bancos? Ou o senhor
acha que eles devem pagar o preço, por se envolver no cassino,
com a irresponsabilidade?
Lula - O grande problema,
quando os governantes colocam dinheiro no banco, como colocaram,
recentemente, o Gordon Brown e o Bush, a idéia é muito
menos salvar o banco. A idéia é garantir aos donos das
contas nesses bancos que eles vão ter o seu dinheiro
garantido, porque, senão, o que acontece? A corrida aos bancos
quebrará o banco. É muito mais em função
disso. Alguns já estão agindo com mais sabedoria, eu já
vi, inclusive, pessoas mais conservadoras dizerem “olhem, nós
vamos disponibilizar recursos para os bancos, mas comprando ações
dos bancos, ou seja, as pessoas já não querem mais dar
[dinheiro aos bancos], como demos no Proer [Programa de
Estímulo à Reestruturação e ao
Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional].
As pessoas, agora, estão
fazendo o seguinte: está precisando de dinheiro para garantir
as contas correntes das pessoas? Então, tudo bem. Isso
significa que vamos comprar ações desse banco. Na hora
que a situação melhorar, você pode vender de novo
as ações e esse é um critério importante.
Deixa eu te dizer porque nós tomamos as medidas para que o BC
[Banco Central] pudesse fazer o redesconto. Porque o mundo
inteiro faz redesconto. No Brasil, isso não era permitido.
Pode ser que, no momento em que tomaram essa decisão, o BC não
tinha nem condições de fazer redesconto, mas agora tem.
Nós tomamos, como primeira
medida, vocês acompanharam semana passada, diminuir o portfólio
para que os bancos grandes pudessem comprar as carteiras dos bancos
menores. O Banco do Brasil, por exemplo, comprou três
carteiras. O que fomos informados, depois, é que havia uma
pressão muito grande dos bancos grandes em cima dos pequenos.
Ou seja, é aquele negócio, as pessoas querem levar
vantagem em tudo. Se existem sinais de crise no mundo, ao invés
de ter um mínimo de solidariedade, não existe, cada um
quer meter a mão, ganhar o máximo possível.
Nós não vamos permitir
que os bancos pequenos fiquem reféns dos bancos grandes. Vai
ser o próprio Banco Central que vai fazer o redesconto. E veja
que engraçado: foi a primeira vez, na história do
Brasil, que uma medida provisória, antes de ser assinada, foi
mostrada aqui, o Palácio [Palácio do Planalto]
aos parlamentares. Eu trouxe todos os líderes do Congresso
Nacional, comuniquei a eles o que ia fazer, fizemos uma exposição
da crise, com o Banco Central e o Ministério da Fazenda, e,
então, assinei a medida provisória na frente deles
porque não poderia ter futrica da imprensa antes de eu assinar
a medida provisória. E isso vai ser muito importante, porque
agora, os bancos pequenos têm a garantia de que, provando que
estão com problemas, o Banco Central fará o redesconto.
Repórter - Mas e no
caso dos grandes?
Lula - O Guido e o
Meirelles têm conversado todos os dias com os banqueiros e, até
agora, não há nenhum sinal de que os bancos estavam
metidos com títulos subprime. Obviamente que, se tiver,
vai aparecer, em algum momento. As pessoas não podem esconder
isso. Você veja que essa crise começou no ano passado. A
primeira vez que eu falei em subprime foi em setembro do ano
passado, parecia que não tinha nada, que era uma coisa
pequena, mas foi aparecendo, aparecendo. Quer dizer, isso é
como é boletim de criança que tira nota baixa e quer
esconder do pai, não adianta, um dia aparece.
Então, é melhor que as
pessoas contem logo [se têm títulos subprime],
para que se tome uma posição. Até agora, não
temos informação [de problemas com subprime] no
Brasil, portanto estamos tranqüilos. O nosso problema, hoje, é
de liquidez, e nós queremos ajudar, sobretudo em se tratando
de ajudar os exportadores brasileiros.
Repórter – Os
bancos centrais do mundo inteiro, dos principais países,
têm uma autonomia até maior que o Banco Central
brasileiro. O senhor cogita ou acha que é o momento de dar
autonomia legal para o Banco Central, aquilo que se discutia no
início do seu mandato? Além disso, o senhor poderia dar
mais detalhes sobre a reunião do Mercosul, e qual foi a
mensagem que o senhor pediu que o ministro da Fazenda, Guido Mantega,
e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, transmitissem na
reunião do FMI [Fundo Monetário Internacional] e
do G20 financeiro? A de que o Brasil não quer pagar o preço
da crise ou de que o Brasil aceita colaborar desde que não
seja para se prejudicar?
Lula - Eu acho que tem que
fazer uma reunião [com o Mercosul]. Estou viajando,
volto na próxima quinta-feira [16], só pode ser
depois de quinta-feira. Vamos estar viajando, eu e Celso Amorim
[ministro das Relações Exteriores], na viagem
vamos conversar sobre isso e decidir se tomamos uma decisão.
Depois disso, convoco a reunião.
A segunda coisa, com relação
à autonomia do Banco Central, isso não se discute mais.
Isso era uma coisa, eu diria, muito feita quando esses bancos, que
estão quebrando agora nos Estados Unidos, vendiam a idéia
de que eram a sabedoria financeira universal de todos os países
do mundo e davam palpites. O Banco Central brasileiro tem, hoje, uma
respeitabilidade que poucas vezes teve na história do Brasil.
Eu tenho a convicção, porque viajo o mundo, de que
nunca um ministro da Fazenda do Brasil e o presidente do Banco
Central foram tão levados a sério, como é levado
a sério, hoje, o Mantega e como é o Meirelles.
Portanto, a autonomia está na relação do
presidente da República com o Banco Central. Esse assunto não
se discute mais, não está na pauta de ninguém
mais.
O que temos dito, e isso também
é em razão da minha participação nas
Nações Unidas, eu tive uma reunião com o Gordon
Brown, com o Zapatero [José Luís Rodríguez
Zapatero, presidente da Espanha], com o primeiro-ministro da
Austrália [Kevin Rudd], com o da Áustria [Alfred
Gusenbauer] e nós discutimos a necessidade dos bancos
centrais se organizarem e estabelecerem um padrão de
funcionamento do sistema financeiro mundial, sobretudo quando se
trata de alavancagem. Você não pode permitir que alguém
possa financiar aquilo que não tem ou, se alguém está
financiando uma coisa, tenha suporte para pagar em momentos de crise.
No Brasil, normalmente, a
alavancagem chega entre nove e dez vezes. Nos Estados Unidos, chegou
a 35 vezes. Os bancos centrais, o FMI, o Banco Mundial, todos aqueles
que podem ter poder de interferência, precisam começar a
bater o bumbo nessa direção para que a gente normatize,
internacionalmente, que um banco só pode fazer investimento,
alavancagem, sete, oito vezes, e, assim, diminuir o potencial [da
crise].
Outra coisa que eu também
disse ao companheiro Guido e ao companheiro Meirelles, que é
uma coisa extremamente importante é essa figura do bônus,
ou seja, você tem uma quantidade enorme de diretores, de
gerentes, que estabelecem metas entre eles, e, depois, para cumprir
essas metas, fazem qualquer coisa, ficam trabalhando na chamada
economia virtual, onde não tem um real, não tem um
dólar, não tem um iene, não tem nada, é
só papel, papel, papel. E acontece o que aconteceu. É
preciso mais responsabilidade.
Vocês estão lembrados
que, quando eu fui para o G8 eu levantei a questão do mercado
de futuros do petróleo. Todas as conversas que eu tenho com os
países produtores de petróleo, quando a gente
perguntava mesmo para a Petrobras porque o preço do petróleo
estava a US$140, U$S150, eles diziam “é o consumo que está
na China, é o consumo na China”. Até que o Senado
americano pediu uma investigação para saber o que
estava acontecendo com o petróleo, porque a mesma quantidade
de barris de petróleo que a China consome estava sendo
especulada no mercado de futuros. Ou seja, era tão verdadeiro,
na época foi pouco divulgado, que agora a China continua
consumindo a mesma quantidade de petróleo e o barril caiu para
US$85. Qual a explicação, se não a especulação?
A mesma coisa com as commodities. Qual a explicação
para as commodities subirem do jeito que subiram em junho
deste ano, senão, outra vez, as pessoas vendendo aquilo que
vão produzir em 2010, 2012, 2013, 2014? Especulando,
precificando?
É preciso tomar cuidado para
que essas coisas, ao você comprar uma coisa dessas, você
tem que, pelos menos, depositar uma parte para saber se é
verdadeiro ou não. Essas coisas, eu penso que eles vão
discutir e, certamente, há uma tendência, porque agora
não é uma crise dos pobres. Agora, a crise, o calo na
verdade, é no pé dos ricos. Eles, que se apresentaram
para nós, nos últimos 50 anos, como infalíveis,
como pessoas que sabiam tudo, agora estão percebendo que,
quando a gente permite a vulnerabilidade no trabalho da economia,
quando a gente permite que a economia real seja ultrapassada pelo
cassino financeiro, todo mundo corre risco. Eu penso que é um
bom momento para o mundo se ajustar, para que a gente faça
regras claras que valham para o Brasil, que valham para o Paraguai,
que valham para o Uruguai, mas que valham para os Estamos Unidos,
para a Alemanha, para a França, para a Índia.
Repórter - Presidente,
o senhor acessa muito a internet? Que
tipo de programação o senhor gosta?
Lula - Acesso
muito pouco, muito mais através da Clara Ant [assessora do
presidente]. Quando deixar a presidência, vou acessar tudo
que não acessei. Esses dias, baixei umas músicas para
dar de presente. Queria baixar três músicas, uma era do
Paulo e do Sérgio Valle [Viola enluarada], depois
queria dar uma música para o Cid Gomes [governador do
Ceará]. Estava com ele, comecei a cantar e ele disse que
nunca tinha ouvido a música. Eu disse a ele que era do Ary
Toledo. E a outra era uma que eu queria dar para o Jaques Wagner
[governador da Bahia], uma que homenageia a Bahia. Uma que diz
que “sou da Bahia, não tenho horário e ninguém
pode zombar. Sou cabra macho, sou baiano toda hora”. Eles, que são
mais jovens, nunca ouviram essas músicas e queria dar para
eles.
Acho que não é apenas
isso. Não sei como os donos das produtoras de CD, de DVD vão
sobreviver nesse mundo libertário que a internet
possibilita às pessoas. Não sei se estão
exigindo alguma regulamentação, mas, em algum momento,
alguém vai começar a chiar em relação a
isso. Depois, tem uma coisa importante que é você ler
notícia sem sujar a mão. É uma coisa nobre. De
forma que, penso que o papel do presidente da República, e
acredito piamente, é que estamos fazendo o maior programa de
inclusão digital que o país já teve. Ou seja,
quando decidimos fazer um acordo com as empresas de telecomunicação
para colocar internet banda larga em 55 mil escolas públicas
urbanas deste país e quando decidimos colocar telecentros em
todos os municípios deste país. Essa semana fiz uma
reunião com os companheiros brasileiros, umas 12 ou 14 pessoas
que trabalham com telecentros, espalhados pelo Brasil afora, com
participação nas comunidades de internet. O
Computador para Todos [programa de inclusão digital do
governo], demoramos dois anos apenas para saber se a gente ia
financiar ou não, coisa que a gente poderia ter feito muito
mais rápido, estar vendo mais rápido.
Qual é o nosso objetivo? É
fazer com que as pessoas mais humildes do país tenham acesso e
possibilidade [de acesso a um computador].
Uma coisa que me sugeriram, e achei extraordinário, ontem
mesmo chamei a Dilma [Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil]
dizendo que tinha uma demanda, que é o seguinte: um
companheiro me disse que as obras do PAC, que estão sendo
feitas na periferia, se não tiver rede, têm que levar
rede internet para todos os bairros brasileiros que têm
obras do PAC. Achei extraordinária a idéia. Se está
sendo feito um investimento de R$ 400 milhões em esgoto
sanitário e água potável, aproveita e leva a
banda larga para lá. Vai fazer uma revolução
naquela comunidade.
Acho que o Brasil está
conseguindo recuperar o tempo perdido, porque, muitas vezes, a
criatividade dos políticos não permite que eles
avancem. Fica em um “rame-rame”, às vezes anos, quando
precisam ser muito mais ágeis e produtivos. Vamos terminar
2010 com um avanço extraordinário de inclusão
digital no Brasil.
Temos os laboratórios de
informática nas escolas técnicas. Todas as escolas têm
laboratório. Mas não me conformo. Em uma escola tem 300
alunos e tem um laboratório com 20 computadores. É
muito pouco. Precisamos colocar mais. Você veja uma coisa:
demoramos de um ano e meio a dois anos para aprovar a idéia da
inclusão digital. E por que fizemos o acordo com as empresas
de telecomunicação? Porque nós entramos na
Justiça para recuperar a Eletronet e fazer [a inclusão]
por conta do Estado e fazer todas as extensões de fibras
óticas que temos, as linhas de transmissões nos
gasodutos que estavam paralisados por brigas na Justiça. Mas
foi por conta dessa decisão nossa de que iríamos fazer,
que as empresas nos procuraram e disseram que iriam fazer e estão
cumprindo graças a Deus.
Repórter - Presidente,
para onde o senhor vai viajar para fazer campanha?
Lula - Ainda não
decidi, talvez vá a São Paulo só. Tenho pouco
tempo. Tenho uma semana fora [do país], quando voltar,
no dia 20 ou 22, vou à Jamaica. Depois, tenho uma semana só.
Repórter - Presidente,
agora com os laudos, o senhor acha que o Paulo Lacerda deve voltar?
Lula - Vamos esperar. Vou
dizer o que disse da última vez, que o Paulo Lacerda
[diretor-geral da Polícia Federal] é um
extraordinário profissional brasileiro. Feliz de um país
que tem um profissional do gabarito dele. Ele foi afastado até
para a garantir a honradez dele e, quando os laudos chegarem à
minha mão, eu tomarei a decisão.
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